Jornal ASF #1 - O que são Abelhas sem Ferrão

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Abelhas sem Ferrão

Você já deve ter ouvido o termo Abelhas sem Ferrão (ASF). O termo --- e as abelhas nativas --- tem ganhado alta relevância nos últimos anos. Mas vocês sabe quem são elas? Nunca ouviu falar? Então essa é a hora de conhecermos as Abelhas sem Ferrão.

As ASF são uma categoria de abelhas que evoluíram, e nesse processo, tiveram seu ferrão atrofiados. Não se sabe o motivo, mas provavelmente a falta de predadores e sua complexa capacidade de fazer ninhos em ocos de árvores fez com que ela não precisasse se defender tanto quanto a abelha europeia, a apis. Então, por não possuírem ferrão é que chamamos de abelhas sem ferrão.

Acesso de um ninho de abelha sem ferrão

Esse tipo de abelha é predominante nas Américas, e a maioria das espécies se encontram no Brasil. É estipulado que de 20 mil espécies de abelhas no mundo (com e sem ferrão) existam mais de 300 no Brasil, em sua grande maioria, sem ferrão.

Por outro lado, o crescente desmatamento e uso de agrotóxicos na agricultura tem feito muitas dessas espécies desaparecerem ou terem seus números reduzidos. Posso falar por mim mesmo, que nasci no interior, e em minhas viagens pelas florestas e rios, podia interagir diretamente com esse tipo de abelha. Hoje, quando vou aos mesmos lugares de minha infância, já acho muito difícil encontrar as abelhas ou uma colmeia sequer.

Indo mais a fundo, sabemos que as abelhas são uma das principais responsáveis pela polinização, o que impacta não só na qualidade de nossas flores ornamentais, como também na reprodução da nossa comida. É estipulado que, se mantivermos o ritmo de destruição da natureza, conseguiremos acabar com a maioria das espécies de abelha e precisaremos viver de alimentos completamente transgênicos e com polinização artificial.

Assim como todas as outras causas sociais, cuidar das abelhas sem ferrão se tornou uma motivação para muitas pessoas, e no Brasil, hoje podemos encontrar vários movimentos que não só realizam, como ajudam e motivam outras pessoas a ajudar a conservar essas espécies.

Uma vez que elas são mansas e não transmitem doenças, elas podem ser cultivadas em qualquer lugar, desde que você tenha um pequeno lugar para colocar a caixa e que elas tenham acessos à árvores, flores e água. E no fim, além de ajudar a natureza e a própria colmeia que você escolheu ajudar, elas ainda polinizarão suas flores e produzirão mel, que poderá ser divido contigo e sua família.

Como funciona:

O procedimento básico para ter uma colmeia é capturá-la na natureza e colocá-las nas caixas, onde será o novo lar daquela colmeia.

Entretanto, muitos cuidados precisam ser tomados, afinal, diferente das Apis, essas espécies são muito sensíveis e todos os procedimentos precisam ser realizados com cautela, para que a colmeia não morra depois de manuseios.

1. A Captura

A captura das ASF nunca deve ser realizada removendo um ninho que está na natureza (oco de árvore ou enterrado no chão). Retirar um ninho da natureza, além de atrapalhar uma colmeia forte, é ilegal e é crime ambiental.

Uma das maneira mais simples de tentar uma captura é construindo (ou comprando) uma caixa, adicionar os atrativos e esperar que uma outra colmeia envie um enxame para ocupar sua caixa.

Oma outra maneira é criar uma isca e instalar esse isca na natureza. Depois que a isca for enxameada, e quando a colmeia estiver forte --- 2-3 meses de infestação --- ela poderá ser transferida para uma caixa, na localização que mais te interessa.

Isca de ASF criada com garrafa PET.

Os atrativos utilizados nessa captura geralmente é uma mistura de mel, própolis e cera da abelha que queremos capturar. Esses três compostos são misturados com um pouco de álcool e diluídos até virarem um líquido. Depois de tudo, esse líquidos é adicionado à isca, e por fim, quando o álcool evapora, os produtos sólidos ficam grudados no interior da isca. Com o tempo, as abelhas sentem o cheiro e podem considerar aquele um bom lugar para se morar.

Um ponto interessante de se observar, é que normalmente identificamos as iscas com numerações e um aviso para que as pessoas não mexam nelas. Afinal, muitas pessoas podem achar que as iscas são lixos depositados em árvores, ou até casos extremos, como foi no nordeste, onde um grupo de pessoas acreditou ser uma bomba e chamou o esquadrão da polícia para desarmar a bomba… que na verdade era uma isca de ASF.

2. O Enxameamento

Essa etapa é uma das que menos precisa de interferência humana. Uma vez que as iscas foram instaladas, agora é a hora de esperar as abelhas fazerem o seu trabalho… isso se elas se interessarem pelas iscas.

Durante esse período, apenas observamos se as iscas estão tendo atividades de abelhas. Um ponto importante é ter uma noção do dia ou semana que a isca foi infestada. Se for uma isca PET, precisamos saber essa data para ter uma ideia de quão forte está aquela colmeia.

Depois da infestação, geralmente se espera aproximadamente três meses. Depois disso, a isca pode ser retirada e a colmeia transferida.

Em caso de caixa-isca, essa transferência não precisa ser realizada, ao menos que queria mudar a caixa de lugar.

3. Transferência

Este é certamente o passo mais sensível de todo o processo, afinal, iremos abrir a isca para retirar a colmeia lá de dentro e mover toda a estrutura criada pelas abelhas para a caixa definitiva, onde elas irão morar.

Repetindo, caso tenha usado uma caixa isca, esse processo é quase desnecessário, o que causará menos stress para as abelhas.

Para realizar a transferência com sucesso, temos que cuidar para não quebrar as estruturas criadas por elas e não matar a rainha, que é muito fácil de acontecer em um acidente. Precisamos garantir também que a rainha foi retirada da isca e movida junto com os discos-de-cria para a nova caixa.

Uma vez que todas as estruturas e cera foram movidas para a nova caixa, ela deve ser fechada e isolada por um bom tempo, para que a colmeia se recupere e outros parasitas não entrem na caixa e venham a matar as abelhas de fome.

4. A vida que segue

Depois desses três passos, com sua colmeia instalada e com elas trabalhando, não levará muito tempo que elas se estabilizam e comecem a produzir mel… e também comecem a polinizar suas plantas… 

E qual o preço que elas cobram: apenas seu carinho e cuidado!

Conclusão

O homem se destaca infinitamente como a espécie mais capaz de tudo. E tudo que não pode, ele cria. Não podemos apenas consumir a natureza, como se não houvesse um amanhã.

Cuidar das abelhas, é cuidar de nosso planeta! Nossa casa!

Nos próximos capítulos falaremos um pouco mais sobre as colmeias, mel e outras maravilhas que envolve esse prática que é cuidar das abelhas sem ferrão.


Ato Imperial II - A Solda

Dia Vinte e dois, do quarto mês do Ano da Peste.
Trecho II da polêmica reunião Imperial — A Economia

— Senhoras e senhores, ha ha ha — iniciou o imperador, sentado na poltrona imperial, na ponta de grande mesa. — Eu sei que só tem uma senhora aqui, mas ela vale por mil! Ha ha ha!

