Transumanismo

Você já ouviu falar em Transumanismo? Sabe o que essa palavra quer dizer?

A primeira vez que ouvi falar disso foi lendo o livro Inferno, de Dan Brown. Nesse livro, um grupo Transumanista estaria preparando uma maneira de acabar com a superpopulação no mundo.

Mas afinal, o que quer dizer Transumanismo?

Quero te convidar para uma primeira análise superficial, que seria entender a palavra. Aqui encontramos o “trans” e o “humanismo”. Nesse contexto [1], trans mudança, ou a transição de um estado para o outro. Humanismo, o que somos, nossa espécies. Somando essas duas palavras, poderíamos pensar que transumanismo seria transitar do estado “humano” para outra coisa.

Mas que coisa é essa?

Uma das descrições simples [2] seria dizer que transumanismo é uma corrente de pensamentos que estuda maneiras de usar a tecnologia para melhorar o ser humano. Usar todo nosso conhecimento para melhorar a nossa espécie, para transitar a um estado superior, nos tornando melhores e mais preparados para enfrentar o universo.

O gênero literário que mais aborda esse tema é o Cyberpunk [3] e um dos livros mais famosos nesse gênero é o Neuromancer [4], de William Gibson. Em histórias desse gênero, usamos partes mecânicas para substituir partes perdidas, ou até, melhorar nosso corpo. Órgãos imprimidos em impressoras 3D podem ser implantados em nosso corpo para substituir um órgão doente. Ou até, como em Admirável Mundo Novo [5], que podemos criar remédios capazes de curar qualquer sentimento negativo.

Em um olhar superficial, tudo parece muito lindo e perfeito. Temos a impressão que esse tal de “transumanismo” trará um futuro cheio de coisas boas e redução de sofrimento para nossa espécie. Entretanto, a literatura do cyberpunk traz também ideias do lado sombrio desse tipo de tecnologia.

Com o Soma [6] - remédio que cura de sete a quatorze sentimentos - de Aldous Huxley, podemos nos tornar seres sem sentimentos, enganados por uma felicidade falsa, que seguem suas vidas sem entender o que os sentimentos ruins significam. Outro caso seria, se você tiver um braço robótico, alguém poderia hackeá-lo e assassinar alguém em seu nome. O mesmo poderia ser dito dos imaginados implantes cerebrais.

Em resumo, podemos dizer que o transumanismo tem uma meta principal: acabar com o sofrimento humano. Para isso, estudamos maneiras de curar doenças, viver mais, acabar com o sofrimento de outros ou depredação do planeta, até acabar com sentimentos que nos atrapalham, etc.

E não precisamos viajar para o futuro para encontrar transumanistas. Quantas histórias não ouvimos de viajantes que vinham para a américa acreditando encontrar uma fonte capaz de dar a imortalidade para quem bebesse a água dela ou a busca incansável pelo remédio que tudo cura. O transumanismo é uma vertente filosófica que permeia a existência de nossa espécie. Não está relacionado diretamente à tecnologia, mas sim à constante busca pelo fim da dor e da mortalidade.

Entretanto, repito o que já falei. Eu não acredito em uma utopia onde o homem usará tudo isso para criar um mundo maravilhoso, mas sim, uma distopia cyberpunk, onde esses conhecimentos também serão usados para o mal e para concentrar o poder na mão de poucos.

O ser humano é egoísta demais para que todos juntos lutem por um mundo perfeito. E os transumanistas continuarão com seus esforços, cada vez com um problema novo para resolver.

Talvez o egoísmo seja a pior característica do ser humano e o maior desafio para o transumanismo. O que seria de nossa espécie sem ela?

Referências:

  1. Wikipédia - Trans
  2. Wikipédia - Transumanismo
  3. Wikipédia - Cyberpunk
  4. Neuromancer
  5. Admirável mundo novo
  6. Soma

Ato Imperial I - O Necromante

Dia Vinte e dois, do quarto mês do Ano da Peste.
Trecho I da polêmica reunião Imperial — A Praga

— Senhoras e senhores, ha ha ha — iniciou o imperador, sentado na poltrona imperial, na ponta de grande mesa. — Eu sei que só tem uma senhora aqui, mas ela vale por mil! Ha ha ha!

“Os Adeptos de Ruskov estão dizendo que estamos em uma distopia, por causa da questão do vírus aí! Mas eles não vão roubar minha hemorroida!”

Sério, o Imperador olhou para todos na mesa. Jurava que o que tinha dito era algo sério e de impacto, mas os conselheiros pareciam não dar atenção.

— Essa questão aí, da praga — continuou o imperador,  voltando-se a um de seus conselheiros, que era um homem pálido e usando um capuz que mais parecia um morto-vivo — se os países vizinhos não vão responder, temos que mudar isso daí.

“Kaish, como meu conselheiro nessa questão aí, preciso que leves a cura para todos os nossos cidadãos para que continuem trabalhando! Temos muita Panaceia estocada e comprei mais ali, do nosso vizinho… aliado… sim, sim. Tem mais chegando.”

— Eu, é, eu… — começou a falar o conselheiro, que parecia atingido com uma forte comorbidade. Sua mandíbula mal conseguia se mover e seus olhos não paravam abertos. De tempos em tempos, lambia os lábios para umedecê-los. — Eu, sim. Sim. Panaceia? Sim, sim. Sei. É, que…

— Não, não. — Prosseguiu o Imperador. — Não é contraindicado. Pode tratar da logística.

(…) Essa questão aí, não podemos deixar nosso povo parar de trabalhar, Paulo Praxedes…

— (…) Esse é o momento! É a hora de passar a boiada…

— (…) Eu estou é mais preocupado com a minha HEMORROIDA!!! Eu preciso de mais informação! Quero minha família protegida.

— (…) Autocracia… Não quero autocracia, mas desse jeito…

O imperador se levantou e todos o acompanharam.

— Cada um sabe o que fazer. Essa é a hora de mostrar para que que viemos!

***

Adão Glória sempre foi um rei sensato. Ao menos, pareceu sensato quando a peste chegou. Enquanto uns culpavam Ruskov pelo mal que assolava a população do Império, Adão reuniu seus auxiliares e colocou o reino de São Tarso para funcionar.

Não demorou nada até o maior reino do Império da Braza se destacar, trazendo a inveja dos outros líderes à tona. Em um momento em que todos precisavam estar unidos para enfrentar o mal, o povo ainda tinha que engolir a rixa entre Adão Glória e seu líder, o imperador de Braza.

Entretanto, Adão tinha um passado obscuro. Antes de se tornar rei e assumir o lugar do pai, ele era apenas um almofadinha na corte. Com seu sorriso que parecia feito de plástico, Adão era mais um instrutor de pequenos comerciantes cheios de dinheiro que tentavam ganhar a vida explorando os outros. Mas o filho do rei conseguiu superar todas as expectativas negativas quando convenceu o pai a transformar resto de comida da corte em ração, para que ele pudesse dar aos pobres.

Pobre era Adão, que acreditou que aquilo o tornaria popular. Tornou-se popular, mas não do jeito que ele gostaria.

Por outro lado, a chegada da Chama Purificadora foi uma oportunidade única para Adão. Uma vez no poder, — enquanto o imperador delirava com sua panaceia, — Adão atacou direto no ponto, seguindo os conselhos dos magos. Enquanto todos os reinos gastavam todo seu ouro com a panaceia, que não funcionava contra a peste, Adão usou seu dinheiro para isolar a população e começar sua própria pesquisa.

Tudo correu bem.

Outra coisa que correu bem foi a notícia de que o rei de São Tarso estava procurando pesquisadores e estava pagando bem. Magos, alquimistas e estudiosos de todo o mundo viajaram para São Tarso para tentar botar a mão naquela grana.

— Vossa majestade, — falou um homem de idade avançada, com longas barbas brancas. Sua voz era rouca, parecia ter gritado por dias. — Nunca na história desse reino tivemos uma oportunidade tão grande. Um momento único. Minhas habilidades e capacidades nunca foram tão úteis para todos nós. A metade norte do império e o reino vizinho, Sundar, estão devastadas pela Chama Purificadora. É hora de usarmos isso a nosso favor.

“A necromancia nunca foi tão útil. Tantos corpos. Podemos reviver esses corpos e criar uma muralha para impedir o avanço de outros infectados. É a maneira mais eficiente de lidar com essa situação.”

— Senhor Horácio, — comentou o rei Adão, depois de ouvir o depoimento do mago a sua frente — acho seus métodos um pouco agressivos. Você não trabalhava com aquele vampiro? Que foi o último imperador?

— Meu senhor, — prosseguiu o necromante — eu entendo o medo tradicional da necromancia. Muitos a temem por lidar com os mortos. Apesar de tudo, tenho que reforçar que a magia da morte é natural. Os corpos já não possuem mais almas e lembranças de quando eram vivos. São apenas marionetes.

— Ainda assim nego a sua súplica. — Continuou o rei. — Muitas dessas magias aí são proibidas no império. Não posso me indispor ainda mais. Próximo…

Por fim, o rei Adão decidiu por fechar negócio com a Guilda dos Metalúrgicos, um grupo mercenário liderado por um gnomo engenheiro que trazia mais de mil soldados armados com armaduras de metal, maçaricos, lança chamas, espadas flamejantes e flechas explosivas. Um dos maiores arsenais em mãos livres da atualidade.

Então, a operação Glória se iniciou e arrepiou até a alma do imperador.

