Dupla Existência

Marco acordou podre. Rolou na cama durante horas, desligou o despertador diversas vezes e só quando as costas começaram a doer que sentou na lateral da cama, esperando o corpo reagir e a mente entender que era hora de levantar.

Levantou-se e respirou fundo, sentindo o cheiro de ácido no ar, resultado de uma noitada acompanhada de garrafas e garrafas de vinho.

Achei que tivesse bebido cerveja.

Afastou a cortina e abriu a janela para deixar o ar circular. A luz iluminou o quarto, o forte sol bateu sob a cama e começou a esquentar o tecido e a pulverizar os mofos que ali tentavam crescer durante a noite.

Marco dormia em uma cama de casal, sempre do lado esquerdo. O outro lado era para as gatinhas convidadas que passavam a noite ali. E naquele lado, a marca de um corpo se estendia pela cama, mas sem um corpo sequer.

A festa foi tão grande assim?

Marco vestiu-se e deixou o quarto. A mão esquerda correu de maneira automática até o trinco da porta do banheiro, mas algo em sua mente o avisou. Talvez ele estivesse em uso. Então ignorou e foi para a cozinha, onde abriu a geladeira, pegou um pote de iogurte e sentou-se em frente a televisão.

A bagunça era grande na sala. Ligou a televisão com uma pulga atrás da orelha. Sob a mesa de centro, copos sujos exalavam o cheiro azedo de cerveja e vinho. Alguns copos amarelados e outros roxos. Duas garrafas de vinho estavam vazias e seis latas de cervejas estavam  amassadas. Amassá-las quando o precioso líquido acabava era uma mania que tinha.

O programa de televisão começou, trazendo notícias do passado, mas Marco não prestou atenção. Ele estava mais preocupado em reconstruir os eventos do dia anterior.

Não sentia a famosa dor de cabeça de suas bebedeiras, mas seu estômago reclamava e queimava, era um sinal que havia abusado da bebida na noite anterior.

Refletiu fitando as garrafas. Seis latas era uma quantidade boa para ele, para sentir o brilho que o álcool lhe causava, mas também não era tanto para levá-lo ao extremo e gerar esse esquecimento todo. A única lógica era que alguém bebera com ele durante a noite passada.

Mas quem? Não lembro de nada!

Imagens da noite passada vinham à sua mente. Copos de cerveja, um filme de comédia e muita risada. Entretanto, a pessoa que bebeu o vinho não estava em sua memória.

Impaciente, começou a bater os dedos em um pote de plástico que estava vazio. Fitava a porta do banheiro esperando que alguém saísse de lá para descobrir quem era.

Sua mente se dividia entre esperar e tentar lembrar, mas falhou em ambas. Ouviu os pássaros cantarem em seu jardim, uma descarga sendo ativada no banheiro, sentiu um cheiro de café vindo de algum lugar e, quando não aguentou mais, correu até a porta do banheiro e tentou forçá-la.

Marco esperou forçar a porta para, de maneira acidental, quem estivesse lá dentro falasse algo. Entretanto, quando empurrou a porta, ela abriu com facilidade.

E para sua surpresa, o banheiro estava vazio.

Andou silenciosamente pelo banheiro, procurando por algo. Algum sinal. Olhou no espelho e enxergou seu semblante sério e sonolento. Seus cabelos negros desgrenhados e seus olhos escuros com olheiras profundas.

Por trás de si, entre as cortinas da banheira, um vulto cruzou de um lado paro outro.

O primeiro sentimento foi de um profundo arrepio. Quem é que estava ali? Era muito silencioso. Mas depois relaxou, afinal, logo resolveria seu enigma. Então, afastou as cortinas e encontrou a banheira vazia.

Ninguém estava ali.

Agora um pouco mais aflito, correu pelos cômodos da casa procurando por alguém. Foi para o escritório… Vazio. Sala… Vazia. Jardim… ninguém estava lá, além dos pássaros. Quarto… Vazio.

Andou pelo quarto acreditando encontrar alguma peça de roupa ou alguma outra coisa, como telefone, bolsa, brinco. Qualquer sinal de alguém. Marco teria desistido naquele momento e acreditado que ele havia tomado as duas garrafas de vinho, entretanto, algo o proibiu de seguir essa linha de raciocínio. Durante o tempo que foi para a sala, percorrendo a casa em busca de um ser desconhecido, alguém entrou ali e arrumou a cama rapidamente.

Marco estava surpreso com o estado do quarto. Lembrava que há poucos minutos estava ali, em uma eterna bagunça. Agora sua cama estava arrumada e a coberta lisíssima esticada em algo que parecia uma superfície perfeitamente plana. A outra janela estava aberta e as cortinas gentilmente amarradas, enfeitando o quarto como jamais seria capaz de fazer.

Foi nesse momento que seu peito encheu de desespero. Respirou fundo e tentou se acalmar. Talvez devesse, mais uma vez, tentar esquecer isso tudo e seguir em frente. Talvez tivesse um lapso de memória, ainda abalado pela bebedeira da noite passada, afinal, se ele bebeu seis latas de cerveja e duas garrafas de vinho, seu corpo realmente estaria implorando por descanso.

Voltou para a sala e quando andava pelo corredor, sentiu o cheiro de café se tornar mais intenso. Sob a mesa de jantar, a térmica estava fechada com uma xícara ao seu lado. O cheiro era muito mais forte ali.