“Os Adeptos de Ruskov estão dizendo que estamos em uma distopia, por causa da questão do vírus aí! Mas eles não vão roubar minha hemorroida!”

Sério, o Imperador olhou para todos na mesa. Jurava que o que tinha dito era algo sério e de impacto, mas os conselheiros pareciam não dar atenção.

— (…) preciso que leves a cura…

“Essa questão aí, não podemos deixar nosso povo parar de trabalhar! O que iremos comer? Vento? Sim, se tivéssemos estocado vento, mas não é o caso!

“Paulo Praxedes! Por que está sentado tão longe hoje? Gosto de você aqui mais perto! Ha Ha Ha! Afinal, a Economia é a parte mais importante do império!”

— Agora! Puta que o pariu! — gritou o Imperador dando um tapa na mesa e todos ficaram acuados em suas cadeiras. — Esse… Esse… Lá, O… Adão Glória! Esse cafajeste! Só porque é o rei do maior estado do império fica aí… achando que pode mandar em tudo!

— Sim, ó, grande imperador — comentou a única mulher no recinto —, esses reis e regentes são todos bandidos. Temos que prender todos e levá-los à forca!

— Isso é tirania! — gritou um barbudo com bico de pato. — Lembre que precisamos dos votos deles para a eleição Imperial! Agora, se tem alguém que está empacando o Império, são os juízes da corte suprema! Todos os nossos projetos são barrados por eles, porque será? Claro que é porque eles querem nos impedir de governar.

(E não porque os projetos eram ruins — falou a voz da razão, na cabeça de alguém).

— Isso é patifaria! — gritou o imperador, pondo-se em pé. — Esse sistema de eleição é fraudado. Eu sei que é! Mas tenho certeza que Paulo Praxedes colocará nossa economia novamente nos trilhos, não é mesmo? Ha ha ha. Sempre tem um jeitinho.

Praxedes, sentado no lado oposto da mesa, tentou falar algo, mas a conversa continuou e a voz dele não foi ouvida.

— (…) Esse é o momento! É a hora de passar a boiada…

— (…) Eu estou é mais preocupado com a minha HEMORROIDA!!! Eu preciso de mais informação! Quero minha família protegida.

— (…) Autocracia… não quero autocracia, mas desse jeito…

O imperador se levantou e todos o acompanharam.

— Cada um sabe o que fazer. Essa é a hora de mostrar para que que viemos!

***

No exato momento em que Adão Glória recebeu a notícia do primeiro Ato Imperial, sua pele arrepiou. Mas a verdadeira bomba caiu quando diversas tropas de mercenários independentes entraram em São Tarso expulsando a Companhia dos Metalúrgicos de lá.

Por uma semana, São Tarso ficou fora de seu controle. As pessoas voltaram às ruas e a Chama Purificadora começou a levar o povo daquele reino para as covas.

Glória tinha certeza de que as outras companhias estavam ali a mando do Imperador, pois, além de tomar o controle do seu reino, eles começaram a saquear os tesouros e levar a taxa imperial por eles mesmo. Nesse ritmo, o império não estava levando apenas as taxas que lhes eram de direito, mas também as taxas que eram direito da família Glória.

Adão não era um santo. Era certo que não ficaria quieto perante aquele ato de tirania. Para tentar recuperar o controle das coisas, ele colocou em ação dois planos.

O primeiro deles envolvia um necromante famoso no seu reino, um tal de Horácio. Com o necromante, já tinha combinado cada passo do plano. Era só dar o sinal. Entretanto, depois de tantos anos treinando sua lábia, Glória julgou correto enviar um mensageiro até a Cidade Imperial para tentar negociar a atual situação antes de tomar qualquer atitude radical.

— Senhoras e senhores! — disse o mensageiro, em audiência com o parlamento — Trago aqui uma súplica do Rei Adão Glória, amigo dos Garis, distribuidor de ração humana, pintor de paredes, senhor das surubas, rei de direito de São Tarso.

A corte se calou e o mensageiro sentiu a pressão dos olhares. Muitos ali estavam do seu lado, mas, depois do Ato Imperial I — AI1 —, não seria a maioria. E a maioria era os que incomodavam. Se as lendas estivessem certas, seriam criaturas malignas incorporadas em formas humanas, enganando e manipulando todo o império.

— Em nome de Adão Glória — prosseguiu o mensageiro, perdendo-se com as palavras —, venho pedir que nos ajude a tomar o controle das ruas de São Tarso mais uma vez. Não podemos aceitar que companhias independentes tenham o controle do maior reino do império.

Todos os parlamentares sabiam que existia um congressista em específico ali naquela sessão que controlava todas aquelas milícias que ocupavam São Tarso.

Sim, era ele, o filho mais velho do imperador. Que foi exatamente o sujeito que se pronunciou.

— Certo, senhor, você tem nome? Bom, não importa. Leve a mensagem ao seu rei que estamos dispostos a negociar sob duas condições.

— E quais seriam essas condições?

— Que o reino siga funcionando e pagando as taxas imperiais, mesmo com a suprema corte os tendo dado o direito de não o fazer. E também que distribua e faça seu povo usar a panaceia, para evitar a Chama Purificadora.

— Mas essa panaceia funciona? — perguntou o mensageiro.

— É claro que funciona. O Boticário Kaish, que é conselheiro do imperador, já confirmou a efetividade desse remédio. Além do mais, a Chama Purificadora está desaparecendo do mundo. Muitas dessas mortes por aí nem estão relacionadas a essa praga. Como meu mestre falou, teríamos que analisar todos os mortos, cada órgão, para ter certeza de que a morte foi causada pela Chama Purificadora.

— Isso aqui parece mais uma obra de ficção macabra! — gritou o mensageiro de Adão.

— Meu caro, — proferiu um dos parlamentares, pondo se em pé, dono de características que quase todos ali tinham: idade avançada, pele pálida e um olhar vil, — ficção Macabra seria: morto pela Chama Purificadora, Adão Glória é enterrado de bruços. Três anos depois, em sua exumação, os colegas testemunhando o evento ficaram surpresos com a higidez de suas nádegas. Aí um diria, o que é do homem o bicho não come.

— Mas o que é isso? Que sandice é essa?

Agora o olhar do parlamentar era ainda mais vil.

— O senhor desperta em mim os instintos mais primitivos!

O mensageiro retornou para São Tarso sem um pedaço de sua alma e com as condições para retomar o controle do reino. A resposta era o que Adão esperava, uma negativa. Então, ele colocou em ação seu plano principal.

Era hora de declarar o “Dia dos Mortos”.

***

Jana, a Bárbara, e Grixa, a Meio-Orc, caminhavam, pelas ruas de São Tarso depois de um dia jogando tempo fora na taberna. Já era meia-noite e o toque de recolher já havia sido anunciado. Teriam que retornar sem serem vistas pelos guardas.

— Que dia chato — vociferou a bárbara, que andava sem paciência nos últimos dias. — Desde que arranquei a cabeça daquele almofadinha na taberna do Julião que não encontro mais diversão por aqui.

