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Já contei como odeio a neblina?

Ela é terrível comigo.

Conheço dois tipos de neblina. Uma delas vem à noite, enche meu coração de medo. A outra vem em dias frios, nos impede de ver e congela nosso corpo. Foi em um dia frio que tive os dois sentimentos ao mesmo tempo. O frio tomava conta do meu ser e travava meus músculos enquanto minha bota enterrava na neve fria. Sem ver nada, por causa da neblina, não sabia para onde correr, e dominada pelo medo… apenas ouvia os seus gritos.

Vapor denso e quente saía de minha boca e sentia meus lábios racharem. O ar frio entrava em meus pulmões e queimava meu peito, mas eu não podia parar. A dor que ardia meu coração me dava forças.

Senti que, depois de me perder na neblina, estava de novo no caminho certo. Meus pés afundavam na neve e podia sentir as pedras da estrada sob a neve. Só pude ter realmente certeza quando minha pelve acertou um guard-rail, estrutura criada para impedir os carros de saírem da estrada e caírem em um penhasco. Hoje o aparato físico havia me impedido de cair.

A neblina ainda me impedia de ver um metro sequer à minha frente. Seguia estrada com a mão no guard-rail para me manter na estrada e foi então que uma ventania, tão gelada quanto o hálito da morte, veio do penhasco e levou toda a neblina embora.

O frio foi tão intenso que tive que agachar e me envolver em meus braços. Enquanto tentava encontrar forças para seguir, ao mesmo tempo acreditava que meu corpo sensível jamais voltaria a se mexer e eu ficaria ali, congelada para a eternidade. Entretanto, sem neblina, o Sol se revelou, a pino sobre mim, e mesmo me esquentando tão pouco, me encheu de esperança. Levantei e enfrentei o vento frio e olhei em torno de mim para me localizar.

Avistei a estrada coberta de neve. Segui o trajeto com os olhos até que encontrei o que mais temia. O AeroMotor de Sandor estava encalhado em um pequeno barranco de pedra na lateral da estrada. Alguma parte de sua lataria estava enroscada nas pedras, mas os motores ainda funcionavam. A turbina expulsava fogo azul empurrando o AeroMotor cada vez mais contra o pedregulho. A parte terrível disso tudo era que eu não enxergava Sandor em lugar algum.

Falei pra você não pousar na tempestade, seu ibecíl!

Voltei a caminhar, ainda com a dificuldade de me locomover na neve. Voltei a usar o guard-rail para me orientar. Cheguei próximo ao AeroMotor e tentei procurar por Sandor. Sem sucesso, tive um pensamento que fez o terror crescer dentro de mim. Corri para a beirada do penhasco, e ele estava lá, agarrado em uma pedra. Nossos olhos se cruzaram, um mais assustado que o outro.

— Sandor!

— Cath! — respondeu ele, com sua voz abafada pelo vento. — Se afaste! Cuidado, Cath!

— Cala a boca! — gritei, furiosa. — Você não tem moral para me dar ordens! Olhe onde sua teimosia te levou!

Sandor sorriu ironicamente. Foi quando uma de suas mãos escapou da rocha e ele ficou pendurado, balançando com a força do vento. Com tanta neve, era óbvio que as pedras estariam escorregadias.

Tentei me aproximar para ajudar, mas então, o AeroMotor derrapou para meu lado e dessa vez senti o calor das turbinas aquecendo meu rosto. Por pouco, não tive meu rosto chamuscado.

Insistindo em andar em direção ao barranco de pedras, o veículo continuou derrapando pela pista, e dessa vez, tive que me afastar para não me queimar com o calor. Calor que começou a derreter a neve daquele canto da estrada, e logo a água começou a escorrer ribanceira abaixo.

— Sandor! —, gritei, quando percebi que a água escorrendo poderia lhe fazer escorregar mais uma vez.

Corri mais uma vez para a beirada, ignorando os dois escorregões que quase me levaram ao mesmo destino de Sandor. Me ajoelhei, usei uma mão para me agarrar à rachadura de uma rocha e com a outra tentei agarrar a mão de Sandor.

A mão dele estava muito longe para que eu conseguisse agarrá-la. Confiante de que estava segura e não escorregaria, tentei aproximar a mão mais uma vez.

— Cath! — gritou Sandor, que ainda se firmava com apenas uma mão. — Cuidado! Você vai cair.

— Cala a boca! — gritei mais uma vez. — Segura minha mão.

— Não consigo! Vou escorregar… 

E junto da palavra que pronunciou, uma enxurrada de neve derretida veio da estrada, passou por mim e desceu o penhasco. Quando a água ainda fria e lamacenta acertou Sandor, vi seus dedos deslizarem lentamente da rocha molhada.

Meu braço desceu mais uma vez em busca da mão de Sandor. Dessa vez, nossos dedos se tocaram e nossos olhos se encontraram. E eu, que estava morrendo de raiva, senti meu coração se acalmar. Sandor sorriu para mim e ambos sabíamos o que ia acontecer.

Com os dedos ainda tocados, nos despedimos. Aquele momento foi único, e naquele espaço infinitesimal de tempo, foi como se dias tivessem passado. Foi como se tivéssemos conversado por horas para relembrar nossos melhores momentos.

Acima de mim, o AeroMotor rugia como um dragão, cuspindo fogo e derretendo a neve. Ali em baixo, eu via Sandor falando alguma coisa, mas o barulho não me deixou ouvir. Eu sentia que agora o meu objetivo não era mais salvar aquele homem que eu admirava, mas sim, apenas aproveitar o máximo que pudesse, ali, com o seu olhar firme e vívido encarando os meus olhos.

Quando nossos dedos se afastaram, eu o vi partir, até ser engolido pelas neblinas que se acumulavam sob o penhasco.

Levei muito tempo para me dar conta que precisava sair dali antes do frio me consumir. Quando despertei, o AeroMotor estava parado, sem combustível. Meu corpo todo ardia de frio. Precisava sair dali logo e me esquentar.

E sabia que nem a melhor das fogueiras iria aquecer meu coração por completo. Levaria tempo para que o calor tomasse conta de mim outra vez.


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