A paranoia de Marco foi para o espaço. Voltou a olhar em todos os cantos, procurando por um vestígio e para piorar, agora a mesa de centro estava limpa. Não conseguia ver as garrafas e latas, mas os copos sujos estavam dentro da pia, esperando para serem lavados.

Quase que em modo automático, lavou os copos e os colocou no escorredor. Seu sensor, de que algo estava errado, estava ligado a todo o momento. Quando terminou, secou as mãos, pegou a xícara de café, a encheu e andou para o jardim, que ficava na parte de trás de casa.

Respirou fundo e deu um gole no café. Marco gostava do jardim porque ali se sentia bem. E como não trabalharia naquele dia, talvez fosse uma boa cuidar das flores ou plantar alfaces.

Enquanto sorvia o líquido negro, seu telefone vibrou em seu bolso. Pegou rapidamente e leu a mensagem.

— Onde vocês está, Marcão!? Estou há meia hora te esperando.

Correu o dedo pela tela para ver as conversas anteriores e então lembrou o porquê de ter colocado o telefone para despertar. Precisaria encontrar seu amigo, Ângelo, ainda cedo.

Marco viu aquilo como uma chance de se livrar do mal que lhe assolava dentro de sua própria casa. Jogou a xícara na grama, esparramado o resto de café desapareceu.

***

Adriano se balançava de um lado para o outro, colado ao corpo de uma linda mulher. Sentia o cheiro dela e lhe faltava ar. A tocava e seu coração entrava em combustão.

Sua mente fantasiosa imaginava-se abraçando uma fada, pois era assim que conseguia descrever sua beleza. Estava tão fascinado por aquela mulher que sua pele parecia brilhar. Carregar seu peso durante a dança era como se ela voasse entre seus braços enquanto seus cabelos voavam com o vento.

Foi então que seus olhos se cruzaram mais uma vez, os rostos congelaram quando os narizes se tocaram. Seus olhos brilhavam como fogo, o qual entrava em seu peito e fazia seu coração arder ainda mais.

Petrificou perante aquele olhar. Em sua visão periférica, a via sorrir. Ela também o desejava como ele a desejava. Então, os lábios se tocaram e seu peito explodiu.

Adriano acordou segurando o próprio vômito. A dor em seu tórax era enorme. Usou a mão para tapar a boca, como se pudesse impedir o que vinha. Como um corisco, correu até o banheiro e deixou a natureza de seu estômago fazer o trabalho, colocando toda sua bile para fora com os restos da bebedeira da noite passada.

Abaixado na privada em uma posição humilhante, esperou o peito se acalmar enquanto observava a si mesmo no reflexo da água que empoçava no fundo do aparato. Desejou não ter bebido na noite passada. Praguejou quando lembrou que bebeu duas garrafas de vinho e essa quantidade — que era sim demais, mas — não era suficiente para lhe fazer tanto mal.

Quando sentiu que seu estômago tinha estabilizado, puxou a descarga e lavou o rosto. Aos poucos, o corpo recobrou suas funções e a sede tomou conta de si. Bebeu água da própria pia, sentiu o gosto do cloro e do ferros dos encanamentos da velha casa em que vivia.

Um pouco mais animado, deixou o banheiro e, em uma rápida passada pela cozinha, colocou a água para esquentar. Depois disso, voltou para o quarto, onde começou a organização.

Arrumou todas as roupas jogadas. Dentre elas, encontrou uma cueca que não reconheceu. Uma daquelas que ficam no fundo da gaveta e, de tempos em tempos, aparecem por aí. Jogou todas as roupas para dentro do armário, não se importando mais com a organização.

Arrumou a cama, pensando em como era bom ter uma cama de casal para dormir sozinho. Podia dormir dos dois lados, apesar de gostar muito do direito. Por um instante parou para pensar no porquê o lado esquerdo sempre estava bagunçado, mas ignorou esse pensamento, era irrelevante naquele momento.

Deixou a sua cama impecável e abriu as janelas da casa. Notou também que dormira com uma das janelas abertas, mas também ignorou isso. Era coisa do passado. Arrumou as cortinas e abriu a última janela.

Estou pronto para meu dia!

De volta para a cozinha, começou a arrumá-la, pois se ia passar um dia bem, iria passar com limpeza. Jogou as garrafas de vinho fora e as seis latas de cerveja, que também estranhou ao pegá-las. Não costumava tomar cerveja, mas isso explicou o estômago destruído naquela manhã. Também jogou um pote de iogurte fora e o restante na pia para lavar depois do café.

E por falar em café, a chaleira chiou e iniciou o lento processo de pôr a água no pó e esperar ele escorrer para a garrafa. Quando completou, fechou a térmica e a deixou sob a mesa com uma xícara, que usaria em seguida.

Sentiu o cheiro do café tomar conta do ambiente e de seu ser. Andou até a geladeira para pegar comida, quando sentiu um forte cheiro.

Olhou dentro do lixeiro que tinha acabado de abrir para pôr as garrafas e cheirou.

Adriano quase teve que voltar para o banheiro para vomitar, mas controlou-se. Trancando sua respiração, abriu o lixeiro mais uma vez e espiou.

Ficou mais perplexo do que enojado. Encontrou lá diversos bilhetes rasgados, peças de lego, o aro de um caderno de anotações, pedaços de carne assada e uma maionese cheia de pedaços de legumes, que devia envolver batata, pepinos, cenoura e cebola.