— O rei prendeu todo mundo em casa — respondeu Grixa, com sua voz grave e rouca. —  Talvez seja a hora de ir para outro lugar.

— Grixa, Grixa! Você não se informa mesmo. Até uma bárbara como eu sabe que a Chama Purificadora está em todo o mundo. Não há para onde ir.

— É, é… eu não sei ler!

As duas foram interrompidas pelo primeiro badalar da meia-noite e pelo som da revoada de gralhas. O cantarolar dos pássaros fez o coração de Jana palpitar e ela sentiu o pescoço arrepiar.

A fera interior de Jana estava pressentindo o perigo.

— Grixa, vamos nos esconder naquele canto.

Correram pela larga estrada até encontrar uma viela onde se adentraram até que as sombras deixaram as duas ocultas. Grixa respirava pesado e Jana deu uma bofetada na nuca da Meio Orc.

— Silêncio!

Esperaram contando as últimas badaladas do sino. Quando terminou, Grixa respirou fundo, como se o problema tivesse acabado, mas Jana enfiou o dedo na boca em sinal de silêncio.

Instantes depois, ouviram o som de centenas de passos surgirem na rua principal, e quase como um tsunami, centenas de pessoas passaram correndo por lá.

Jana se perguntou do que toda aquela gente estaria correndo e pensou que deveria se juntar à multidão, por sua segurança. Foi então que um deles se adentrou à viela, correndo contra a duas que se encontravam lá e perceberam que não poderiam mais se esconder.

Jana estava preparada para aquele momento — e até agradeceu ao seu deus Caramuru, por trazer uma batalha digna até ela — e preparou seu espadão. Com apenas uma dançada, partiu o corpo do homem, que caiu em dois pedaços no chão.

— Pernas para um lado, braços para o outro.

— Porque você matou esse cidadão, Jana? — Berrou Grixa.

— Cidadão do cemitério, olhe!

Quando Grixa percebeu, ela deu dois passos para trás tampando o nariz. O que estava ali no chão, em pedaços, não era um ser vivo, mas sim, um morto. Um morto que ainda se mexia e, mesmo rasgado ao meio, seus pedaços ainda tentavam se mexer. Jana levantou seu pé, e com uma botada, estourou a cabeça do zumbi que se remexia no beco.

Jana puxou Grixa pelo braço para se adentrar ainda mais no beco. Resolveram que era melhor tentar sair pelo outro lado, mas no fim da viela havia um muro. Então pularam.

Caíram em uma rua larga do outro lado do quarteirão. Sentiram-se seguras, mas, instantes depois, a Tsunami de mortos-vivos também chegou ali.

— Corra! — gritaram juntas, e suas pernas nunca se esforçaram tanto.

Correram pelas ruas principais da cidade fugindo dos mortos-vivos que as seguiram. Em cada esquina que viraram, de lá vinha outra enxurrada de corpos que corriam e rastejavam tão rápidos quanto uma boiada.

Jana deu uma olhadela para trás e percebeu que termo Tsunami não era errado para descrever o que via. Os mortos vinham correndo, um saltando por cima dos outros e, quando um caía, os que vinham atrás passavam por cima ou arrastavam o caído junto deles. Mesmo nessa dança macabra, em que corpos corriam quase como fluido, eram tantos e tão rápidos que as duas seriam engolidas pela onda em pouco tempo.

E as duas se tornariam um deles.

A bárbara agradeceu mais a Caramuru por aquele momento. Seu deus moreia era um bom deus e essa revolta nas marés dos eventos de sua vida só poderia ser explicada pelas ondas do mar. Então, aceitando seus últimos momentos da vida, empunhou o espadão, cravou a bota no chão e se virou, pronta para lutar.

— Por Caramuru!

Quando a onda chegou, uma dançada da espada cortou cinco zumbis ao meio e dez pedaços voaram pelos ares. Na volta, a espada pegou mais um grupo e decepou pernas e braços.

A espada de Jana cortava os mortos quase como manteiga. Ia e vinha e pedaços voavam pelos ares.

Por momentos, a bárbara pensou que venceria a onda sozinha, mas cada vez mais corpos vinham ao seu encontro. E mesmo com sua espada indo e vindo, não venceu a enxurrada e logo os mortos passaram por ela.

Jana era acostumada com a dor. Tão acostumada que conseguia reduzi-la a zero em um combate. Talvez ela conseguisse morrer sem sentir dor alguma e era o que esperava daquele momento. Mas então percebeu que os zumbis passaram por ela e não deixaram uma marca sequer.

Sem entender, olhou para os lados e a onda de mortos seguindo o caminho da rua. Em um canto, Grixa estava agachada, chorando e pedindo para os deuses lhe salvarem. Jana usou seus instintos de sobrevivência para encontrar uma saída do meio daquela enxurrada de mortos. Seus olhos correram para uma janela no térreo de uma construção e cruzaram com os de uma mulher negra com olhos escuros, que usava uma capa com capuz. A mulher tentava gritar e chamar por ela. Então Jana andou até Grixa, puxou ela pelo braço e com a força sobrenatural que tinha, saltou pela janela de onde a mulher negra lhe chamava.

As duas caíram dentro de uma casa que parecia abandonada. Três sujeitos vestindo capa com capuz confortaram as duas. Um deles, a mulher negra, descobriu a cabeça — revelando seus longos e volumosos cabelos crespos — e abraçou Grixa, garantindo que a meio-orc não tinha nenhum ferimento pelo corpo.

— Ela está desesperada — falou a negra. — Calma, garota, está tudo bem agora. Você não está ferida. Não vai se transformar em um deles.

— Os mortos assustam qualquer um — falou um dos outros, que Jana não conseguiu identificar as feições, mas identificou que eram homens, pelo tom da voz. — Esses não seriam diferentes.

— Esses são diferentes — falou Jana, ainda não confiando nos três. — Eles não nos atacaram.

Os três estranhos se entreolharam. A curiosidade era evidente em suas faces. Jana confirmou o que havia dito mais uma vez.

— Preciso ver isso — disse um dos homens que estavam ali. — Vamos para o segundo andar.

No segundo andar, encontraram uma janela que dava acesso à rua. Abriram-na e observaram o que estava acontecendo. Do lado de fora, a Tsunami de mortos seguiu arrastando mortos pela rua, mas dali conseguiam ver um pouco adiante onde havia uma barreira de soldados armados com escudos e que lutavam e se defendiam dos mortos.

— Pelo visto, sua afirmação está errada, bárbara.

— Não. — Confirmou Jana, com sua visão de águia afiada. — Olhem lá. Um grupo de civis perdidos no meio dos mortos-vivos. Os mortos passam por eles e atacam só os soldados.

— Entendo — falou a mulher negra. — Aquelas cores. São uma das companhias de mercenários do filho do imperador. Os mortos estão atacando-os. Essa horda de zumbis foi invocada em favor de Adão Glória. Eles estão expulsando as outras companhias daqui.

— Quem são vocês? — perguntou Jana — Falam pomposos e cheio de frescuras.

— Desculpe, senhoria! — falou a mulher negra. — Estava tão nervosa que não consegui me apresentar. Sou Rosiély Cofran.