Durante dias, os mercenários andaram pelas ruas do reino com suas armaduras reluzindo a luz do sol. Pessoas que eram detectadas com a Chama Purificadora eram capturadas e nunca mais eram vistas. Havia lendas de que os doentes eram levados para campos de concentração, ficando afastados dos puros. Outros até diziam que lá os doentes eram fuzilados ou usados em experiências para uma possível cura.

Muitos se perguntavam como aqueles soldados não se infectavam, mas suas armaduras eram preparadas para esse tipo de situação. Nada de fora entrava em contato com seus corpos, utilizando modernos respiradores goblin para proteger quem estava lá dentro do ar infectado.

O temor por esses mercenários era tão grande que as pessoas começaram a se esconder dentro de suas casas quando ouviam o marchar característico, de centenas de pés enlatados batendo contra as pedras das ruas.

Em menos de uma semana, as ruas de São Tarso estavam vazias. Apenas sombras do medo caminhavam por lá.

***

— Imperador, — disse Paulo Praxedes, que cuidava do tesouro do império — temo em dizer que temos um problema com as taxas. Sim, sim. Mesmo com meu imposto novo, e a taxação sobre os livros, a cobrança da taxa deste mês veio reduzida pela metade. Metade!

— Metade, Praxedes! — gritou o imperador, pondo-se em pé, na frente do trono — Como assim?

— Basicamente a taxa de São Tarso parou de chegar.

— Patifaria! Esse Adão Glória quer acabar comigo! Prepare o exército, vamos enviar uma comitiva até lá para cobrar a taxa.

— Certo, meu senhor, — continuou Praxedes, cauteloso — mas devo lhe avisar que, mesmo que façamos isso à força, podemos chegar lá e não encontrar o ouro. Caso isso aconteça, os outros reinos nos acusarão de tirania. Seu título ficará ainda mais enfraquecido.

— Como assim… “ainda mais”?

— É, meu senhor. — Paulo Praxedes parecia não querer tocar nesse assunto, mas não encontrou saída. — Você dizer que a eleição imperial foi fraudada colocou o título em cheque. Se você agir com tanta energia por nada, apenas piorará as coisas.

— Mas que merda é essa!? Não consigo nem reinar… quer dizer, imperar em paz! Mas me diga uma coisa, por que o rei Glória não teria esse dinheiro? Se ele não enviou, deve estar em algum lugar. É o dever dele.

— Sim, entendo, majestade. O que quero dizer é que talvez o rei não esteja coletando seus impostos internamente também. As informações que tenho é de que existe uma companhia de mercenários marchando nas ruas e todos os mercados e outras lojas de manufatura estão fechadas. Logo, ninguém está pagando impostos.

— Mas aí é responsabilidade dele. Eu preciso das taxas!

— Entendo, entendo! Por outro lado, o Parlamento e a Suprema Corte já estão trabalhando para, enquanto a Chama Purificadora durar, cortar as taxas imperiais, abstendo os reinos e cidades estados das taxas imperiais: Se isso der certo, as coletas irão diminuir para zero por um longo tempo.

— Isso não vai acontecer. Tenho três filhos no parlamento. Eles impedirão isso de acontecer.

E não conseguiram. Na mesma semana, o parlamento aprovou a lei e a suprema corte endossou. No mês seguinte, nenhuma barra de ouro ou moeda foi carregada dos reinos para o distrito imperial.

O imperador foi obrigado a acatar, pois agredir a decisão desses dois poderes o colocaria definitivamente em uma má posição. Foi então, em um canto escuro do palácio imperial que Kaish, Praxedes, o Imperador e seus três filhos se encontraram.

— Calma, meninos! — Começou o imperador. — Sei que vocês se esforçaram, mas a conspiração está trabalhando forte contra nós. Um dia teremos poder suficiente para nos juntarmos a nossos aliados e marcharmos contra Ruskov, mas, enquanto isso, precisamos quebrar sua influência dentro do nosso reino.

 — Estamos perdendo força, pai. - Disse o filho mais velho. - Minhas companhias mercenárias não conseguem mais penetrar em São Tarso. Para isso, criaremos um conflito muito grande. A Companhia dos Metalúrgicos é muito forte para ser combatida frente-a-frente.

— Podemos investir em tráfico de informação — comentou o filho mais novo. — Com umas mentiras aqui e outras ali, podemos pagar os sofistas para irem para as cidades pregar que a Panaceia realmente funciona e não precisam ter medo. Pelos menos assim a maioria dos reinos e estados podem voltar a operar e pagar as taxas.

— Entretanto — interrompeu Praxedes, — gastaríamos a metade de nossas reservas para enviar sofistas para todas as grandes cidades do império.

— Preço que precisamos pagar! — Afirmou o filho mais novo do Imperador.

— Kaish, — interrompeu o imperador. — Como está a distribuição da panaceia?

— Eu… é… sim… panaceia.

— Sim, a panaceia.

— Ela… não está funcionando… digo… não…

— É porque não estão tomando o suficiente! — Insistiu o imperador, levantando o tom de voz. — Pode intensificar, vou precisar de você para nossa próxima ação. Vamos pôr os sofistas nas ruas e distribuir mais panaceia. Quero esse remédio entrando em São Tarso de qualquer maneira. Uma vez lá, teremos influência sobre a população e eu vou colocar aquele Adão Glória na forca!

***

As ações do imperador geraram impacto muito rápido. As mentiras sobre um tal remédio que curava a Chama Purificadora e a alta disponibilidade de tal produto fez com que as pessoas perdessem medo da doença e voltassem às suas vidas normais.

Em São Tarso não foi diferente. Livres do medo, as pessoas começaram a ser mais ousadas. Os artesãos começaram a abrir suas lojas e o mercado voltou a ficar movimentado. Quando a Companhia dos Metalúrgicos surgia, todos se escondiam. Mercadores preparados corriam com suas caixas e mochilas e artesãos fechavam as portas de seus estabelecimentos.

Entretanto, mesmo com as coisas tentando se ajustar e com a melhora na economia, o parlamento manteve a decisão de não cobrar as taxas imperiais. O imperador ficou ainda mais furioso. A cada passo que dava, sacrificava um pedaço do seu poder e mais regredia.

Foi então que tomou a decisão final. Existia alguém que sobreviveu a essa política podre dos poderes e somente ele poderia ajudar o imperador a tentar reverter essa situação.

Com uma pequena comitiva, o imperador se preparou para sua longa viagem. Tirou suas roupas caras e vestiu uma armadura repleta de detalhes dourados. Sentiu-se forte e confiante e, quando um soldado falou que o protegeria se algo acontecesse, ele retrucou e falou que devido ao seu histórico de atleta ele não precisaria de ajuda.

A cavalo, andaram por quase uma semana em direção norte da Cidade Imperial, até chegarem à parte mais antiga do império, onde a colonização de todo o império se iniciou, há muitos séculos.

A excursão chegou em um dia chuvoso e escuro à cidade de Castigador. O imperador já vinha alimentando uma angústia em seu peito de pôr os pés naquele lugar e o clima não estava ajudando.

Depois de deixar os cavalos e as cargas em uma estalagem afastada do centro da cidade, disfarçados, andaram pelas ruas até encontrar o Castelo Temerário.

A maioria dos castelos do império foram reduzidos a simples museus depois da invenção da energia e da pólvora. Entretanto, aquele ali era onde morava o ser mais sinistro e mais antigo de toda humanidade. Aquele que governava o império antes do atual imperador. Dono de uma lábia e artimanha que todos invejavam, era responsável por manipular e tomar o trono a força. Depois de assumir o posto de imperador sem ser eleito, quase perpetuou seu feito para toda eternidade.

O Temerário Senhor das Trevas não só era temido, como era odiado por todos. O senhor das sombras tinha a habilidade de ver o ódio quase como se fosse palpável. E o ódio o alimentava. Ódio e sangue.

O imperador entrou no salão vazio sentindo o frio tomar conta de seu corpo. As paredes geladas do castelo eram tão opressoras que parecia que iriam cair sobre eles. Enfrentando o medo que a escuridão causava, avançaram, arredando crânios e teias de aranha, até chegarem no salão principal, que estava vazio e sem ninguém para lhes recepcionar.

— Ó, Temerário Senhor das Trevas! — Gritou o imperador e sua voz quebrou o silêncio como um trovão. — Eu invoco sua presença! Eu, Imperador dessas terras, venho aqui em busca de conselhos seus, já que esteve em meu lugar no passado.

Uma revoada de morcegos ocupou o teto do salão. Uma centena de criaturas voavam em um estardalhaço, gritando e assustando ainda mais os soldados que acompanhavam o imperador. Os morcegos começaram a se aproximar, descendo do teto em forma de redemoinho, quase como o desenho de um tornado, iluminado apenas pela luz das tochas que os soldados carregavam.

A ponta afunilada tocou o solo e, aos poucos, os morcegos foram se unindo, assumindo a forma de um ser humano. Quando o processo de metamorfose terminou, um homem vestindo um fraque e gravata estufou o peito, com um sorriso amarelo e duas presas que refletiram a luz das tochas. Seu olhar era vil e opaco. O ser era tão velho que um simples sopro o derrubaria no chão e todos seus ossos quebrariam.

— Pois olhe só! — Falou o vampiro. — Quem vem aqui, na minha casa, um ano depois de me destronar.

— Pera lá! Essa questão aí, não foi coisa minha. Ha Ha Ha. Eu fui eleito, e naquela questão lá, quando você virou imperador, eu até estava do seu lado.