Churrasco?

Sem pensar muito, amarrou o lixo, tirou do lixeiro e correu para fora.

Andou pelo pequeno caminho de pedra que dava da porta da frente até o portão da casa. Deixou o lixo no lixão e voltou, só então identificou um carro preto, com a janela do caroneiro aberto. Um motorista aguardava, olhando para a casa.

Adriano abanou de leve para o homem e ele retribuiu. Até pensou que o homem tentava lhe chamar, mas como não o conhecia, ignorou.

Outra vez, dentro de casa, sentou-se para beber seu café e percebeu, que a xícara não estava mais ali como deixou. Levantou-se para pegar outra, quando percebeu um vulto no jardim, atrás de casa.

Andou passo a passo, observando aquela silhueta negra parada ali, sob a grama que cultivava atrás de casa. Em um piscar de olhos, que foi o tempo de abrir a cortina para espiar, não havia mais ninguém lá.

Andou até o local, com uma certa insegurança tomando conta de seu ser. Onde antes estava aquela sombra esguia e sinistra, agora estava sua xícara, ainda com restos de café.

Pegou a xícara e olhou para os lados, mas não encontrou ninguém lá, apenas os pássaros.

Ainda sentindo um frio na espinha, ficou ali, paralisado, sob a luz do sol.

***

Marco contornou a casa tão rápido quanto uma raposa, abriu o portão e sentou no caroneiro do carro de Ângelo. Ficou congelado e observando o amigo pela visão periférica.

— Tudo certo? — perguntou o motorista.

— Sim, bebi demais.

O outro gargalhou.

— Certo, quero ver você correr o que você me prometeu ontem. Podemos ir?

— Sim.

O motorista acelerou e partiram para seu destino. Ângelo ligou o rádio e tocou uma música popular. Depois fechou os vidro e ligou o ar condicionado.

— Então, quem é o rapaz que está morando contigo?

— Comigo!? — perguntou Marco, assustado. — Ninguém, ué!

Ângelo também se assustou e deu um pequeno salto no banco.

— É que eu vi um rapaz na sua casa. Ele saiu e entrou.

— Foi no lixo?

— Sim.

— Então você deve ter confundido com o Adriano. Ele vem pegar restos do meu jardim para fazer adubo.

— Certo — comentou Ângelo, não satisfeito. — Tive a impressão de vê-lo entrar pela porta…

— Impressão sua. Moro sozinho há quase um ano. Você sabe disso.

— É sei…

Ângelo ainda não estava satisfeito, mas seguiram para seu destino.


Liberdade de Expressão

Nos últimos anos, o entendimento do que é “Liberdade de Expressão” vem sendo deturpado, ao ponto de que muitos não conseguem mais explicá-lo de maneira fácil.

Todos nós, Brasileiros, que acompanhamos a política, podemos ver esse assunto fervilhando na crise atual, entretanto, eu vos convido a destacar esse assunto da atual conjectura e pensar um pouco sobre o verdadeiro significado de “Liberdade de Expressão”.

Basicamente, estamos tratando de um composto entre Liberdade e Expressão. “Expressão” é originado em nossa capacidade de se expressar. Falar algo, escrever, tornar público. Até aí, tudo bem. Acredito que não haja muitas dúvidas em relação a essa palavra.

Entretanto, é em “Liberdade” que eu acredito que mora a maior confusão. Liberdade nos dá uma sensação de que, “se somos livres, tudo podemos”. E é aí que mora o erro. Tratamos a liberdade como se fosse algo universal. Nosso direito primordial.

Uma fácil comparação seria pensar no dia a dia:

“Somos livres para ter uma arma e assassinar alguém a nosso bel-prazer?”.

“Somos livres para andar a duzentos quilômetros por hora com nosso carro, porque confiamos em nós mesmo em detrimento da segurança dos outros? E se adicionarmos álcool?”

Estes exemplos nos mostram uma coisa: a liberdade é garantida por um conjunto de regras, dada por um grupo maior.

O que quero dizer é que, por exemplo, o estado chega e fala: você é livre, mas tem que pagar os impostos.

Neste caso, não somos livres para “não pagar impostos”. A liberdade tem limites.

Depois vem o convívio social. Somos livres, mas matar/roubar é feio. Existe aí um conjunto de regras que nos fazer viver com os outros, e que sem eles, seríamos puros animais.

E ainda vos convido a levar esse conceito ainda mais longe. Vamos pensar na natureza. O homem pode respirar em lugar sem oxigênio? Podemos dividir o átomo? Podemos voar? A resposta seria “sim, desde que com devidos equipamentos”, ou seja, essa é a natureza, nos impondo regras. Podemos ser criativos e buscar caminhos alternativos, mas as regras em si, elas não podem ser quebradas.

Voltando à liberdade de expressão, podemos pensar que: somos livres para se expressar, dada um conjunto de regras.

Regras das quais, podemos perceber que há muita gente por aí quebrando-as, sem dó e nem piedade.


O Restaurante

O ano é 2050 e o mundo é engolido pelo capitalismo. O stress que o ser humano passa no dia a dia é evidente nas mesas de bar, encontros sociais e festas. Uma manada de pessoas vivem em seus cabrestos durante a semana, para depois ter dois dias de folga. Vão ao cinema, bebem em uma discoteca no sábado e ficam com a família no domingo assistindo televisão.