A mulher esticou a coluna e permaneceu com olhar sereno. Certamente esperando que Jana falasse algo.

— Nunca ouvi falar! — disse Jana, com desdém e Rosiély se encabulou. — Eu sou Jana, e essa é Grixa.

— Sua pele, marrom — continuou Rosiély, tentando tocar o braço musculoso de Jana, que desviou, arisca. — Você é nativa.

— Sim — respondeu Jana, dando um cuspe para o lado. — Sou índia. Mas o termo bárbara se tomou mais comum por aqui.

— Você é Guarany?

— Não, vim de longe. Sou Potiguara.

— Certo — continuou Rosiély, com um sorriso e com cautela em suas palavras. — Aqui nesse império em decadência, eu luto pelos direitos dos anões, elfos, meio-elfos, meio-orcs, pequeninos, gnomos e outros. Isso inclui também humanos não brancos, como eu e você.

— Você é uma boa pessoa, se faz isso mesmo. Só parece um pouco bem cuidada para uma negra.

— Eu sou parlamentar. Eu atuo no governo. Mas as coisas estão ficando feias. Vim para cá procurando ajuda, mas esse lugar está tão cheio de maldade quanto a cidade imperial.

Juntos assistiram ao espetáculo que foi os mortos varrendo as companhias mercenárias das ruas de São Tarso.

Durante a noite, apenas assistiram, esperando que a coisa logo se resolveria, mas o dia nasceu e os mortos continuavam correndo pelas ruas.

Jana tentou tirar Grixa dali e ir para outro lugar, mas Rosiély não as deixou. Ofereceu comida e cuidados médicos para as duas. O medo natural que Jana tinha dos outros começou a se acalmar em seu peito e logo Rosiély já era Rosi.

O dia passou e, depois de longas conversas, Jana e Grixa aceitaram proteger o grupo de qualquer eventualidade e, dois dias depois, já eram um grupo, andando seguramente por São Tarso.

As ruas ainda estavam um caos, cheias de perigos, fedor e morte. A cada dia que passavam, descansavam durante o dia e mudavam de casa durante a noite, aproximando-se cada vez mais do palácio, que era o destino de Rosi.

— E vocês? — perguntou Jana, para os outros dois. — Ouvi que vocês e Rosi se conheceram há pouco tempo.

— Sim — afirmou um deles, que tinha um sotaque estrangeiro. — Sou Edward Blackwald. Morava em Sundar, antes de sua queda. Sim sim… A Chama Purificadora acabou com tudo por lá. A cidade flutuante cairá em alguns meses, ou dias. Ninguém sabe.

— E você, — apontou para o terceiro. — Também veio de Sundar?

O homem careca e de cara enrugada evitou responder e apenas olhou para suas mãos, cheias de anéis de ouro. Sob a capa que usava, revelavam-se roupas elegantes.

— Sim — respondeu Edward. — Ele era o rei de Sundar. Um rei caído, assim como seu reino.

— Eu gostava de Sundar — afirmou Jana, não dando atenção para o rei caído. — Quando vim pra cá passei por lá. Cortei muitas cabeças nos bares e ganhei muitas partidas de queda de braço. A cerveja era boa também.

No meio da conversa distraída, Grixa seguia em silêncio. Desde o susto que levou dos mortos-vivos, ela estava se recuperando, mas naquele dia, algo estava crescendo em seu peito.

A memórias de Grixa começaram a se tornar confusas. As lembranças turvas. Ouviu um som estranho. Uma voz que vinha de longe. Era terrível. Algo que vinha do fundo do mar.

— Ahhhhhh! — gritou a meio-orc, pondo-se em pé na frente do fogo. — Cansei de ficar trancada! Quero a panaceia!

— É! — gritou o rei caído, também pondo-se em pé. — Usar máscara nunca mais!

— Quero panaceia! — repetiu Grixa. — E quando a vacina sair, eu não vou tomar!

Jana sentiu também o chamado. Algo vagava dentro de sua mente. Mas ela era uma bárbara! Fechou os olhos e invocou a força de Caramuru. Seu corpo explodiu e o fogo tomou conta de seu ser. Seus olhos arderam, vermelhos. A fúria bárbara estava ali, em seu corpo, mantendo sua mente plena e sob controle.

Edward saltou de seu banco e deu um tapa na cabeça de Rosi, liberando-a do controle que tentou tomar conta dela, mas foi tarde demais para ajudar o rei caído, que saltou e agarrou Edward pelos braços.

Jana se levantou para ajudar, mas foi a vez dela. Grixa saltou e, com sua força, — que era grande o suficiente para um meio-orc — agarrou Jana e as duas caíram rolando.

Jana usou as pernas e tentou iniciar um movimento de imobilização. Não queria machucar a amiga, e, em outras discussões, já haviam brigado, mas, hoje, Grixa parecia muito mais forte que o normal. Tanto que, mesmo com sua fúria em ação, não conseguia deter os movimentos de Grixa.

— Você não vai me impedir! — gritava Grixa, dando tapas na cara de Jana. — Eu vou tomar esse remédio e voltar à minha vida normal!

— Cala a boca, sua estúpida! O que você tá falando? Sua vida normal é sair por aí bebendo e você ainda tá fazendo isso!

Jana forçou a barra e tentou agarrar o braço de Grixa, mas a amiga rolou e ambas caíram em uma escadaria e rolaram escada abaixo. Rolaram como uma bola de couro, batendo nos degraus e rachando a madeira em cada impacto.

As duas caíram em uma adega. Jana sentiu o frio do local e, quando chegou ao fim da escada, bateu a cabeça em uma parede de pedra. Pensou ter ouvido Grixa dizer algo mais, ou outra pessoa ter gritado, mas era tarde demais. A escuridão tomou conta de Jana. Um sentimento que não a tomava conta há muito tempo, desde que era criança e estava aprendendo a lutar.

***

— Mas que patifaria é essa? — gritou o imperador quando todos se aglomeraram no cantinho do segredo. — Você pode me explicar aí, Praxedes, o que está acontecendo?

— Eu, eu, eu — respondeu Praxedes, dando alguns passos para trás. — Eu só pago as pessoas! O dinheiro caiu certinho na mão de todo mundo. E, como já comentei, ele está acabando!

— Eu preciso das taxas de São Tarso, Praxedes! O império logo será o mais pobre do mundo!

— Pai, — disse o filho mais novo do imperador. — Quem te disse que esse plano daria certo?

— Esse Temer… Temerário Senhor das Trevas! — gritou o imperador, não se preocupando mais com os segredos. — Aposto que ele inventou isso para destruir… aniquilar a minha Hemorroida! Ele disse que tendo o lado sombrio do parlamento e os necromantes a nosso favor passaríamos qualquer lei pelo congresso.

— Mas a questão não é mais essa, pai: — falou dessa vez o filho mais velho. — A lei está lá. Mas parece que liberar a necromancia dentro do império trouxe um revés. Ao mesmo tempo que entramos e tomamos o controle de São Tarso, alguém começou a usar os próprios mortos pela Chama Purificadora contra nós. E não são poucos. Minhas milícias… quer dizer, meus mercenários não conseguiram manter a cidade sob controle depois da enxurrada de mortos.