— Entendo! Pois então, diga-me, a que sua presença em meu castelo se deve, então? Além de tomar a minha atenção.

— Senhor, venho em busca de conselhos, entendeu! Tenho o senhor como referência, uma vez que nessa questão aí… de tomar o trono a força, soube negociar com o parlamento e com os patifes da suprema corte, pondo panos quentes e se mantendo no poder.

“Então, ó, Temerário! O que devo fazer para seguir os seus passos?”

— Entenda, jovem humano, que mesmo que você queira, você não possui o vasto conhecimento que tenho para uma situação dessas. Mas dar-te-ei uma opção, que pode te ajudar:

“Dentro do parlamento existem dois grupos podres que são de fácil corrupção. Um deles é formado por criaturas sombrias como eu: Vampiros, Lobisomens e Esfoladores Mentais que se alimentam do sangue, carne e cérebro dos seres vivos. Prometa-os mais alimento e eles te seguirão. Prometa escravos mentais e os Esfoladores serão seus.

“Mas tem uma outra bancada, que está sedenta de poder. Porém para comprá-la você precisará de coragem. A Bancada dos Necromantes. Libere o uso da Necromancia e Magia Negra dentro do império e eles te seguirão como se não houvesse amanhã. Não importa a loucura que você esteja disposto a cometer.

“Compre esses dois grupos e o parlamento será seu.”

O imperador retornou para a Cidade Imperial com a sugestão do Temerário em sua cabeça. A bancada das criaturas sombrias e podres foi convencida com muita facilidade. Oferecendo a eles setores do império nos quais eles poderiam se alimentar e parasitar sem limites, começaram a apoiar o imperador e o caos se iniciou no parlamento.

Comprar somente os vampiros e companhia não foi suficiente para pôr suas vontades a força no parlamento. Sem opção, o imperador fez o que tinha que ser feito. Em um dia, acordou cedo como deveria, foi para o palanque imperial, onde podia fazer seus discursos, e esperou seus fiéis se aglomerarem.

— Meus caros seguidores! — Gritou o imperador, levantando os braços. — Hoje é um dia importante, pois é início de uma nova etapa do meu governo. Eu hoje proclamo meu primeiro ato. O Ato Imperial I, o primeiro de muitos. E nesse ato, eu proclamo a Necromancia e Magia Negra como artes livres dentro do império.

A notícia do Ato Imperial I caiu como uma bomba. A Suprema Corte reagiu, mas era tarde demais. No mesmo dia, o imperador já tinha apoio de mais da metade do parlamento. Ocupados por Necromantes e outras criaturas sombrias, a política imperial virou um circo, digno de ser escrito em pergaminhos históricos.

O caos também desceu todas as esferas do governo até chegar à população. A mudança drástica na política fez muitas pessoas acreditarem que algo bom estava por vir e que surgiria uma nova era de fartura. Logo os reis locais começaram e enfrentar rebeliões e desordem em níveis descontrolados.

Em São Tarso, outros regimentos de mercenários, pagos por sabe-se lá quem, surgiram para enfrentar a Companhia dos Metalúrgicos e dominar as ruas, trazendo a liberdade mais uma vez para a população.

Enquanto o imperador e os reis regionais brigavam por política, o parlamento seguiu dividido. A Suprema Corte perdeu seu poder de influência e não conseguiu mais colocar as leis imperiais em vigor.

Nas ruas, os sofistas seguiram espalhando mentiras sobre os reis e as atitudes dos mesmos. Convenciam as pessoas de que a Panaceia do Imperador era o melhor remédio e que preveniria todas as doenças existentes no mundo.

Enquanto isso, pessoas seguiam morrendo, longe da atenção de todos.

E a Chama Purificadora seguia cada vez mais forte.

***

Os limites Norte e Oeste de São Tarso marcavam uma região crítica do reino de Adão Glória. Ali ele lutava contra a chegada da Chama Purificadora em suas terras. Os dois vizinhos que o reino tinha, ao norte e ao oeste, já sucumbiram para a peste e, aos poucos, pessoas que fugiam para seu reino vinham trazendo a doença.

Naquele lugar medonho, a Companhia dos Metalúrgicos fazia plantão, com seus lança-chamas, impedindo que qualquer um se aproximasse. Mas agora, com a intervenção das outras companhias contra eles, o espaço estava aberto e pessoas tentavam mais uma vez cruzar aquela fronteira buscando por proteção.

A faixa de cinzas, com quase um quilômetro de extensão, mostrava a todos que ali vegetação, cidade e pessoas foram carbonizadas. Quando a chuva chegava, a cinza levantava e se misturava com as nuvens, fazendo a chuva cair em cor negra sobre outras cidades. Um casebre todo queimado, mas ainda em pé: foi onde o encontro aconteceu. Adão Glória, vestindo uma roupa preta com máscara, entrou pela porta e deixou os guardas do lado de fora.

Lá dentro, Horácio, que era um necromante que Adão conhecia, esperava, segurando uma caveira em sua mão e admirando as cinzas que ainda estavam em volta daquela estrutura que um dia foi a cabeça de alguém.

— Seu Horácio, — começou Glória, sem paciência — eu preciso de você. Sei que recusei seus serviços antes, mas agora preciso de suas habilidades. Pago o que for preciso.

— Curioso, não? — Comentou o necromante, sem tirar os olhos da caveira. — Nunca na história desse povo eu vi algo desse tipo. Eu tenho é que agradecer à natureza por ter criado essa praga, que mesmo que coloque vidas em risco, essa criação veio em boa hora para mostrar que somente a necromancia pode resolver certas crises. Essa situação somente os mortos podem resolver.

O necromante tirou os olhos do crânio e apontou para o rosto espantado do rei Adão.

— Majestade, tenho permissão para agir?

— Permissão e o ouro que precisar. Preciso estar no controle do meu reino.

— Mas há um preço. A solução que virá não irá salvar as vidas que poderíamos ter salvo se tivéssemos usado a necromancia antes, ou se o Imperador não tivesse se intrometido por aqui.

— Agora as vidas não importam mais.

— Assim será!


O Preço da Informação

Quando vi a internet pela primeira vez, me espantei com o oceano de possibilidades que ela permitia. E quanto mais o tempo passou, mais ela evoluiu e mais potencial consegui enxergar em seu desenvolvimento.

Eu posso dizer que meu pensamento principal ao ver a internet se tornando popular no começo do século foi que ela era uma rede de informação quase infinita. Quase sem fim, propriamente dita, quase tudo estaria lá. Apenas precisávamos ter interesse de correr atrás de uma informação, e ela estaria ali, a uma pesquisa de distância.

Isso se tornou tão forte no meu desenvolvimento profissional, que eu posso dizer que muito do que sei hoje é devido a meu interesse de pesquisar, ler, analisar, reforçar o conhecimento com outras fontes, e por fim, sintetizar um conjunto de informação. Tudo isso, muitas vezes, pela internet.

Por exemplo, quando me formei, eu aprendi a programar C++. Eu saí assim do meu curso de engenharia. Eu era um cara que aprendeu um monte de coisa na teoria, aprendi a fazer pesquisa --- em projetos de pesquisa, --- e programar C++.

Meus primeiros anos --- além do mestrado que fiz em seguida --- eu trabalhei com desenvolvimento C++. Entretanto, o tempo passou e o desenvolvimento Web se tornou popular, e eu tive uma grande oportunidade de me atirar em um projeto desses. Então, fui eu ao Google e estudei. Aprendi desenvolvimento Web lá, novas tecnologia, novos paradigmas. Em alguns meses estava trabalhando oficialmente em projetos Web. E o faço até hoje.

Ok, falei como é legal ter acesso a informação. A comunidade de desenvolvimento de software é realmente cooperativa, muito mais do que competitiva. É um fenômeno da internet. Entretanto, ao mesmo tempo que você acessa fóruns e cursos online, você também encontra muita gente o fazendo software de má qualidade ou com uma certa… inocência. Coisa que não é feita por maldade, apenas por inocência. Uma pessoa descobriu algo que ela julga bom para ela, e passou adiante como se fosse um padrão.

O que quero dizer com esses exemplos: que ao mesmo tempo que temos informações boas na internet, temos também, informação ruim.

Trago agora o discurso para nosso paradigma atual: na internet temos Verdade e Mentiras. E esse é um assunto polêmico nesses momento, principalmente porque temos Verdades que estão a tona e outras que estão enterradas atrás de paredes, que só se abrem para quem paga (paywall) [1]. E também, existe alguns tipos de mentiras. As mentiras que são causadas por inocência das pessoas, que acharam que algo que viram ou observaram era verdade, mas também, há mentiras que são criadas, com seus criadores tendo alguma segunda intenção.

Nesses tempos atuais, a internet tem se expandido muito mais para o lado da dissimulação do que da informação.

Outro exemplo é o que acontece atualmente com os meios de comunicação (falando aqui dos confiáveis). Para se manterem vivos na internet, eles tiveram que cobrar pela informação. Assim como na vida sem internet, onde você compra o jornal, você também tem que pagar para ler uma notícia online.

Já a mentira é de graça. Assim como antes da internet, você ouvia fofocas na padaria ou na festa do patrão, hoje, as mentiras chegam nos WhatsApp, Facebook e outras formas digitais. E você não precisa pagar por elas.

“A verdade é paga, mas a mentira é de graça!” --- Nathan J. Robinson [1].

Assim como o autor dessa frase aí, eu não estou aqui para julgar esse fenômeno, pois, sim, a Folha de São Paulo tem que pagar seus jornalistas, e como fazer isso sem cobrar pelo acesso à informação?