O mercado anda agitado. O mundo transborda em tecnologia. Há novas invenções para tudo. Para comidas, eletrodomésticos, carros e mais tudo que se possa imaginar. Aos poucos, a era das startups chega ao seu fim. É cada vez mais difícil para um pequeno empreendedor conseguir dinheiro para pôr suas ideias em prática.

As pequenas organizações de outrora cresceram, ocupando todos os nichos do mercado. Novas empresas são massacradas pelo poder das maiores. Apenas os negócios muito inovadores conseguem algum respiro para seguir em frente.

Os funcionários dessas empresas é que são as verdadeiras máquinas, não mais os empreendedores e suas propostas disruptivas. Os trabalhadores passam horas e dias trabalhando. As tais leis trabalhistas já não existem mais e as pessoas são exploradas como simples recursos.

A verdade é que não existe mais planejamento e preparo. Tudo é feito em velocidade máxima. Todas as empresas estão com seus projetos atrasados e desorganizados. Os funcionários estão em seus ritmos enlouquecidos, afinal, não há lugar para o comum. Você tem que ser diferente! Trabalhar doze horas por dia, ainda mais em finais de semana, coloca você em bons trabalhos, caso contrário, apenas a fome lhe fará companhia.

E é nesse mundo caótico e frenético que nosso amigo, pai e cozinheiro, mantém o seu negócio.

Enquanto todos comiam suas rações, pequenas refeições rápidas e ultraprocessadas para não perderem tempo, Glauber seguia com sua lanchonete: Verdinhos & Deliciosos.

O crescimento populacional fez com que o número de lanchonetes aumentasse. Isso não atrapalhou o negócio de Glauber, afinal, mais bocas precisavam ser alimentadas.

E o que o Verdinhos & Deliciosos tinha de diferente era algo que estava em seu nome e em sua cultura. Alimentos vivos, naturais e benéficos eram o diferencial para as pessoas.

Em um mundo onde o tempo é escasso e cada segundo parece influenciar o salário no fim do mês, pessoas seguem seu ritmo como zumbis. São poucas as pessoas que não tenham desenvolvido algum problema devido à má alimentação. Dentre eles, problemas de pele, articulações, gastrites, diverticulites, problemas cardíacos, ansiedade e depressão.

Os problemas do homem parecem ser os mesmos de sempre, mas hoje, corpos podem ser encontrados em esquinas quando os corações deixam de funcionar. Antes as peles eram estampadas com tatuagens e belas imagens. Hoje, melasmas, psoríase e dermatites são marcas comuns estampadas no corpo das pessoas. Trabalhadores também perdem dias de trabalho por causa de disfunções intestinais, pondo seus próprios trabalhos em risco. Outros enfiam-se em suas casas, escondendo-se do mundo, agravando ainda mais seus problemas mentais.

Assim como a ciência ajudou às pessoas a nascer e viver por mais tempo, de modo antagônico, o capitalismo se expandiu e começou a eliminar a população, de maneira grotesca, transformando a vida humana em um eterno inferno, que deixaria Dante Alighieri orgulhoso em ver sua obra-prima ser a realidade dessa sociedade.

E o governo… bem, o governo parece não se preocupar mais com isso, deixando cada um a mercê de suas próprias habilidades… ou sua própria sorte.

Entretanto algumas pessoas preferem se precaver e se alimentar bem para manter o corpo saudável. E são restaurantes como a Verdinhos & Deliciosos que essas pessoas buscam para suas refeições.

Neste cenário, era de se imaginar que Glauber e sua família tinham uma ótima vida neste mundo, já que vivam em um verdadeiro turbilhão de caos.

As coisas não vão bem disse Glauber para seu filho, depois de fechar a porta do restaurante e sentar em uma mesa. Precisamos nos preparar para o pior.

Eu gosto daqui, pai disse o rapaz. Sempre imaginei que um dia eu seria o dono do restaurante e criaria meus filhos como você me criou.

André, filho de Glauber, era um jovem de vinte e três anos e cursava gastronomia com a intenção de seguir os negócios do pai pelo resto da vida.

Por isso eu sempre te incentivei a estudar desenvolvimento de software disse Glauber. Parece ter mais futuro.

Aguentaremos mais quantos meses?

Uns quatro, eu acho. Quatro meses sem problemas. Se demitirmos a Diana e a Débora, conseguiremos mais uns dois ou três. Nesse caso, sua mãe terá que nos ajudar por um tempo.

É menos de um ano.

Mas Glauber pensava em apenas uma coisa: por que continuar com algo que já está destinado a desaparecer? Qual o sentido de ficar ali, por mais meio ano, para depois fechar as portas e nunca mais voltar? Era esperança? Fé? Algo aconteceria e resolveria seus problemas?

Decidido a vender o ponto, usar o dinheiro para algo mais lucrativo e tentar se reinventar, Glauber avisou o governo que fecharia em um mês e pendurou a placa de ‘vende-se’ em frente ao seu restaurante.

Em menos de uma semana, receberam uma carta que jamais imaginariam receber.

O governador nos impediu de fechar o restaurante? Glauber perguntou ao oficial que emitiu a nota. Desde quando o governo tem esse poder? Eu preciso desse dinheiro, não posso tocar o meu negócio que está rumo à falência. Melhor investir em criptomoedas ou em outro fundo de investimentos.