O grupo discutiu possíveis saídas para retomar o controle de São Tarso, mas todas as ideias eram em vão. Assumiram que, pelo comportamento dos mortos, eles deveriam estar trabalhando para Adão Glória. Certamente o rei tinha um poderoso Necromante ao seu lado. Além do mais, aquela quantidade de mortos e a Companhia dos Metalúrgicos juntos seriam um exército e tanto, até capaz de colocar a segurança da Cidade Imperial em risco.

— Bom, — retrucou o imperador, depois de longas discussões sem conclusões. — Não temos escolha a não ser chamá-la.

— Chamá-la! — gritaram os demais, ao mesmo tempo.

— Sim, o chamado será realizado. O Chamado de Dolores. Somente Dolores Dos Mares pode nos ajudar agora.

Dolores Dos Mares era a maior esfoladora mental de todo o império e era uma criatura de proximidade com o imperador. De tempos em tempos, o imperador invocava o ritual do Chamado e convocava sua presença para conselhos e outros assuntos relativos aos “direitos humanos” dos cidadãos do império.

Sem perder tempo, o imperador e sua comitiva viajaram para o leste, até encontrar o mar. O local do chamado era uma grande pedra que se erguia no litoral e, quase como que esperando para o momento do ritual, uma enorme tempestade se armou e as ondas turbulentas colidiam contra a pedra, fazendo o chão tremer. Sozinho e usando apenas seus roupões cerimoniais, o imperador estufou o peito e gritou:

Ph’nglui mglw’nafh Dolores R’lyeh wgah’nagl fhtagn!

Um raio cruzou as nuvens e atingiu a água. O estouro deixou o imperador surdo, mas ele parecia acostumado com aquela situação. O chão tremeu e, quase como uma montanha, a forma arredondada começou a emergir sob as ondas. Uma chuva torrencial se iniciou e outros raios cruzaram os céus.

A criatura surgiu imponente, revelando a viscosidade da pele e seus tentáculos asquerosos. Sobre a cabeça de polvo, Dolores cultivava um cabelo em forma de capacete. Vestia roupas bregas dos anos setenta e, quando terminou o espetáculo, abriu suas asas de morcego e mostrou seu sorriso maligno.

O imperador sabia que deveria esperar ela falar.

— Então, imperador, — disse ela, com sua voz estridente ecoando no meio da tempestade. — Já removeu as mamadeiras de piroca das escolas?

— Eu… eu, é…

— Daqui a pouco eles vão estar obrigando todo mundo a ser homossexual. A Ditadura gayzista!

O imperador esperou, perplexo.

— E a ideologia de gênero? — continuou Dolores. — Já está fora das escolas? Daqui a pouco vão estar masturbando crianças, como acontece em outros lugares!

O imperador deu uma olhada para trás, procurando ajuda. Sabia que não podia falar até ter a palavra.

— E as roupas das crianças? Meninos de azul e meninas de rosa? Não?! Daqui a pouco tem menina de dez anos estuprada e vão dizer que a culpa é do tio! Aí ela vai querer abortar… blá blá blá, já vi que você não está prestando atenção em nada do que eu digo. Então, por que veio até aqui?

— Minha senhora! — prosseguiu o Imperador, em tom polido. — Eu tenho uma situação emergencial para resolver…

O imperador contou toda a história e Dolores esperou, raivosa. A cada palavra que ouvia um novo raio cruzava o céu e o imperador sentia que a cabeça de alguém explodia em algum lugar do mundo.

— Certo, seu fracote. Já vi que eu vou ter que entrar em ação para possibilitar sua reeleição. Mas temos um problema. Para fazermos isso sem causar grandes conflitos políticos, você terá que derrubar a lei restritiva quarenta e três e, então, a loucura tomará conta do império!

(Como se o império precisasse de mais delírios.)

O imperador concordou e retornou para a cidade imperial. Com uma rápida conversa com os vampiros do congresso, aprovou o projeto e o anunciou para todo o império:

— Meus caros seguidores! — gritou o imperador, levantando os braços. — Hoje é mais um dia importante para o império. Hoje eu proclamo meu segundo ato. O Ato Imperial II. E nesse ato, eu derrubo a lei restritiva quarenta e três. A partir de hoje, o uso de magia de Controle Mental está livre dentro do território imperial. O uso desse tipo de magia é agora livre para possibilitar o controle da paz. Mais um passo rumo aos tempos antigos, quando nosso império era poderoso e superior!

A notícia causou forte impacto na oposição do governo, mas agradou os aliados. Os esfoladores mentais agora não só se alimentavam de cérebros alheios, como também controlavam a mente de grandes multidões para atenderem seus desejos.

O maior impacto foi sobre São Tarso, onde Dolores Dos Mares usou o máximo de seu poder para controlar a população e fazê-la ignorar os mortos-vivos de Adão Doria.

Uma vez que os mortos-vivos não estavam atacando os civis, Dolores fazia a população perder o nojo e o medo, e logo as cidades, de uma maneira bizarra, começaram a voltar ao normal. Em meio aos zumbis inofensivos, a população seguia sua vida normal: com um saco de panaceia cada um, os artesãos voltaram ao trabalho e, aos poucos, São Tarso se tornou a cidade mais pitoresca de toda a história.

***

— O que está acontecendo? — perguntou Grixa, coçando a orelha inchada do tapa que levou de Jana depois de sair do controle mental. — As pessoas não estão com medo dos zumbis?

— Parece que não — respondeu Jana, ainda mais confusa.

— O controle mental — intrometeu-se Edward com seu sotaque bizarro. — O mesmo que te afetou. Creio que essas pessoas estão sob algum tipo de controle mental.

— Mas quem teria tanto poder? — perguntou Rosiély. — Nunca vi algo tão estranho.

E sim, a cena que eles observavam do segundo andar de uma casa abandonada era a mais bizarra possível. Zumbis caminhavam pela cidade sem atacar um civil sequer. De vez em quando, um mercenário que não era da Companhia dos Metalúrgicos surgia e os mortos-vivos o atacavam, triturando seu corpo, que logo se tornava um morto como eles.

Por outro lado, os habitantes da cidade seguiam suas vidas, ignorando os mortos. Cavaleiros surgiam e iam até os ferreiros, com seus cavalos passando pelo meio dos mortos, consertavam suas ferraduras e voltavam como se nada tivesse acontecido.

— Talvez seja seguro — comentou Jana. — Se nossa missão é chegar no castelo do Rei e os mortos-vivos não estão nos atacando, talvez isso facilite as coisas.

Todos no recinto, incluindo Grixa, acharam uma má ideia, mas Jana era corajosa. Saltou do segundo andar e caiu em pé entre os mortos-vivos e, como esperado, nenhum sequer deu atenção a ela.

— Estamos seguros! — gritou Jana. — Venham!

Assustados, os demais foram descendo aos poucos. Depois de garantir que todos estavam no solo, Rosi reforçou a todos que deveriam usar uma bandana protegendo a boca e o nariz e, por fim, fortaleceu a todos com uma magia de resistência a doenças.