E o que podemos observar aqui, é que esse fenômeno histórico apenas se repete. O que antes acontecia nas ruas de uma cidade, agora acontece por meios digitais.

Isso nos leva a pensar que --- talvez, que --- a informação verdadeira é só para quem tem dinheiro e a mentira é para qualquer um. Essa minha frase não é uma “viagem” tão grande se for pensar que os segredos militares e espaciais estão fechados em cofres em algum lugar por aí. Dessa maneira, quem tem dinheiro, tem acesso à informação.

E o que me faz pensar profundamente, a partir dessa afirmação de que dinheiro leva à informação --- e que em um país como o Brasil, onde há diferença social notável --- que os ricos e privilegiados têm acesso à informação, e pode cada vez mais se atualizar e se especializar. Mas quem não tem, como pobres e miseráveis, permanecerão nesse patamar, onde além de não terem dinheiro e acesso à serviços básicos, eles também estarão privados da informação, ou terão acesso è ela de forma limitada.

Posso levar o pensamento ainda um pouco para baixo, para sair da internet. Por exemplo, as escolas nas periferias possuem uma qualidade consideravelmente inferior e escolas em regiões nobres. Ainda mais, ricos podem pagar por estudo, enquanto pobres dependem das escolas públicas. Lembro claramente de quando meu irmão precisou estudar em escola pública e ele reclamava que chovia dentro da sala, enquanto as que estudei, na privada, nunca aconteceu algo nesse nível.

Colocando um pouco de energia positiva em minhas palavras, assim como grandes instituições estão interessadas em manipular através de Fake News (fofocas), felizmente, muitas pessoas detentoras de alto poder capital estão interessados em ver um mundo melhor, balanceando as coisas um pouco para o lado da luz.

Por fim, volto ao assunto que comentei quando falei sobre linchamento virtual. Eu vejo no futuro a internet ser limitada e controlada. Os governos mais autoritários terão interesse em saber quem está inventando coisas, ou quem está disseminando informações verdadeiras sobre algo que um político não goste. Ou será isso, ou continuaremos assim, mergulhados em um mar onde a mentira tem muito mais poder do que a verdade.

Ou para inverter esse cenário e manter a internet livre, teremos que lutar muito ainda...

E aí, o que você acha? Nó aprenderemos a lidar com as mentiras virtuais ou continuaremos influenciadas por elas? Os governos um dia irão limitar a internet ou ela permanecerá assim com é, livre?

Referências:


Cancelamentos

Você já deve ter ouvido o termo “O Tribunal do Twitter”, certo?

Hoje, esse tribunal, é o maior responsável por julgar quem está certo ou não nas redes sociais. Um tribunal formado por pessoas de qualquer tipo, de qualquer opinião, gênero, cor, etnia, e etc.

Um processo neste tribunal, acontece mais ou menos da seguinte maneira:

1. Uma pessoa “famosa” é exposta por algo errado que ela cometeu. As provas são apresentadas através ou de prints de telas, fotos, vídeos ou links para outras mídias (jornais e afins).

2. Um grupo de pessoas, que não são famosos, mas são influentes (40 mil seguidores ou mais) entram em ação. Eles postam em suas redes sociais algo como: “E aí galera! Vamos cancelar o X pelo assédio que ele realizou?”

3. A mensagem desse influente permeia todos os seus seguidores. As marcações com @ e # atingem um grupo ainda maior de pessoas. Os seguidores compartilham as provas digitais do crime e logo, meio milhão de pessoas podem estar bloqueando o “criminoso”.

4. Banido de todas essas redes sociais, todas essas pessoas nunca mais verão os posts daquele famoso. Ele perde visibilidade, e anos depois, a pessoas que bloquearam não precisam mais se preocupar, afinal, o bloqueio é para sempre.

5. A pessoa famosa está: cancelada.


Olhando por esse processo, parece interessante. Os famosos que cometeram algum crime são bloqueados por um conjunto grande de pessoas e jamais poderão se pronunciar novamente.

Mas eu vejo um certo perigo nesse processo. Antes de avançar, recomendo a leitura do meu artigo sobre linchamentos[1]. Pois, o que vejo acontecendo aí, nesse “O Tribunal do Twitter”, é nada mais e nada menos do que um linchamento virtual.

Nesse evento, uma pessoa grita: olha ali o estuprador!!! Depois disso, uma centena de pessoas que nem sabem se é verdade ou mentira entram na brincadeira. Logo, essa pessoa está banida da sociedade (nesse caso, da sociedade virtual).

Vamos para algumas observações:

O caso em que deu certo: Blogueirinha Y acusa Vegano Z de ter assediado ela. Ela anuncia o evento, mostra prints e vídeos. Logo toda a rede social está bloqueando o perfil do Vegano Z.

Tempo passa e novas pessoas entram na internet. Essas pessoas podem gostar ou não do Vegano Z. Se elas lerem a notícia do que aconteceu, pode ser que essas novas pessoas sigam esse rapaz novamente ou não.

Um caso a se pensar: Ana456 está um dia navegando em suas redes e encontra uma postagem de 10 anos atrás de Zézinho56. Essa postagem mostra uma piada feita com animais. Ana456 fica irada com o que leu e inicia o processo de cancelamento de Zézinho56.

E assim como o “É o Tchan!” e o “Gugu Liberato” mostravam nos anos 90 coisas que não deveriam estar na televisão na frente de crianças, o tempo mudou para Zézinho56 nesses 10 anos, e nada que ele faça apaga seu passado.

Um caso mais complicado: esse caso é bem simples. Um cancelamento se inicia porque uma pessoa famosa teria assassinado outra pessoa a sangue frio e a lei não estava fazendo seu papel em prender esse assassino.

O perfil acusador surge com vídeos pegos de câmeras de segurança e fotos do assassino executando sua vil tarefa. O cancelamento é realizado. A pessoa famosa desaparece da internet por anos.

Depois de um tempo, a lei investiga e prova que o acusado era inocente. Não era ele no vídeo e nas imagens. Inclusive, ele tinha um álibi, estando viajando para a Europa no dia do crime.

Livre das acusações, essa pessoa tenta voltar à sua vida normal. Mas o “O Tribunal do Twitter” não esquece. Essa pessoa já está bloqueada e jamais será desbloqueada. Sua voz não será ouvida pelas pessoas que o acusaram injustamente.

E pior, a reputação dessa pessoas poderá estar tão marcada, que agora, ela jamais conseguirá voltar à sua vida normal. Ela terá que encontrar outro caminho.


Nestes três casos, tentei abordar algumas possibilidades. Desde quando o cancelado é culpado de realizar algo ruim, quanto quando alguém é cancelado injustamente.

E assim são os linchamentos [2]: há um clamor popular por justiça, e essas pessoas acabam a fazendo com suas próprias mãos, estando certas ou erradas, em muitos casos, levando o linchado à morte.

Certas vezes, os linchadores estão tão sedentos de justiça que sequer querem saber se o linchado é o criminoso ou não. Agredir alguém parece a solução.

A verdade é que o cancelamento está trazendo a tona uma coisa do passado. O Talião virtual. O velho “Olho por olho, dente por dente”. A ideia de que a lei da reciprocidade é a que vale, mais do que qualquer outra lei.

O grupo que resolve linchar alguém se considera capaz de Julgar e Executar a pena. Será mesmo?

E quem julga errado, paga pelo erro depois? Digo, no velho “olho por olho, dente por dente”? Qual é o preço que você deve pagar por cancelar alguém injustamente? Por linchar alguém?


Por essas coisas, eu sempre aconselho quando posso: se você viu algo errado, leve à lei e deixe ela julgar.

Depois que ela julgar, a deixe punir.

Depois disso tudo, um simples unfollow no perfil social do criminoso faria seu trabalho. Dependendo do crime, é natural que as pessoas deixem de seguir ou tomem ações mais pesadas.

Eu também sempre tento observar as coisas pelo caminho da empatia. Acredito que erros possam ser reparados e pessoas possam melhorar. Mesmo que alguém faça algo que eu jamais volte a olhar para aquela pessoa, e mesmo que seja muito difícil perdoar, não posso eu, um integrante da sociedade, excluir outro por simples belprazer.

Oposto à lei do Talião, existe outro dizer popular bem interessante: “Não faça aos outros, aquilo que não quer para você”.


Referências:

[1]. O mundo e os linchamentos: D. R. Laucsen

[2]. Quando “pessoas de bem” matam: um estudo sociológico sobre os linchamentos: Danielle Rodrigues de Oliveira


O mundo e os linchamentos

“Elinel, meio-elfo, filho de Sulinel (elfo) e Elora (humana), doze anos, flor da infância. A família vivia feliz em Comodoro Suriel, uma cidade estado de integração entre homens e elfos ao sul do Império.

Tanto o Império quanto o reino dos Elfos da Floresta do Sul, Eliredand, não aceitavam mestiços e raças estrangeiras. A família sabia que, se existia algum lugar em que poderiam viver, era no Império. Mas para facilitar a vida desses excluídos, existia cidade como as zonas de integração. Assim, os estranhos podiam viver com menos problemas.

Entretanto, a felicidade dessa família entrou em colapso no dia que o pequeno Elinel chegou em casa, com as roupas rasgadas e sangue lhe escorrendo pelas pernas. O olhos cheio de lágrimas encontraram os da mãe, que no mesmo instante desabou sobre os joelhos e desatou a chorar.