Não poderá, Glauber! respondeu o oficial, com paciência. O governo, em uma nova iniciativa, classificou seu negócio como vital para o funcionamento da sociedade nesses tempos caóticos. Talvez você não esteja acostumado com isso, mas esse procedimento já é bem comum há alguns anos em outras áreas. Você pode tentar vender o negócio, mas quem comprar deve se responsabilizar em manter o negócio operante. Se alguém comprar, você pode usar o dinheiro, mas não pode parar de operar até lá.

E como vou manter ou vender algo que está falindo? Quem comprar o meu negócio vai comprar pelo lugar, não pelo restaurante em si. Os outros negócios que estão sob essa lei também estão arruinados?

Não que eu saiba. Vou anexar essa nota e você me envia seu balanço. Vamos ver o que o juiz diz.

Glauber fez o balanço completo de seu restaurante e adicionou ao processo. Teve muita esperança em ser liberado, mas o tempo passava e não tinha uma resposta… E, aos poucos, ia ficando sem dinheiro.

Quando o resultado do processo chegou, ele não veio com  liberação, mas sim com a nota de que o Verdinhos & Deliciosos ganharia consultoria do governo para se manter em pé. O consultor seria um famoso profissional da área de investimentos que já ajudou muitas pequenas empresas a se consolidarem. Ele acreditava que poderia ajudar a lanchonete de Glauber a voltar ter lucros.

Relutante, um pouco pela insolência do homem e um pouco por não acreditar no que tinha ouvido, Glauber esperou por mais dois meses, até o dia em que o tal consultor veio lhe fazer uma visita.

Conte-me do seu processo, senhor Glauber disse ele, com um grande sorriso na boca. Um sorriso que aparecia sempre, não só quando ele parecia estar feliz. Será nesses detalhes que poderei lhe ajudar.

Para fazer o suco, eu uso laranja e limão disse em algum momento, já que passou a tarde mostrando seu processo para o consultor. Depois pergunto se o cliente quer açúcar… 

Açúcar mascavo, senhor Glauber?

Sim, é mais saudável.

Não disse ele, tirando pela primeira vez o sorriso do rosto. É mais caro. Fazendo um cálculo rápido, trocando açúcar mascavo por refinado, com todos os sucos que você vende, dá para pagar salário da sua funcionária.

Mas esse não é o propósito do meu negócio.

O propósito do seu negócio é não falir, senhor Glauber. Agora ele sorria mais uma vez, com grandes dentes se projetando entre os lábios. Você pode tirar o limão do suco também. Usar massa branca na empanada e reduzir o recheio. Acho que dá para pagar a outra assistente.

Depois de uma semana de ajustes e mudanças no processo, o consultor avisou que voltaria em um mês para ver como as coisas estariam.

O tempo passou e Glauber ajustou o processo de acordo com o que o consultor sugeriu.

Pai disse André, pegando um saco de farinha. Essa é a pior farinha que existe.

Mas é o que o consultor mandou comprar. Gastei muito menos comprando essa leva aí.

Mas pai, para você ter ideia, os fermentos nem comem o que tem aqui. O pão nem cresce mais.

Ah, os fermentos. Usaremos o biológico agora, a geladeira onde guardamos os fermentos e as kombuchas gasta energia extra. Menos custo no nosso orçamento.

Em dois meses, o consultor retornou para visitar a lanchonete Verdinhos & Deliciosos e encontrou o negócio em outro ritmo. Um ritmo que poupava mais, gastava menos. Tinha muita comida na prateleira, mas…

Por que não há ninguém comendo aqui? Perguntou o consultor. Aqui é um ótimo ponto.

Assim como os outros respondeu Glauber fechando a porta da lanchonete pela última vez. As pessoas preferem o Hambúrguer MacGuhan do que minha empanada sem gosto.

Glauber jogou as chaves para o consultor, vestiu seu casaco e desapareceu.

De boca aberta, o consultor ficou ali, com a cara pasma olhando para a grande placa pendurada na porta.

 

FECHADO

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A Profecia

Eu, Shadei Urnamsu, um grande visionário do meu tempo e um mestre dos padrões populacionais em massa, lhe proponho hoje uma viagem no tempo...

 

Bem-vindos a Era da discórdia e da ignorância. A Era que esquecemos o verdadeiro conhecimento e mergulhamos em novas teorias falaciosas. Um mundo de informações falsas, dissimuladas e fantasiosas.

Aqui todos tentam recuperar um tempo antigo e perdido. Os tempos de glória do passado. Aquilo que se foi e não volta mais. Aquilo que foi bom para uns e ruim para outros. E aqueles que não conseguem oferecer esse paraíso em vida, o prometem para tempos que somente a Danse Macabre pode oferecer.

Aventureiros viajam o mundo em busca de novidades e histórias para contar, mas estes são vistos como lunáticos, seres inúteis que se perdem em seus psicotrópicos e criam mentiras para enganar a humanidade. Os regentes garantem que esses depravados devem ser desacreditados e punidos por proporem ideias tão vis para a sociedade pura.

Neste tempo, os governantes se afastam do proletariado, cada vez mais ignorando a sua existência, considerando-os vagabundos e desnecessários e, ao mesmo tempo, esquecem quem produzem as suas comidas e suas vestimentas caras. Quando os trabalhadores levantam suas bandeiras, se rebelando contra os líderes autoritários, os senhores dizem que sofrem nas mãos do povo, além de serem injustiçados por não perceberem o bem que eles fazem à população mais sofrida.