Andaram pelas ruas agora presenciando a cena pitoresca de perto. Era impressionante como todas as pessoas da cidade estavam acreditando que a doença não existia mais e que a panaceia do imperador estava curando a todos. E o mais curioso era que, ao perguntar sobre os mortos-vivos, todos negavam estar vendo tal coisa.

Entretanto, a paz não reinou nas ruas da cidade por tanto tempo. Quando estavam a meio caminho do palácio, tiveram que se esconder para evitar a onda de violência que veio em seguida. Enquanto andavam pela avenida principal, a Companhia dos Metalúrgicos vinha se movendo em formação e prendendo todo mundo que podia.

A população tentava resistir, mas os métodos dos metalúrgicos eram eficientes. Eles arremessavam bombas de gás que espantavam os habitantes com facilidade e, para os que tentavam resistir, eles usavam bastão de choque, que eletrificava e imobilizava os agressores. Contra os caídos no chão, os soldados arremessavam bumerangues, que atingiam os corpos e enrolavam suas mãos e pernas. Uma vez fora de ação, os cidadãos eram deixados ali, amarrados, e a companhia seguia o seu trabalho.

Outra coisa que os metalúrgicos faziam, que fazia parte do grupo de coisas estranhas acontecendo, era que eles arrebanhavam os mortos-vivos como se fossem ovelhas. Em história normal, como foi no passado, os mortos-vivos seriam destruídos um a um, mas hoje eles eram guiados e carregados em grupos. Cada conjunto de zumbis era deixado em uma esquina e eles ficavam ali, esperando ordens.

Depois que terminavam de limpar o quarteirão, a Companhia dos Metalúrgicos concluía seu trabalho, realizando o feito que deu nome àquele dia: o dia da Solda. Os moradores eram jogados para dentro das casas como saco de batatas. Depois disso, os metalúrgicos surgiam com barras de metal e lacravam as casas, soldando os metais às partes metálicas das portas, lacrando os moradores dentro de suas residências.

Muitos tentavam escapar pelas janelas, mas os metalúrgicos as lacravam também, enfiando grandes rebites de ferro nas casas de madeiras e soldando as janelas com barras.

Tabernas e outros serviços, como ferraria e alfaiataria, também eram lacrados com barras e solda. Os trabalhadores e animais eram enfiados dentro das lojas: e solda nelas!

Em poucos dias, a cidade estava novamente sob controle de Adão Glória e a população de São Tarso seguiu em frente, com lojas e casas com suas portas soldadas.

***

Depois de improvisar uma maneira de atravessar pela Companhia dos Metalúrgicos sem serem confundidos com moradores, Jana, Grixa, Rosiély, Edward Blackwald e o antigo rei de Sundar chegaram às portas do palácio de São Tarso.

Os guardas tentaram impedi-los de entrar, mas Rosiély se revelou e o grupo conseguiu entrar. Nas portas do castelo, encontraram uma segurança que jamais haviam visto em outro lugar. Além de soldados garantirem que entrassem sem armas, outros sacerdotes usavam seus poderes divinos para identificar doenças. Um outro exame detectava quem tomou a panaceia, feito proibido dentro do palácio. Por fim, um mago testava cada um contra o controle mental. Passando em todos os testes, o grupo foi levado até a sala do rei.

Quando chegaram à sala do rei Adão, ele jantava com sua esposa e outras duas pessoas. Uma delas era uma ricaça que chamavam de Tal Magiori, uma burguesa de São Tarso que nunca havia visto um pobre em sua vida. A outra era um antigo necromante que havia se tornado famoso antes da ascensão do Temerário Senhor das Trevas.

— Quando essa coisa passar, eu vou fazer uma festinha! — comentava Tal Magiori. — Uma festinha só para os mais íntimos, com umas duzentas e cinquenta pessoas no máximo!

A ricaça e a rainha gargalharam.

— Horácio... — balbuciou Rosiély, insatisfeita e ignorando a conversa das duas mulheres.

— Olha quem vem lá! — comentou Adão Glória em alto tom antes que a visita fosse anunciada. — Seja bem vinda, Rosiély! Mesmo em tempos sombrios.

— Muito obrigada, majestade! — respondeu ainda se sentindo incomodada com a presença do necromante. — O que está acontecendo com seu reino? Está uma loucura lá fora!

— Sim, sim! — disse o rei, rapidamente fingindo estar tudo certo com seu sorriso que parecia feito de plástico. Entretanto, Adão suava em sua testa, sinal de que não dormia direito nos últimos dias. — O Imperador está pegando pesado comigo.

— E você precisou cruzar a linha da moral — comentou Edward Blackwald, intrometendo-se na conversa dos dois.

— E vocês, quem seriam?

— Sou Edward Blackwald. Era conselheiro do rei em Sundar, antes da queda. E esse aqui ao meu lado é o próprio rei caído de Sundar.

Com um grande gracejo, Glória o cumprimentou, mas o rei de Sundar respondeu com um sorriso amargo.

— Meu reino já não existe mais, majestade. Sou um caído que vive em busca de uma última missão: Salvar pessoas que ainda vivem em Su.

— Su? A cidade voadora? Do reino sublime!?

— Sim. A única parte do meu reino que ainda não foi contaminada pela Chama Purificadora. Entretanto, em poucos dias a cidade cairá e todos morrerão, a não ser que consiga ajuda para salvá-los e abrigá-los em algum lugar seguro.

— Não há lugares seguros, vossa graça — continuou Adão Glória. — Como você pode ver, a situação está difícil para todos nós. Além da maior doença de todos os tempos, eu tenho que ainda enfrentar o Imperador e sua corja. A cada dia que passa, o Imperador tem mais aliados. Se eu tive que cruzar alguma linha, foi porque precisei. Para garantir meus títulos e a existência de minha dinastia.

Todos ficaram em silêncio esperando que o rei continuasse. Rosiély sabia que Adão era muito mais radical que qualquer outro rei da família Glória, mas hoje ele parecia ter razão em estar indo além.

— E digo mais, — continuou Adão Glória. — Meus recursos estão terminando. Se eu perder essa luta agora, está certo que o Imperador dará um jeito de me destronar. Aí eu pergunto, rei caído, se queres ajuda de mim, como poderei ajudar um regente de fora do império se não consigo nem resolver os meus problemas aqui?

— Nós temos tecnologia, majestade — intrometeu-se Blackwald, mais uma vez. — O conhecimento que temos para manter a cidade flutuando é algo que nem os gnomos dominam. Nossos meios de transporte estão em outro patamar se comparados com qualquer um do mundo. Além de tudo, dispomos de conhecimento meteorológico em um nível muitíssimo avançado. Quase todas as tempestades podem ser descobertas por ela, em um nível que podemos dizer supremo. Sublime!

O rei Adão continuou com seu sorriso de plástico. Parecia querer algo mais.

— E tem mais — continuou Rosiély. — Nós, os que ainda não foram comprados no parlamento, estamos dispostos a cooperar. Precisamos fazer algo e parar essa força que quer destruir o Império da Braza. O Temerário já tentou fazer isso à força, agora esse maluco tentará fazer, parecendo que está em seu direito.