--- Não tive culpa, mãe! --- choramingou o jovem. --- Não tive culpa!

***

A notícia do estupro do jovem elfo se espalhou pela cidade. Ninguém sabia quem era o estuprador e o rapaz não lembrava de conhecer o criminoso de algum lugar.

Cidades como Comodoro Suriel eram grandes favelas, juntando exilados, expatriados e bandidos. Os governos nunca resolviam os problemas de criminalidade, e apesar de terem integração no nome, mestiços, elfos e outros raramente eram integrados ao reino Humano. E assim como esperado, as autoridades da cidade deram o caso como finalizado, uma vez que o menino não reconheceu nenhum dos possíveis agressores.

--- Eu não aguento mais --- Comentou Sulinel, escorando no balcão de um bar. --- Ser obrigado a viver nesse lixo de lugar.

--- Calma, meu chapa! --- Disse um anão, subindo em um banco para conversar com o elfo. --- Não vá perder o controle agora.

--- Mal consigo dormir, sabe? --- continuou Sulinel, não dando atenção para o anão. --- Fugir daqui não é uma opção, mas não consigo mais viver pensando que quem atentou contra meu filho vive por aí, solto.

--- Já pensou em um clarividente?

--- Clarividente?

--- Sim, sim --- continuou o anão, dando um grande gole em uma cerveja. Sua voz saia rouca entre os pingos de cerveja. --- Feiticeiros que estudam visões e profecias. Eles podem visualizar um momento do passado. Eu sei onde mora um.

Não acreditando muito no anão, Sulinel resolveu tentar. Junto de seu filho, se dirigiu até a cabana do tal feiticeiro.

O vidente era um elfo velho, com longas barbas e pele enrugada. Seu cabelo havia caído, destacando uma grande careca circular, com duas enormes orelhas pontudas, uma em cada lado.

--- Você quer descobrir quem atentou contra seu filho? --- comentou o elfo feiticeiro. --- Isso vai ter um custo. Você sabe né?

Sulinel estava preparado para isso e jogou a bolsa de ouro sobre a mesa. Então o feiticeiro tocou a grande bola de cristal com seus dedos finos e ressequidos. A esfera brilhou, assim como os olhos dele.

--- Sim, sim! --- comentou ele, ainda em transe. --- Pablo. Filho do marceneiro. Ele levou seu garoto para o beco, o ameaçou com uma faca. E depois… 

E depois Sulinel sabia muito bem. Com aquelas palavras gravadas na mente, seguiu seus dias sem saber o que fazer. Poderia armar contra Pablo e dar um fim a ele. Ou talvez tentar avisar as forças policiais, mas ele sabia, que o governo não faria nada, afinal, a informação do feiticeiro não poderia ser usado como prova.

Entretanto, certo dia um pouco antes do almoço, Sulinel já nadava em um oceano de cerveja. Bêbado e sentindo o coração apertado, deixou escapar o que pensava e o nome do Pablo.

--- Tenho certeza que foi --- falou o estalajadeiro, que era humano. --- Esse rapaz, Pablo, sempre odiou elfos. Eu vi ele dando um chute em um gnomo uma vez. Sem piedade.

--- Ele é um vagabundo --- comentou outro Elfo, sentado em uma mesa perto de Sulinel. --- Finge que vai para aula, mas vive com seus amigos encrenqueiros aprontando por aí.

--- Pensei em… --- Tentou falar Sulinel, mas foi interrompido pela mulher do estalajadeiro que ouvia de longe.

--- Pois você deve sim dar uma surra nesse rapaz. Onde já se viu! Atentar à uma criança? Não existe perdão para uma coisa dessas.

--- Mas eu já comuniquei a polícia. E o que esse vidente falou, não são provas para prendê-lo.

--- Não é de prisão que precisamos --- gritou um elfo que também estava bêbado, e ouvia de longe. --- Aqui nessa cidade apenas nós podemos fazer justiça.

--- Sim! Justiça!

--- Justiça!

Antes mesmo que Sulinel pudesse falar mais alguma coisa, o grupo formado por umas cinquentas pessoas marchava pelas ruas.

Quando chegaram na marcenaria, o grupo começou a gritar, ordenando que Pablo viesse ao lado de fora. Um homem velho e barbudo, da pele morena e marcada pelo sol surgiu na janela.

--- Pablo não está --- falou com paciência o marceneiro. --- O que querem?

--- Queremos justiça! --- Gritaram uns.

--- É! --- gritou um elfo bêbado, dando um passo à frente. --- Você sabe o que seu filho fez? Ele estuprou uma criança. O que você pensa disso?

--- Certo --- comentou o marceneiro, levantando a coluna e ponto as mãos no parapeito da janela. --- Então avisem a polícia. Se meu filho for culpado, que seja preso.

--- Aqui ninguém vai chamar a polícia!

Rápido como uma raposa, um elfo enfiou a mão dentro da janela, agarrou o marceneiro e arremessou ele para fora. O velho, sem muita resistência, caiu de costas no chão de terra.

--- Seu filho vai morrer --- gritou um outro manifestante. --- Ele é um bandido por culpa sua! Você não o criou! Não o educou! Aquele imprestável.

--- Meus senhores --- comentou o marceneiro, tentando se levantar. --- Vamos conversar… 

--- Sem conversa --- gritou um outro manifestante, se aproximando e dando um murro nas costas do pai de Pablo. --- Se você tivesse educado seu filho, ensinando o que é certo, ele não teria cometido uma barbaridade dessas.

O marceneiro tentou se levantar mais duas vezes, mas foi impedido todas as vezes. Agora a multidão circulava o marceneiro e eram tantas mãos lhe empurrando que sequer conseguia levantar a cabeça.

O grupo continuava clamando por Pablo, apesar de manter o pai ali, sob controle. Foi então que uma bota, que ninguém sabe de quem era, entrou no centro do grupo e acertou a perna do marceneiro.

O primeiro chute foi o estopim do que veio em seguida. Outros pés chutaram o corpo indefeso no chão. Os chutes eram leves, e mais humilhavam o homem do que machucavam. Mas um especial entrou e acertou a cara do marceneiro, abrindo o supercílio e esparramando sangue sobre a poeira do chão. Depois outro, e outro. O terceiro chute acertou a boca, e quebrou dois dentes da frente. Um dos dentes saltou e rolou pelas pedras de cascalho.

Naquele momento, eram tantos chutes, que um barulho de costela quebrada se destacou no meio da bagunça, e então Sulinel percebeu que agora usavam paus e pedras para agredir o homem.

Antes mesmo que pudesse ter noção do que estava acontecendo, o marceneiro perdeu sua vida, ali, no meio daqueles chutes e pauladas.

***

Dias depois, no quartel da polícia, Sulinel levou seu filho Elinel para um reconhecimento. Dos dez humanos apresentados, Elinel não reconheceu nenhum.

--- Eu acho que ele era elfo, pai --- comentou, depois de olhar para os homens, se referindo ao criminoso que lhe atentou.

O que Elinel não sabia, era que entre os dez homens, estava Pablo, o filho do marceneiro espancado até a morte, naquele momento, inocentado pela própria vítima do crime.

E Sulinel também não sabia que o vidente era um farsante, que morava na cidade e ganhava dinheiro enganando os outros.

A justiça com as próprias mãos, naquele dia, havia falhado.”

***

Toda essa história poderia ser uma simples fantasia, se não fosse verdade [1]. Trocamos elfos por humanos. Videntes por informações vindas de redes-sociais e nomes fantasiosos por reais.

Outra história é a de um pai de família[2] que foi morto, linchado até a morte, confundido com o verdadeiro criminoso. Também temos o caso que até tem nome, Justiceiro do Carnaval [3].

A maioria dos linchamentos que encontrei envolverem estrupro ou estupro com pedofilia. Me parece que esse assunto é o que mais enaltece o sentido de “realizar justiça com as próprias mãos”.

Entretanto, de todos os linchamentos, alguns deles leva a população a humilhar ou assassinar a pessoas errada. Onde ambos os lados saem perdendo… tanto quem morreu ou foi humilhado injustamente, quanto ao assassino, que geralmente vem a se arrepender pelo que cometeu.

Linchamentos são eventos que permeiam a história e estão presentes em nossa sociedade, mesmo sendo considerado algo que não devesse ser realizado. Muitas pessoas, ao parecer, acreditam que essa é a única maneira de fazer justiça, já que o estado ou é lento, ou ausente, ou favorece alguns, etc.

Ao meu ver, essa é uma situação sensível. Se um estuprador não é preso porque a justiça é lenta ou “passa pano”, eu me revolto e fico indignado com um criminoso desse nível solto por aí.

Por outro lado, discordo de linchamentos. Acredito que o papel de punir é do estado, que faz as leis e as aplica, e tem o dever de fazer sendo justo com todos.

E você, o que acha?


Referências:

[1] - Linchamento do Pai

[2] - Mataram um inocente

[3] - Justiceiro do Carnaval

[4] - Artigo mais amplo


Dupla Existência

Marco acordou podre. Rolou na cama durante horas, desligou o despertador diversas vezes e só quando as costas começaram a doer que sentou na lateral da cama, esperando o corpo reagir e a mente entender que era hora de levantar.

Levantou-se e respirou fundo, sentindo o cheiro de ácido no ar, resultado de uma noitada acompanhada de garrafas e garrafas de vinho.

Achei que tivesse bebido cerveja.