Não bastando o sofrimento do povo, essa também é uma Era de perseguição e negacionismo. Mentiras viajam rapidamente de boca em boca e constroem a ideia de conhecimentos obscuros, isto é, o conhecimento capaz de esconder a verdade e implantar mentiras em nossas cabeças.

Ignorantes se tornam gurus e influenciam o rumo da humanidade só por serem extremamente populares.

Crenças se tornam a base de todas as estruturas sociais, e líderes religiosos influenciam o comportamento da população.

Todas essas estruturas de desorganização quebrarão os conceitos de nossa existência para, aos poucos, reconstruir sob um novo paradigma, onde a minoria acreditará que é a maioria. E em sua megalomania, tratarão o resto do mundo com desprezo, ao ponto de os denominarem como uma escória criminosa.

Consequentemente, as pessoas odiarão sua própria vida. Odiarão o que fazem. Odiarão uns aos outros. Mas precisarão continuar sua rotina, dia a dia, que os leva até o dia de sua morte. Nesse ciclo sem fim, irão se questionar: sofrer e morrer? É isso?

E para os que se negarem, a morte virá mais cedo.

E logo os maus serão bons.

Os homens serão tratados como animais.

A saúde será roubada.

A educação será tirada.

A informação será privada.

Eles trabalharão cada dia e a cada hora para que seus patrões tomem suas bebidas caras, em suas mansões com degraus de mármore e em suas mesas de madeiras proibidas.

E quando a natureza ruir, a punição virá, e seus suportes cairão sobre a casa de todos. Ninguém será poupado por sua força, pois a natureza é inexorável.

E mesmo assim, no último suspiro, em um vislumbre de esperança, eles agradecerão a todos os deuses por terem purificado o mundo, para que eles possam começar tudo de novo, apenas com aqueles que merecem… os puros.

 

Bem-vindos, meus caros! Bem-vindo a Idade das Trevas, a idade média de nossa existência. Um tempo de sofrimento e danação!

Todas essas sombras que assolaram a raça humana poderiam terminar aqui, mas não...

Não com o homem que é ignorante e preguiçoso. Não com o homem que é egoísta e ganancioso.

Essa Era é apenas uma estampa do que o acontecerá e o que os interesses do homem pode fazer e, de tempos em tempos, será carimbada nos pergaminhos da história.

Destinado a acontecer, outras e outras vezes, infinitamente, enquanto o homem existir!

 


Pilares

— Majestade — disse um dos homens que se apresentava ao cônsul. — Sou João dear Uda.

— Eu sei quem você é, Sir — retrucou o cônsul, mudando de posição na poltrona. — Você me presenteia com um boi inteiro todo o mês. Quase não dou conta.

O burguês resfolegou dentro de suas roupas elegantes e, depois de um longo gracejo, voltou a falar.

— Nós, os senhores importantes da república, decidimos perguntar — João deu uma olhadela para os outros homens ao seu lado. — O que fazemos agora?

O cônsul olhou para os senhores em sua frente. Ali estavam os nove senhores mais ricos de toda a república. Todos elegantes usando roupas caríssimas, com ornamentos de ouro pendurados nos pescoços e nos braços. O ouro brilhava como o sol quando raiava pela manhã.

Na última contagem, o cônsul estimava cerca de dezessete milhões de pessoas em todo seu território. Metade do ouro que existia estava nas mãos da população, a outra metade nos cofres desses nove senhores.

Era claro que, da parte do povo, ainda havia um percentual do ouro que estaria com uma parcela menor da população e, nesse cálculo divisório, quase metade das pessoas viviam em cidades pobres, sem comida, sem saneamento e ainda próximos à morte.

Além de tudo, depois da Gripe do Morcego, muitos corpos ainda estavam sendo enfileirados nas florestas, esperando por um enterro digno.

O cônsul refletiu um pouco sobre seu estado e sobre os outros líderes eleitos antes dele. Todos governavam pensando em acumular mais ouro e claro, ajudar esses nove homens a serem cada vez mais poderosos. Mesmo antes da epidemia, esses senhores apareceram em seu salão, cobrando atitudes que variavam entre manter tudo funcionando em meio à peste até o uso de dinheiro público para que seus negócios não falissem.

E mesmo depois de tudo, agora, eles estavam ali, mais uma vez pedindo ouro e ajuda.

— O que fazer? — perguntou o cônsul aos ventos, levantou-se de seu trono, dando um tapa em suas pernas. — O que fazer? Vocês irão fazer o que sempre fazem! A crise passou e vocês estão vivos e cheios de dinheiro. Sigam em frente.

— Como posso, senhor? — questionou o outro que, até então, estava apenas ouvindo. — João ainda pode me vender carne para fazer meus sanduíches, mas demiti seiscentas pessoas para manter os restaurantes abertos. Agora, com todas essas mortes, não consigo ninguém para trabalhar para mim. E ninguém para comer!

— E os meus negócios? — falou um homem careca com vestimentas verdes. — Mesmo não demitindo meus funcionários, ninguém mais vai às minhas lojas. Faço uma venda ou outra. Logo terei que demitir meus homens de qualquer forma.

— Senhores — prosseguiu o cônsul, dando as costas aos homens mais poderosos da república. — E eu… que perdi dois milhões de trabalhadores!

