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Levanto de minha cama com minha preguiça habitual. Rolo na cama sob as cobertas, me protegendo do vento do ar condicionado. Sentir o cheiro de coberta pela manhã e o sol entrando pelas frestas da cortina é uma das melhores sensações que se pode sentir. Isso implica sempre em mais dificuldade em sair da minha cama. E ainda, eu tenho um desafio para enfrentar, aquele que realmente queria me fazer ficar em minha cama para sempre…

Abro a porta do meu quarto e sinto o bafo quente e úmido do lado de fora entrar e derreter todo meu ser. Sinto minha pele suar no mesmo instante e percebo que minhas axilas iniciarão o processo de expulsar fedor de dentro do meu corpo.

Preparo um café coado no coador de pano e tomo ele amargo do jeito que eu gosto, para espantar os corvos de dentro do corpo. Um café tão forte capaz de fazer defunto levantar e retornar ao sofrimento do mundo dos vivos. No meu caso, sinto o calor tomar ainda mais conta de meu corpo.

Meus vícios, que apenas aceleram meu sofrimento.

Visto uma roupa simples para um dia de verão. Dia em que o ar está tão úmido que fico em dúvidas entre vestir roupa casual ou equipamento de natação. Pego minha pasta, cuidadosamente preparada no dia anterior, enfio embaixo do braço e saio porta afora.

O elevador fora de operação parecia chacota do destino. Me fazer descer cinco andares nessa estufa que era essa cidade só poderia ser um evento proposital, causado por uma entidade maior que julgou que eu deveria sofrer. Termino de descer as escadas e saio para fora do prédio quase como um nadador entra mergulhando em uma piscina, mas no meu caso, mergulhando na intensa umidade do ar que faz o lado de fora parecer um bloco de água quente, pronta para infundir um chá.

Ando o trecho da área comum de meu condomínio não prestando atenção em nada e ninguém. Meu mau humor está grande demais para dar atenção aos meus vizinhos carentes, que sempre armam acampamento na garagem pra poder papear com quem entra e sai do prédio.

Uma vez na rua, e livre de meus vizinhos, ando pela calçada, ranzinza. Ao menos tenho meu destino em mente. Andar até o ponto de ônibus, entrar naquela lata de sardinhas, compartilhar odores com outras pessoas, descer depois de quarenta minutos e então entrar no prédio onde entregarei os documentos que carrego comigo, e talvez por sorte, o ar-condicionado do local venha a me trazer paz e tranquilidade.

No ritual de andar até a próxima esquina e esperar os carros deixarem eu passar, sigo tentando mergulhar em meus pensamentos. Entretanto, quanto mais tento desviar minhas atenções do mundo, mais estressado e ansioso eu fico. Queria estar em casa, sob o vento de um ventilador, escrevendo meus contos e meus livros, mas, como dizem outros, a saúde também é importante.

Em um desses devaneios, congelo em uma esquina, esperando o sinal da direita fechar para eu passar. O mais importante naquele momento, não era esperar a luz verde piscar para mim, mas sim a crença que veio à minha mente.

E se eu estiver mergulhado em rotina?

Por um instante, o calor deixa de ser a prioridade em minha cabeça. O fogo que sinto agora é no peito e na alma. Olho para o céu e respiro fundo, tentando encontrar oxigênio no meio de tanta umidade. Chego a pensar que minha vida está acabando e ainda não fiz nada do que amo e desejo, e então, um som me acorda dessa loucura… 

Ao meu lado esquerdo, na rua, um carro parado buzina para mim. Então, ao lado dele outro veículo para e espera. O carro de antes buzina mais umas vez e então percebo que parei em frente à faixa de trânsito e ambos esperavam que eu iria passar.

Aquele não era o caminho que eu seguiria. Eu deveria seguir a direita, pela calçada, mas aquela opção se tornou tão… Agradável.

Pus o pé na faixa e atravessei.

Aquele dia, eu fui fazer outra coisa e sequer pensei no que deveria ser feito.

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