Afastou a cortina e abriu a janela para deixar o ar circular. A luz iluminou o quarto, o forte sol bateu sob a cama e começou a esquentar o tecido e a pulverizar os mofos que ali tentavam crescer durante a noite.

Marco dormia em uma cama de casal, sempre do lado esquerdo. O outro lado era para as gatinhas convidadas que passavam a noite ali. E naquele lado, a marca de um corpo se estendia pela cama, mas sem um corpo sequer.

A festa foi tão grande assim?

Marco vestiu-se e deixou o quarto. A mão esquerda correu de maneira automática até o trinco da porta do banheiro, mas algo em sua mente o avisou. Talvez ele estivesse em uso. Então ignorou e foi para a cozinha, onde abriu a geladeira, pegou um pote de iogurte e sentou-se em frente a televisão.

A bagunça era grande na sala. Ligou a televisão com uma pulga atrás da orelha. Sob a mesa de centro, copos sujos exalavam o cheiro azedo de cerveja e vinho. Alguns copos amarelados e outros roxos. Duas garrafas de vinho estavam vazias e seis latas de cervejas estavam  amassadas. Amassá-las quando o precioso líquido acabava era uma mania que tinha.

O programa de televisão começou, trazendo notícias do passado, mas Marco não prestou atenção. Ele estava mais preocupado em reconstruir os eventos do dia anterior.

Não sentia a famosa dor de cabeça de suas bebedeiras, mas seu estômago reclamava e queimava, era um sinal que havia abusado da bebida na noite anterior.

Refletiu fitando as garrafas. Seis latas era uma quantidade boa para ele, para sentir o brilho que o álcool lhe causava, mas também não era tanto para levá-lo ao extremo e gerar esse esquecimento todo. A única lógica era que alguém bebera com ele durante a noite passada.

Mas quem? Não lembro de nada!

Imagens da noite passada vinham à sua mente. Copos de cerveja, um filme de comédia e muita risada. Entretanto, a pessoa que bebeu o vinho não estava em sua memória.

Impaciente, começou a bater os dedos em um pote de plástico que estava vazio. Fitava a porta do banheiro esperando que alguém saísse de lá para descobrir quem era.

Sua mente se dividia entre esperar e tentar lembrar, mas falhou em ambas. Ouviu os pássaros cantarem em seu jardim, uma descarga sendo ativada no banheiro, sentiu um cheiro de café vindo de algum lugar e, quando não aguentou mais, correu até a porta do banheiro e tentou forçá-la.

Marco esperou forçar a porta para, de maneira acidental, quem estivesse lá dentro falasse algo. Entretanto, quando empurrou a porta, ela abriu com facilidade.

E para sua surpresa, o banheiro estava vazio.

Andou silenciosamente pelo banheiro, procurando por algo. Algum sinal. Olhou no espelho e enxergou seu semblante sério e sonolento. Seus cabelos negros desgrenhados e seus olhos escuros com olheiras profundas.

Por trás de si, entre as cortinas da banheira, um vulto cruzou de um lado paro outro.

O primeiro sentimento foi de um profundo arrepio. Quem é que estava ali? Era muito silencioso. Mas depois relaxou, afinal, logo resolveria seu enigma. Então, afastou as cortinas e encontrou a banheira vazia.

Ninguém estava ali.

Agora um pouco mais aflito, correu pelos cômodos da casa procurando por alguém. Foi para o escritório… Vazio. Sala… Vazia. Jardim… ninguém estava lá, além dos pássaros. Quarto… Vazio.

Andou pelo quarto acreditando encontrar alguma peça de roupa ou alguma outra coisa, como telefone, bolsa, brinco. Qualquer sinal de alguém. Marco teria desistido naquele momento e acreditado que ele havia tomado as duas garrafas de vinho, entretanto, algo o proibiu de seguir essa linha de raciocínio. Durante o tempo que foi para a sala, percorrendo a casa em busca de um ser desconhecido, alguém entrou ali e arrumou a cama rapidamente.

Marco estava surpreso com o estado do quarto. Lembrava que há poucos minutos estava ali, em uma eterna bagunça. Agora sua cama estava arrumada e a coberta lisíssima esticada em algo que parecia uma superfície perfeitamente plana. A outra janela estava aberta e as cortinas gentilmente amarradas, enfeitando o quarto como jamais seria capaz de fazer.

Foi nesse momento que seu peito encheu de desespero. Respirou fundo e tentou se acalmar. Talvez devesse, mais uma vez, tentar esquecer isso tudo e seguir em frente. Talvez tivesse um lapso de memória, ainda abalado pela bebedeira da noite passada, afinal, se ele bebeu seis latas de cerveja e duas garrafas de vinho, seu corpo realmente estaria implorando por descanso.

Voltou para a sala e quando andava pelo corredor, sentiu o cheiro de café se tornar mais intenso. Sob a mesa de jantar, a térmica estava fechada com uma xícara ao seu lado. O cheiro era muito mais forte ali.

A paranoia de Marco foi para o espaço. Voltou a olhar em todos os cantos, procurando por um vestígio e para piorar, agora a mesa de centro estava limpa. Não conseguia ver as garrafas e latas, mas os copos sujos estavam dentro da pia, esperando para serem lavados.

Quase que em modo automático, lavou os copos e os colocou no escorredor. Seu sensor, de que algo estava errado, estava ligado a todo o momento. Quando terminou, secou as mãos, pegou a xícara de café, a encheu e andou para o jardim, que ficava na parte de trás de casa.

Respirou fundo e deu um gole no café. Marco gostava do jardim porque ali se sentia bem. E como não trabalharia naquele dia, talvez fosse uma boa cuidar das flores ou plantar alfaces.

Enquanto sorvia o líquido negro, seu telefone vibrou em seu bolso. Pegou rapidamente e leu a mensagem.

— Onde vocês está, Marcão!? Estou há meia hora te esperando.

Correu o dedo pela tela para ver as conversas anteriores e então lembrou o porquê de ter colocado o telefone para despertar. Precisaria encontrar seu amigo, Ângelo, ainda cedo.

Marco viu aquilo como uma chance de se livrar do mal que lhe assolava dentro de sua própria casa. Jogou a xícara na grama, esparramado o resto de café desapareceu.

***

Adriano se balançava de um lado para o outro, colado ao corpo de uma linda mulher. Sentia o cheiro dela e lhe faltava ar. A tocava e seu coração entrava em combustão.

Sua mente fantasiosa imaginava-se abraçando uma fada, pois era assim que conseguia descrever sua beleza. Estava tão fascinado por aquela mulher que sua pele parecia brilhar. Carregar seu peso durante a dança era como se ela voasse entre seus braços enquanto seus cabelos voavam com o vento.

Foi então que seus olhos se cruzaram mais uma vez, os rostos congelaram quando os narizes se tocaram. Seus olhos brilhavam como fogo, o qual entrava em seu peito e fazia seu coração arder ainda mais.

Petrificou perante aquele olhar. Em sua visão periférica, a via sorrir. Ela também o desejava como ele a desejava. Então, os lábios se tocaram e seu peito explodiu.

Adriano acordou segurando o próprio vômito. A dor em seu tórax era enorme. Usou a mão para tapar a boca, como se pudesse impedir o que vinha. Como um corisco, correu até o banheiro e deixou a natureza de seu estômago fazer o trabalho, colocando toda sua bile para fora com os restos da bebedeira da noite passada.

Abaixado na privada em uma posição humilhante, esperou o peito se acalmar enquanto observava a si mesmo no reflexo da água que empoçava no fundo do aparato. Desejou não ter bebido na noite passada. Praguejou quando lembrou que bebeu duas garrafas de vinho e essa quantidade — que era sim demais, mas — não era suficiente para lhe fazer tanto mal.

Quando sentiu que seu estômago tinha estabilizado, puxou a descarga e lavou o rosto. Aos poucos, o corpo recobrou suas funções e a sede tomou conta de si. Bebeu água da própria pia, sentiu o gosto do cloro e do ferros dos encanamentos da velha casa em que vivia.

Um pouco mais animado, deixou o banheiro e, em uma rápida passada pela cozinha, colocou a água para esquentar. Depois disso, voltou para o quarto, onde começou a organização.

Arrumou todas as roupas jogadas. Dentre elas, encontrou uma cueca que não reconheceu. Uma daquelas que ficam no fundo da gaveta e, de tempos em tempos, aparecem por aí. Jogou todas as roupas para dentro do armário, não se importando mais com a organização.

Arrumou a cama, pensando em como era bom ter uma cama de casal para dormir sozinho. Podia dormir dos dois lados, apesar de gostar muito do direito. Por um instante parou para pensar no porquê o lado esquerdo sempre estava bagunçado, mas ignorou esse pensamento, era irrelevante naquele momento.

Deixou a sua cama impecável e abriu as janelas da casa. Notou também que dormira com uma das janelas abertas, mas também ignorou isso. Era coisa do passado. Arrumou as cortinas e abriu a última janela.

Estou pronto para meu dia!

De volta para a cozinha, começou a arrumá-la, pois se ia passar um dia bem, iria passar com limpeza. Jogou as garrafas de vinho fora e as seis latas de cerveja, que também estranhou ao pegá-las. Não costumava tomar cerveja, mas isso explicou o estômago destruído naquela manhã. Também jogou um pote de iogurte fora e o restante na pia para lavar depois do café.

E por falar em café, a chaleira chiou e iniciou o lento processo de pôr a água no pó e esperar ele escorrer para a garrafa. Quando completou, fechou a térmica e a deixou sob a mesa com uma xícara, que usaria em seguida.