— Que nobre dia! — comentou Adão Glória, estalando os dedos. — Parece que temos uma luz no final do túnel. Não é mesmo, senhores?

E, depois de uma longa reunião, o plano estava traçado. Era hora de as estruturas do império começarem a tremer.


Transumanismo

Você já ouviu falar em Transumanismo? Sabe o que essa palavra quer dizer?

A primeira vez que ouvi falar disso foi lendo o livro Inferno, de Dan Brown. Nesse livro, um grupo Transumanista estaria preparando uma maneira de acabar com a superpopulação no mundo.

Mas afinal, o que quer dizer Transumanismo?

Quero te convidar para uma primeira análise superficial, que seria entender a palavra. Aqui encontramos o “trans” e o “humanismo”. Nesse contexto [1], trans mudança, ou a transição de um estado para o outro. Humanismo, o que somos, nossa espécies. Somando essas duas palavras, poderíamos pensar que transumanismo seria transitar do estado “humano” para outra coisa.

Mas que coisa é essa?

Uma das descrições simples [2] seria dizer que transumanismo é uma corrente de pensamentos que estuda maneiras de usar a tecnologia para melhorar o ser humano. Usar todo nosso conhecimento para melhorar a nossa espécie, para transitar a um estado superior, nos tornando melhores e mais preparados para enfrentar o universo.

O gênero literário que mais aborda esse tema é o Cyberpunk [3] e um dos livros mais famosos nesse gênero é o Neuromancer [4], de William Gibson. Em histórias desse gênero, usamos partes mecânicas para substituir partes perdidas, ou até, melhorar nosso corpo. Órgãos imprimidos em impressoras 3D podem ser implantados em nosso corpo para substituir um órgão doente. Ou até, como em Admirável Mundo Novo [5], que podemos criar remédios capazes de curar qualquer sentimento negativo.

Em um olhar superficial, tudo parece muito lindo e perfeito. Temos a impressão que esse tal de “transumanismo” trará um futuro cheio de coisas boas e redução de sofrimento para nossa espécie. Entretanto, a literatura do cyberpunk traz também ideias do lado sombrio desse tipo de tecnologia.

Com o Soma [6] - remédio que cura de sete a quatorze sentimentos - de Aldous Huxley, podemos nos tornar seres sem sentimentos, enganados por uma felicidade falsa, que seguem suas vidas sem entender o que os sentimentos ruins significam. Outro caso seria, se você tiver um braço robótico, alguém poderia hackeá-lo e assassinar alguém em seu nome. O mesmo poderia ser dito dos imaginados implantes cerebrais.

Em resumo, podemos dizer que o transumanismo tem uma meta principal: acabar com o sofrimento humano. Para isso, estudamos maneiras de curar doenças, viver mais, acabar com o sofrimento de outros ou depredação do planeta, até acabar com sentimentos que nos atrapalham, etc.

E não precisamos viajar para o futuro para encontrar transumanistas. Quantas histórias não ouvimos de viajantes que vinham para a américa acreditando encontrar uma fonte capaz de dar a imortalidade para quem bebesse a água dela ou a busca incansável pelo remédio que tudo cura. O transumanismo é uma vertente filosófica que permeia a existência de nossa espécie. Não está relacionado diretamente à tecnologia, mas sim à constante busca pelo fim da dor e da mortalidade.

Entretanto, repito o que já falei. Eu não acredito em uma utopia onde o homem usará tudo isso para criar um mundo maravilhoso, mas sim, uma distopia cyberpunk, onde esses conhecimentos também serão usados para o mal e para concentrar o poder na mão de poucos.

O ser humano é egoísta demais para que todos juntos lutem por um mundo perfeito. E os transumanistas continuarão com seus esforços, cada vez com um problema novo para resolver.

Talvez o egoísmo seja a pior característica do ser humano e o maior desafio para o transumanismo. O que seria de nossa espécie sem ela?

Referências:

  1. Wikipédia - Trans
  2. Wikipédia - Transumanismo
  3. Wikipédia - Cyberpunk
  4. Neuromancer
  5. Admirável mundo novo
  6. Soma

Ato Imperial I - O Necromante

Dia Vinte e dois, do quarto mês do Ano da Peste.
Trecho I da polêmica reunião Imperial — A Praga

— Senhoras e senhores, ha ha ha — iniciou o imperador, sentado na poltrona imperial, na ponta de grande mesa. — Eu sei que só tem uma senhora aqui, mas ela vale por mil! Ha ha ha!

“Os Adeptos de Ruskov estão dizendo que estamos em uma distopia, por causa da questão do vírus aí! Mas eles não vão roubar minha hemorroida!”

Sério, o Imperador olhou para todos na mesa. Jurava que o que tinha dito era algo sério e de impacto, mas os conselheiros pareciam não dar atenção.

— Essa questão aí, da praga — continuou o imperador,  voltando-se a um de seus conselheiros, que era um homem pálido e usando um capuz que mais parecia um morto-vivo — se os países vizinhos não vão responder, temos que mudar isso daí.

“Kaish, como meu conselheiro nessa questão aí, preciso que leves a cura para todos os nossos cidadãos para que continuem trabalhando! Temos muita Panaceia estocada e comprei mais ali, do nosso vizinho… aliado… sim, sim. Tem mais chegando.”

— Eu, é, eu… — começou a falar o conselheiro, que parecia atingido com uma forte comorbidade. Sua mandíbula mal conseguia se mover e seus olhos não paravam abertos. De tempos em tempos, lambia os lábios para umedecê-los. — Eu, sim. Sim. Panaceia? Sim, sim. Sei. É, que…

— Não, não. — Prosseguiu o Imperador. — Não é contraindicado. Pode tratar da logística.

(…) Essa questão aí, não podemos deixar nosso povo parar de trabalhar, Paulo Praxedes…

— (…) Esse é o momento! É a hora de passar a boiada…

— (…) Eu estou é mais preocupado com a minha HEMORROIDA!!! Eu preciso de mais informação! Quero minha família protegida.

— (…) Autocracia… Não quero autocracia, mas desse jeito…

O imperador se levantou e todos o acompanharam.

— Cada um sabe o que fazer. Essa é a hora de mostrar para que que viemos!

***

Adão Glória sempre foi um rei sensato. Ao menos, pareceu sensato quando a peste chegou. Enquanto uns culpavam Ruskov pelo mal que assolava a população do Império, Adão reuniu seus auxiliares e colocou o reino de São Tarso para funcionar.

Não demorou nada até o maior reino do Império da Braza se destacar, trazendo a inveja dos outros líderes à tona. Em um momento em que todos precisavam estar unidos para enfrentar o mal, o povo ainda tinha que engolir a rixa entre Adão Glória e seu líder, o imperador de Braza.

Entretanto, Adão tinha um passado obscuro. Antes de se tornar rei e assumir o lugar do pai, ele era apenas um almofadinha na corte. Com seu sorriso que parecia feito de plástico, Adão era mais um instrutor de pequenos comerciantes cheios de dinheiro que tentavam ganhar a vida explorando os outros. Mas o filho do rei conseguiu superar todas as expectativas negativas quando convenceu o pai a transformar resto de comida da corte em ração, para que ele pudesse dar aos pobres.