— Dois milhões!? — falavam as vozes entre murmúrios. — Mas você é governante, não é empresário como nós. Quem você precisou demitir?

— Não demiti, senhores. Eles morreram. Meus eleitores. Eles morreram.

As palavras do cônsul silenciaram os demais. O regente seguiu com seu drama e se dirigiu até um canto, onde havia uma janela com um vitral. Ali, desenhado entre os pedaços de vidro, um soldado se ajoelhava em frente a um rei, mostrando lealdade. Entretanto, em volta, milhares estavam mortos, com moscas rodeando seus corpos.

— Tentei ir ao seu restaurante, Runir. É esse seu nome? — questionou olhando sobre os ombros. — Mas ele estava fechado. Lembro que no começo disso tudo, eu queria proibir as pessoas de sair na rua e vocês me convenceram pelo contrário. E mesmo assim o comércio fechou, mas com o adicional de mortos por toda parte. Então, vi um jovem através da janela de uma casa. Ele estava fazendo sanduíches, muito parecido com os seus, Runir. Ele me viu e sorriu. Aceitei um, era de graça, mas paguei o preço mesmo assim. Era bom. Não era como o “melhor assado do mundo”… porque realmente era o melhor. Tinha algo ali… era um tempero diferente. Não sei dizer!

O barulho do silêncio dos empreendedores foi ensurdecedor.

— Talvez esse seja o tempo, meus amigos. Tempos de voltar às origens. De dar valor aos que amam o que fazem, e não aos que acumulam dinheiro e exploram os outros apenas para enriquecerem mais ainda. As pessoas não comerão mais o seu sanduíche porque, além de uma pessoa má, a sua comida é péssima. Então, eu digo: façam o que vocês sabem fazer, sigam em frente por si mesmos. Espero, realmente, encontrar uma era onde possamos ser mais humanos.

Aproveitem, porque essa pode ser a sua única oportunidade.

 


O Reino Sublime

Reino de Sundar, também conhecido como o Reino Sublime, vivia a glória de seus tempos. A era de ouro de um povo que lutou durante milênios por segurança e bem-estar.

Ninguém sabe exatamente como eles chegaram lá, afinal de contas, faz muito tempo que “história” não estava mais sendo lecionada nas academias.

— Desnecessário! — gritou o conselheiro, no ato de Aurus, o evento que marcou a ascensão de Sundar. — Desde que tiramos essa disciplina da pauta da alta sociedade, e outras semelhantes também, nosso povo tem crescido com sabedoria. E assim faremos.

E assim foi!

O povo trabalhou, trabalhou, trabalhou… e trabalhou!

Trabalhou para que hoje fosse tudo como é: soberania, segurança, comida na mesa, tecnologia, arte, saúde e tudo mais que qualquer reino pudesse esperar.

A cidade flutuante de Su era um paraíso. Guardas vigiavam a periferia, mas nenhum mal vinha de fora. Dentro da cidade havia a sonhada paz eterna.

Em resumo, uma perfeição!

— Genaro — ecoou a voz do rei no grande salão do palácio. — Prepare meu café da manhã. Hoje quero frutas, chá de pêssego e uma tigela de açaí, sem aquele leite em pó nojento que vocês têm colocado ultimamente.

— Desculpe, meu senhor — disse o governante do palácio, que esperava há horas pelo momento em que seu rei acordasse. — Mas não posso fazer isso que me pedes.

— Como? Pegou o vírus da preguiça também? Aquela gripezinha?

— Não, meu senhor. A questão é que não temos açaí hoje.

— Não temos açaí? Como assim? Nunca vi isso acontecer! Então esqueça o açaí e me traga uma tostada com café.

— Temos café, mas ainda não sei o porquê que, Janaína, a cozinheira, não veio ao trabalho hoje.

O rei franziu sua testa. Sentiu arrepio na alma. Andou até a janela de seu salão e observou seu reino. Lá embaixo, o mundo seguia normalmente. Havia gente andando pelos calçadões e carros voadores levando as pessoas para seus trabalhos. Daquela distância, o silêncio reinava imponente.

“O que está acontecendo?”, pensou. “A comida nunca deixou de chegar a minha mesa.”— Genaro — disse o rei quando seus pensamentos cessaram. — Chame o Conselho das Alucinações Exteriores e diga que quero todos os Mistérios ligados à defesa em minha sala em uma hora.

Entretanto, os conselheiros estavam tão aflitos com o que estava acontecendo que, em menos de meia hora, a reunião já iniciava na sala do conselho.

— A minha torradeira quebrou! — gritava o Conselheiro das Alucinações Exteriores. — E quando fui pegar outra, não haviam mais torradeiras disponíveis.

— Não temos peças para consertar meu carro…

— O vidro da minha casa quebrou…

Isso e aquilo.

— Silêncio! — gritou o rei, interrompendo todos. — Se ninguém sabe o que está acontecendo, precisaremos chamar a pessoa mais informada e…

— Não, meu rei — interpelou um conselheiro. — Ele não!

— Não temos escolha. Precisamos de alguém com alta capacidade investigativa para nos ajudar a entender o que se passa. Precisamos invocar… Edward Blackwald!