Sentiu o cheiro do café tomar conta do ambiente e de seu ser. Andou até a geladeira para pegar comida, quando sentiu um forte cheiro.

Olhou dentro do lixeiro que tinha acabado de abrir para pôr as garrafas e cheirou.

Adriano quase teve que voltar para o banheiro para vomitar, mas controlou-se. Trancando sua respiração, abriu o lixeiro mais uma vez e espiou.

Ficou mais perplexo do que enojado. Encontrou lá diversos bilhetes rasgados, peças de lego, o aro de um caderno de anotações, pedaços de carne assada e uma maionese cheia de pedaços de legumes, que devia envolver batata, pepinos, cenoura e cebola.

Churrasco?

Sem pensar muito, amarrou o lixo, tirou do lixeiro e correu para fora.

Andou pelo pequeno caminho de pedra que dava da porta da frente até o portão da casa. Deixou o lixo no lixão e voltou, só então identificou um carro preto, com a janela do caroneiro aberto. Um motorista aguardava, olhando para a casa.

Adriano abanou de leve para o homem e ele retribuiu. Até pensou que o homem tentava lhe chamar, mas como não o conhecia, ignorou.

Outra vez, dentro de casa, sentou-se para beber seu café e percebeu, que a xícara não estava mais ali como deixou. Levantou-se para pegar outra, quando percebeu um vulto no jardim, atrás de casa.

Andou passo a passo, observando aquela silhueta negra parada ali, sob a grama que cultivava atrás de casa. Em um piscar de olhos, que foi o tempo de abrir a cortina para espiar, não havia mais ninguém lá.

Andou até o local, com uma certa insegurança tomando conta de seu ser. Onde antes estava aquela sombra esguia e sinistra, agora estava sua xícara, ainda com restos de café.

Pegou a xícara e olhou para os lados, mas não encontrou ninguém lá, apenas os pássaros.

Ainda sentindo um frio na espinha, ficou ali, paralisado, sob a luz do sol.

***

Marco contornou a casa tão rápido quanto uma raposa, abriu o portão e sentou no caroneiro do carro de Ângelo. Ficou congelado e observando o amigo pela visão periférica.

— Tudo certo? — perguntou o motorista.

— Sim, bebi demais.

O outro gargalhou.

— Certo, quero ver você correr o que você me prometeu ontem. Podemos ir?

— Sim.

O motorista acelerou e partiram para seu destino. Ângelo ligou o rádio e tocou uma música popular. Depois fechou os vidro e ligou o ar condicionado.

— Então, quem é o rapaz que está morando contigo?

— Comigo!? — perguntou Marco, assustado. — Ninguém, ué!

Ângelo também se assustou e deu um pequeno salto no banco.

— É que eu vi um rapaz na sua casa. Ele saiu e entrou.

— Foi no lixo?

— Sim.

— Então você deve ter confundido com o Adriano. Ele vem pegar restos do meu jardim para fazer adubo.

— Certo — comentou Ângelo, não satisfeito. — Tive a impressão de vê-lo entrar pela porta…

— Impressão sua. Moro sozinho há quase um ano. Você sabe disso.

— É sei…

Ângelo ainda não estava satisfeito, mas seguiram para seu destino.


Liberdade de Expressão

Nos últimos anos, o entendimento do que é “Liberdade de Expressão” vem sendo deturpado, ao ponto de que muitos não conseguem mais explicá-lo de maneira fácil.

Todos nós, Brasileiros, que acompanhamos a política, podemos ver esse assunto fervilhando na crise atual, entretanto, eu vos convido a destacar esse assunto da atual conjectura e pensar um pouco sobre o verdadeiro significado de “Liberdade de Expressão”.

Basicamente, estamos tratando de um composto entre Liberdade e Expressão. “Expressão” é originado em nossa capacidade de se expressar. Falar algo, escrever, tornar público. Até aí, tudo bem. Acredito que não haja muitas dúvidas em relação a essa palavra.

Entretanto, é em “Liberdade” que eu acredito que mora a maior confusão. Liberdade nos dá uma sensação de que, “se somos livres, tudo podemos”. E é aí que mora o erro. Tratamos a liberdade como se fosse algo universal. Nosso direito primordial.

Uma fácil comparação seria pensar no dia a dia:

“Somos livres para ter uma arma e assassinar alguém a nosso bel-prazer?”.

“Somos livres para andar a duzentos quilômetros por hora com nosso carro, porque confiamos em nós mesmo em detrimento da segurança dos outros? E se adicionarmos álcool?”

Estes exemplos nos mostram uma coisa: a liberdade é garantida por um conjunto de regras, dada por um grupo maior.

O que quero dizer é que, por exemplo, o estado chega e fala: você é livre, mas tem que pagar os impostos.

Neste caso, não somos livres para “não pagar impostos”. A liberdade tem limites.

Depois vem o convívio social. Somos livres, mas matar/roubar é feio. Existe aí um conjunto de regras que nos fazer viver com os outros, e que sem eles, seríamos puros animais.

E ainda vos convido a levar esse conceito ainda mais longe. Vamos pensar na natureza. O homem pode respirar em lugar sem oxigênio? Podemos dividir o átomo? Podemos voar? A resposta seria “sim, desde que com devidos equipamentos”, ou seja, essa é a natureza, nos impondo regras. Podemos ser criativos e buscar caminhos alternativos, mas as regras em si, elas não podem ser quebradas.

Voltando à liberdade de expressão, podemos pensar que: somos livres para se expressar, dada um conjunto de regras.

Regras das quais, podemos perceber que há muita gente por aí quebrando-as, sem dó e nem piedade.


O Restaurante

O ano é 2050 e o mundo é engolido pelo capitalismo. O stress que o ser humano passa no dia a dia é evidente nas mesas de bar, encontros sociais e festas. Uma manada de pessoas vivem em seus cabrestos durante a semana, para depois ter dois dias de folga. Vão ao cinema, bebem em uma discoteca no sábado e ficam com a família no domingo assistindo televisão.

O mercado anda agitado. O mundo transborda em tecnologia. Há novas invenções para tudo. Para comidas, eletrodomésticos, carros e mais tudo que se possa imaginar. Aos poucos, a era das startups chega ao seu fim. É cada vez mais difícil para um pequeno empreendedor conseguir dinheiro para pôr suas ideias em prática.

As pequenas organizações de outrora cresceram, ocupando todos os nichos do mercado. Novas empresas são massacradas pelo poder das maiores. Apenas os negócios muito inovadores conseguem algum respiro para seguir em frente.

Os funcionários dessas empresas é que são as verdadeiras máquinas, não mais os empreendedores e suas propostas disruptivas. Os trabalhadores passam horas e dias trabalhando. As tais leis trabalhistas já não existem mais e as pessoas são exploradas como simples recursos.

A verdade é que não existe mais planejamento e preparo. Tudo é feito em velocidade máxima. Todas as empresas estão com seus projetos atrasados e desorganizados. Os funcionários estão em seus ritmos enlouquecidos, afinal, não há lugar para o comum. Você tem que ser diferente! Trabalhar doze horas por dia, ainda mais em finais de semana, coloca você em bons trabalhos, caso contrário, apenas a fome lhe fará companhia.

E é nesse mundo caótico e frenético que nosso amigo, pai e cozinheiro, mantém o seu negócio.

Enquanto todos comiam suas rações, pequenas refeições rápidas e ultraprocessadas para não perderem tempo, Glauber seguia com sua lanchonete: Verdinhos & Deliciosos.

O crescimento populacional fez com que o número de lanchonetes aumentasse. Isso não atrapalhou o negócio de Glauber, afinal, mais bocas precisavam ser alimentadas.

E o que o Verdinhos & Deliciosos tinha de diferente era algo que estava em seu nome e em sua cultura. Alimentos vivos, naturais e benéficos eram o diferencial para as pessoas.

Em um mundo onde o tempo é escasso e cada segundo parece influenciar o salário no fim do mês, pessoas seguem seu ritmo como zumbis. São poucas as pessoas que não tenham desenvolvido algum problema devido à má alimentação. Dentre eles, problemas de pele, articulações, gastrites, diverticulites, problemas cardíacos, ansiedade e depressão.

Os problemas do homem parecem ser os mesmos de sempre, mas hoje, corpos podem ser encontrados em esquinas quando os corações deixam de funcionar. Antes as peles eram estampadas com tatuagens e belas imagens. Hoje, melasmas, psoríase e dermatites são marcas comuns estampadas no corpo das pessoas. Trabalhadores também perdem dias de trabalho por causa de disfunções intestinais, pondo seus próprios trabalhos em risco. Outros enfiam-se em suas casas, escondendo-se do mundo, agravando ainda mais seus problemas mentais.

Assim como a ciência ajudou às pessoas a nascer e viver por mais tempo, de modo antagônico, o capitalismo se expandiu e começou a eliminar a população, de maneira grotesca, transformando a vida humana em um eterno inferno, que deixaria Dante Alighieri orgulhoso em ver sua obra-prima ser a realidade dessa sociedade.

E o governo… bem, o governo parece não se preocupar mais com isso, deixando cada um a mercê de suas próprias habilidades… ou sua própria sorte.

Entretanto algumas pessoas preferem se precaver e se alimentar bem para manter o corpo saudável. E são restaurantes como a Verdinhos & Deliciosos que essas pessoas buscam para suas refeições.

Neste cenário, era de se imaginar que Glauber e sua família tinham uma ótima vida neste mundo, já que vivam em um verdadeiro turbilhão de caos.

As coisas não vão bem disse Glauber para seu filho, depois de fechar a porta do restaurante e sentar em uma mesa. Precisamos nos preparar para o pior.

Eu gosto daqui, pai disse o rapaz. Sempre imaginei que um dia eu seria o dono do restaurante e criaria meus filhos como você me criou.

André, filho de Glauber, era um jovem de vinte e três anos e cursava gastronomia com a intenção de seguir os negócios do pai pelo resto da vida.

Por isso eu sempre te incentivei a estudar desenvolvimento de software disse Glauber. Parece ter mais futuro.

Aguentaremos mais quantos meses?

Uns quatro, eu acho. Quatro meses sem problemas. Se demitirmos a Diana e a Débora, conseguiremos mais uns dois ou três. Nesse caso, sua mãe terá que nos ajudar por um tempo.

É menos de um ano.

Mas Glauber pensava em apenas uma coisa: por que continuar com algo que já está destinado a desaparecer? Qual o sentido de ficar ali, por mais meio ano, para depois fechar as portas e nunca mais voltar? Era esperança? Fé? Algo aconteceria e resolveria seus problemas?

Decidido a vender o ponto, usar o dinheiro para algo mais lucrativo e tentar se reinventar, Glauber avisou o governo que fecharia em um mês e pendurou a placa de ‘vende-se’ em frente ao seu restaurante.

Em menos de uma semana, receberam uma carta que jamais imaginariam receber.

O governador nos impediu de fechar o restaurante? Glauber perguntou ao oficial que emitiu a nota. Desde quando o governo tem esse poder? Eu preciso desse dinheiro, não posso tocar o meu negócio que está rumo à falência. Melhor investir em criptomoedas ou em outro fundo de investimentos.

Não poderá, Glauber! respondeu o oficial, com paciência. O governo, em uma nova iniciativa, classificou seu negócio como vital para o funcionamento da sociedade nesses tempos caóticos. Talvez você não esteja acostumado com isso, mas esse procedimento já é bem comum há alguns anos em outras áreas. Você pode tentar vender o negócio, mas quem comprar deve se responsabilizar em manter o negócio operante. Se alguém comprar, você pode usar o dinheiro, mas não pode parar de operar até lá.

E como vou manter ou vender algo que está falindo? Quem comprar o meu negócio vai comprar pelo lugar, não pelo restaurante em si. Os outros negócios que estão sob essa lei também estão arruinados?

Não que eu saiba. Vou anexar essa nota e você me envia seu balanço. Vamos ver o que o juiz diz.

Glauber fez o balanço completo de seu restaurante e adicionou ao processo. Teve muita esperança em ser liberado, mas o tempo passava e não tinha uma resposta… E, aos poucos, ia ficando sem dinheiro.

Quando o resultado do processo chegou, ele não veio com  liberação, mas sim com a nota de que o Verdinhos & Deliciosos ganharia consultoria do governo para se manter em pé. O consultor seria um famoso profissional da área de investimentos que já ajudou muitas pequenas empresas a se consolidarem. Ele acreditava que poderia ajudar a lanchonete de Glauber a voltar ter lucros.

Relutante, um pouco pela insolência do homem e um pouco por não acreditar no que tinha ouvido, Glauber esperou por mais dois meses, até o dia em que o tal consultor veio lhe fazer uma visita.

Conte-me do seu processo, senhor Glauber disse ele, com um grande sorriso na boca. Um sorriso que aparecia sempre, não só quando ele parecia estar feliz. Será nesses detalhes que poderei lhe ajudar.

Para fazer o suco, eu uso laranja e limão disse em algum momento, já que passou a tarde mostrando seu processo para o consultor. Depois pergunto se o cliente quer açúcar… 

Açúcar mascavo, senhor Glauber?

Sim, é mais saudável.

Não disse ele, tirando pela primeira vez o sorriso do rosto. É mais caro. Fazendo um cálculo rápido, trocando açúcar mascavo por refinado, com todos os sucos que você vende, dá para pagar salário da sua funcionária.

Mas esse não é o propósito do meu negócio.

O propósito do seu negócio é não falir, senhor Glauber. Agora ele sorria mais uma vez, com grandes dentes se projetando entre os lábios. Você pode tirar o limão do suco também. Usar massa branca na empanada e reduzir o recheio. Acho que dá para pagar a outra assistente.

Depois de uma semana de ajustes e mudanças no processo, o consultor avisou que voltaria em um mês para ver como as coisas estariam.

O tempo passou e Glauber ajustou o processo de acordo com o que o consultor sugeriu.

Pai disse André, pegando um saco de farinha. Essa é a pior farinha que existe.

Mas é o que o consultor mandou comprar. Gastei muito menos comprando essa leva aí.

Mas pai, para você ter ideia, os fermentos nem comem o que tem aqui. O pão nem cresce mais.

Ah, os fermentos. Usaremos o biológico agora, a geladeira onde guardamos os fermentos e as kombuchas gasta energia extra. Menos custo no nosso orçamento.

Em dois meses, o consultor retornou para visitar a lanchonete Verdinhos & Deliciosos e encontrou o negócio em outro ritmo. Um ritmo que poupava mais, gastava menos. Tinha muita comida na prateleira, mas…

Por que não há ninguém comendo aqui? Perguntou o consultor. Aqui é um ótimo ponto.

Assim como os outros respondeu Glauber fechando a porta da lanchonete pela última vez. As pessoas preferem o Hambúrguer MacGuhan do que minha empanada sem gosto.

Glauber jogou as chaves para o consultor, vestiu seu casaco e desapareceu.

De boca aberta, o consultor ficou ali, com a cara pasma olhando para a grande placa pendurada na porta.

FECHADO


A Profecia

Eu, Shadei Urnamsu, um grande visionário do meu tempo e um mestre dos padrões populacionais em massa, lhe proponho hoje uma viagem no tempo...

 

Bem-vindos a Era da discórdia e da ignorância. A Era que esquecemos o verdadeiro conhecimento e mergulhamos em novas teorias falaciosas. Um mundo de informações falsas, dissimuladas e fantasiosas.

Aqui todos tentam recuperar um tempo antigo e perdido. Os tempos de glória do passado. Aquilo que se foi e não volta mais. Aquilo que foi bom para uns e ruim para outros. E aqueles que não conseguem oferecer esse paraíso em vida, o prometem para tempos que somente a Danse Macabre pode oferecer.

Aventureiros viajam o mundo em busca de novidades e histórias para contar, mas estes são vistos como lunáticos, seres inúteis que se perdem em seus psicotrópicos e criam mentiras para enganar a humanidade. Os regentes garantem que esses depravados devem ser desacreditados e punidos por proporem ideias tão vis para a sociedade pura.

Neste tempo, os governantes se afastam do proletariado, cada vez mais ignorando a sua existência, considerando-os vagabundos e desnecessários e, ao mesmo tempo, esquecem quem produzem as suas comidas e suas vestimentas caras. Quando os trabalhadores levantam suas bandeiras, se rebelando contra os líderes autoritários, os senhores dizem que sofrem nas mãos do povo, além de serem injustiçados por não perceberem o bem que eles fazem à população mais sofrida.

Não bastando o sofrimento do povo, essa também é uma Era de perseguição e negacionismo. Mentiras viajam rapidamente de boca em boca e constroem a ideia de conhecimentos obscuros, isto é, o conhecimento capaz de esconder a verdade e implantar mentiras em nossas cabeças.

Ignorantes se tornam gurus e influenciam o rumo da humanidade só por serem extremamente populares.

Crenças se tornam a base de todas as estruturas sociais, e líderes religiosos influenciam o comportamento da população.

Todas essas estruturas de desorganização quebrarão os conceitos de nossa existência para, aos poucos, reconstruir sob um novo paradigma, onde a minoria acreditará que é a maioria. E em sua megalomania, tratarão o resto do mundo com desprezo, ao ponto de os denominarem como uma escória criminosa.

Consequentemente, as pessoas odiarão sua própria vida. Odiarão o que fazem. Odiarão uns aos outros. Mas precisarão continuar sua rotina, dia a dia, que os leva até o dia de sua morte. Nesse ciclo sem fim, irão se questionar: sofrer e morrer? É isso?

E para os que se negarem, a morte virá mais cedo.

E logo os maus serão bons.

Os homens serão tratados como animais.

A saúde será roubada.

A educação será tirada.

A informação será privada.

Eles trabalharão cada dia e a cada hora para que seus patrões tomem suas bebidas caras, em suas mansões com degraus de mármore e em suas mesas de madeiras proibidas.

E quando a natureza ruir, a punição virá, e seus suportes cairão sobre a casa de todos. Ninguém será poupado por sua força, pois a natureza é inexorável.

E mesmo assim, no último suspiro, em um vislumbre de esperança, eles agradecerão a todos os deuses por terem purificado o mundo, para que eles possam começar tudo de novo, apenas com aqueles que merecem… os puros.

 

Bem-vindos, meus caros! Bem-vindo a Idade das Trevas, a idade média de nossa existência. Um tempo de sofrimento e danação!

Todas essas sombras que assolaram a raça humana poderiam terminar aqui, mas não...

Não com o homem que é ignorante e preguiçoso. Não com o homem que é egoísta e ganancioso.

Essa Era é apenas uma estampa do que o acontecerá e o que os interesses do homem pode fazer e, de tempos em tempos, será carimbada nos pergaminhos da história.

Destinado a acontecer, outras e outras vezes, infinitamente, enquanto o homem existir!