E antes que qualquer um da mesa se movesse, um ser vestido com um robe negro surgiu de um canto escuro da sala, com a cara escondida em sombras, dirigindo-se ao grupo através de passos lentos. Ele se aproximou, retirou o capuz revelando sua cara marcada pela guerra, com seus olhos vermelhos faiscando contra os presentes, que tremiam de medo com as verdades que esse homem poderia trazer à tona.

— Lord Edward — disse o rei, gaguejando entre as sílabas. — Entendo nossas diferenças, mas esse momento é crucial. Precisamos de seus serviços. Precisamos que investigue e nos diga o que está acontecendo.

— Eu já tenho algumas informações — disse homem misterioso, de voz arrastada e com um sotaque estranho. — Minha rede de contatos está detectando um padrão incomum nos dados que vem dos Mecanismos de nossa cidade.

— Dos Mecanismos? — disse o Conselheiro das Alucinações Exteriores, dando um tapa na mesa. — Como pode? Nunca tocamos lá! Nunca vamos lá! Como pode existir problemas como este? Aposto que o que você está falando é Mentira!

— Mentira!

— Fake News!!

— Pois ora — comentou Edward, entre as vozes que gritavam. — O que acham de investigarmos isso juntos?

Os Mecanismos eram uma região vital para Su. Chamado de esgotos por toda população, não era só responsável por processar o esgoto da cidade, mas também era de lá que toda a água era purificada e de onde vinham os alimentos. Onde peças fundamentais para o funcionamento da cidade eram projetadas e montadas.

Era o motor da cidade.

Enquanto andaram pelos corredores, Edward explicou para os demais como as coisas funcionavam por lá.

— Existe um modus operandi — dizia Blackwald, que parecia conhecer muito bem daqueles mistérios. — Vocês precisam entender isso. Os Mecanismos são um terreno dividido entre nós e o Povo Debaixo.

— O Povo Debaixo? — perguntou o rei.

— O Povo Debaixo — assentiu o Blackwald. — Eles são o povo que traz os recursos para os Mecanismos. O protocolo dos Mecanismos dizem que as pessoas daqui não podem entrar em contato com o povo de lá. Os de cima com o povo debaixo. Os depósitos são a última fronteira. Eles entram por lá e deixam as coisas. Entramos por aqui e pegamos o que foi deixado. Nós trabalhamos de dia e eles à noite. Nunca temos contato.

O grupo seguiu pelos corredores até encontrar as entradas dos Mecanismos e, depois, até encontrarem os depósitos, onde todos os recursos da cidade deveriam estar.

Lá dentro estava escuro. O interruptor fez um grande estalo e as luzes foram se ligando aos poucos, revelando um gigantesco depósito, vazio, com apenas restos sendo comidos pelos ratos.

Atravessaram o salão até encontrar outra porta, do outro lado. Na porta dizia: proibida entrada do Povo de Cima.

Ignorando a advertência, atravessaram a porta e chegaram a uma grande plataforma. O rei quase morreu de vertigem quando identificou que estavam na plataforma inferior da cidade. Dali, conseguiu ver apenas nuvens, e distante, sob seus pés, a terra, que se expandia a quilômetros sob eles. Lá o sol não brilhava com tanta intensidade e as trevas pareciam estar consumindo aquele lugar.

— O que é isso? — perguntou o rei, exasperado.

Um pouco longe, um trabalhador percebeu a presença dos dois e começou a se distanciar.

— Ei, você! — disse Edward, interrompendo a fuga do homem. — Venha cá.

Sem jeito, o rapaz se aproximou, ainda mantendo uma grande distância.

— Majestade — disse ele, se pondo de joelhos. — Me perdoe. Jamais saberia que viria até aqui.

O homem estava sujo e com pústulas vermelhas em seu rosto, devido a uma doença muito forte que tomou conta de seu corpo. O rei tentou se aproximar para olhar mais de perto, mas o trabalhador tentou se afastar, tropeçando e caindo de costas. O rei avançou e ajudou o rapaz a se levantar que, sem forças, ficou sentado no chão.

— Você não deveria me tocar, majestade.

— O que está acontecendo? Me explique!

— Faz mais de um mês que nenhum cargueiro chega aqui. — explicou o homem doente. — Eles prometeram vir me buscar, mas ninguém veio. Agora não temos mais comida e logo morrerei de fome. Você não deveria me tocar. Logo, estará infectado também…

Ao ouvir essas palavras, o rei soltou o corpo do rapaz, que caiu batendo a cabeça contra o solo, onde ficou se retorcendo na mesma posição.

Do outro lado da plataforma, Edward acessava um monitor que mostrava cenas de uma tragédia. Hospitais insalubres repletos de corpos doentes, que morriam por falta de tratamento. Ruas repletas de corpos podres, com urubus comendo a carne que restava.

O histórico mostrava a doença crescendo em uma escala gigantesca, afetando todas as áreas de produção, desde as fazendas até as indústrias, inclusive os serviços mais básicos e, por fim, eles cortaram o contato com a cidade flutuante para evitar a proliferação da doença.

Ao terminar de ver as imagens, o rei andou até a borda da plataforma e observou a paisagem mais uma vez. Nunca tinha visto aquele lugar, mas logo identificou que era o mesmo das imagens. O que um dia foi uma terra repleta de vidas e natureza, estava destruída e tomada por uma praga que ele sequer sabia que poderia existir.

Naquele momento, o rei percebeu que seu reino logo seria o próximo a cair e entendeu que sem o Povo Debaixo, o Reino Sublime jamais poderia existir.