Pobre era Adão, que acreditou que aquilo o tornaria popular. Tornou-se popular, mas não do jeito que ele gostaria.

Por outro lado, a chegada da Chama Purificadora foi uma oportunidade única para Adão. Uma vez no poder, — enquanto o imperador delirava com sua panaceia, — Adão atacou direto no ponto, seguindo os conselhos dos magos. Enquanto todos os reinos gastavam todo seu ouro com a panaceia, que não funcionava contra a peste, Adão usou seu dinheiro para isolar a população e começar sua própria pesquisa.

Tudo correu bem.

Outra coisa que correu bem foi a notícia de que o rei de São Tarso estava procurando pesquisadores e estava pagando bem. Magos, alquimistas e estudiosos de todo o mundo viajaram para São Tarso para tentar botar a mão naquela grana.

— Vossa majestade, — falou um homem de idade avançada, com longas barbas brancas. Sua voz era rouca, parecia ter gritado por dias. — Nunca na história desse reino tivemos uma oportunidade tão grande. Um momento único. Minhas habilidades e capacidades nunca foram tão úteis para todos nós. A metade norte do império e o reino vizinho, Sundar, estão devastadas pela Chama Purificadora. É hora de usarmos isso a nosso favor.

“A necromancia nunca foi tão útil. Tantos corpos. Podemos reviver esses corpos e criar uma muralha para impedir o avanço de outros infectados. É a maneira mais eficiente de lidar com essa situação.”

— Senhor Horácio, — comentou o rei Adão, depois de ouvir o depoimento do mago a sua frente — acho seus métodos um pouco agressivos. Você não trabalhava com aquele vampiro? Que foi o último imperador?

— Meu senhor, — prosseguiu o necromante — eu entendo o medo tradicional da necromancia. Muitos a temem por lidar com os mortos. Apesar de tudo, tenho que reforçar que a magia da morte é natural. Os corpos já não possuem mais almas e lembranças de quando eram vivos. São apenas marionetes.

— Ainda assim nego a sua súplica. — Continuou o rei. — Muitas dessas magias aí são proibidas no império. Não posso me indispor ainda mais. Próximo…

Por fim, o rei Adão decidiu por fechar negócio com a Guilda dos Metalúrgicos, um grupo mercenário liderado por um gnomo engenheiro que trazia mais de mil soldados armados com armaduras de metal, maçaricos, lança chamas, espadas flamejantes e flechas explosivas. Um dos maiores arsenais em mãos livres da atualidade.

Então, a operação Glória se iniciou e arrepiou até a alma do imperador.

Durante dias, os mercenários andaram pelas ruas do reino com suas armaduras reluzindo a luz do sol. Pessoas que eram detectadas com a Chama Purificadora eram capturadas e nunca mais eram vistas. Havia lendas de que os doentes eram levados para campos de concentração, ficando afastados dos puros. Outros até diziam que lá os doentes eram fuzilados ou usados em experiências para uma possível cura.

Muitos se perguntavam como aqueles soldados não se infectavam, mas suas armaduras eram preparadas para esse tipo de situação. Nada de fora entrava em contato com seus corpos, utilizando modernos respiradores goblin para proteger quem estava lá dentro do ar infectado.

O temor por esses mercenários era tão grande que as pessoas começaram a se esconder dentro de suas casas quando ouviam o marchar característico, de centenas de pés enlatados batendo contra as pedras das ruas.

Em menos de uma semana, as ruas de São Tarso estavam vazias. Apenas sombras do medo caminhavam por lá.

***

— Imperador, — disse Paulo Praxedes, que cuidava do tesouro do império — temo em dizer que temos um problema com as taxas. Sim, sim. Mesmo com meu imposto novo, e a taxação sobre os livros, a cobrança da taxa deste mês veio reduzida pela metade. Metade!

— Metade, Praxedes! — gritou o imperador, pondo-se em pé, na frente do trono — Como assim?

— Basicamente a taxa de São Tarso parou de chegar.

— Patifaria! Esse Adão Glória quer acabar comigo! Prepare o exército, vamos enviar uma comitiva até lá para cobrar a taxa.

— Certo, meu senhor, — continuou Praxedes, cauteloso — mas devo lhe avisar que, mesmo que façamos isso à força, podemos chegar lá e não encontrar o ouro. Caso isso aconteça, os outros reinos nos acusarão de tirania. Seu título ficará ainda mais enfraquecido.

— Como assim… “ainda mais”?

— É, meu senhor. — Paulo Praxedes parecia não querer tocar nesse assunto, mas não encontrou saída. — Você dizer que a eleição imperial foi fraudada colocou o título em cheque. Se você agir com tanta energia por nada, apenas piorará as coisas.

— Mas que merda é essa!? Não consigo nem reinar… quer dizer, imperar em paz! Mas me diga uma coisa, por que o rei Glória não teria esse dinheiro? Se ele não enviou, deve estar em algum lugar. É o dever dele.

— Sim, entendo, majestade. O que quero dizer é que talvez o rei não esteja coletando seus impostos internamente também. As informações que tenho é de que existe uma companhia de mercenários marchando nas ruas e todos os mercados e outras lojas de manufatura estão fechadas. Logo, ninguém está pagando impostos.

— Mas aí é responsabilidade dele. Eu preciso das taxas!

— Entendo, entendo! Por outro lado, o Parlamento e a Suprema Corte já estão trabalhando para, enquanto a Chama Purificadora durar, cortar as taxas imperiais, abstendo os reinos e cidades estados das taxas imperiais: Se isso der certo, as coletas irão diminuir para zero por um longo tempo.

— Isso não vai acontecer. Tenho três filhos no parlamento. Eles impedirão isso de acontecer.

E não conseguiram. Na mesma semana, o parlamento aprovou a lei e a suprema corte endossou. No mês seguinte, nenhuma barra de ouro ou moeda foi carregada dos reinos para o distrito imperial.

O imperador foi obrigado a acatar, pois agredir a decisão desses dois poderes o colocaria definitivamente em uma má posição. Foi então, em um canto escuro do palácio imperial que Kaish, Praxedes, o Imperador e seus três filhos se encontraram.

— Calma, meninos! — Começou o imperador. — Sei que vocês se esforçaram, mas a conspiração está trabalhando forte contra nós. Um dia teremos poder suficiente para nos juntarmos a nossos aliados e marcharmos contra Ruskov, mas, enquanto isso, precisamos quebrar sua influência dentro do nosso reino.

 — Estamos perdendo força, pai. - Disse o filho mais velho. - Minhas companhias mercenárias não conseguem mais penetrar em São Tarso. Para isso, criaremos um conflito muito grande. A Companhia dos Metalúrgicos é muito forte para ser combatida frente-a-frente.

— Podemos investir em tráfico de informação — comentou o filho mais novo. — Com umas mentiras aqui e outras ali, podemos pagar os sofistas para irem para as cidades pregar que a Panaceia realmente funciona e não precisam ter medo. Pelos menos assim a maioria dos reinos e estados podem voltar a operar e pagar as taxas.

— Entretanto — interrompeu Praxedes, — gastaríamos a metade de nossas reservas para enviar sofistas para todas as grandes cidades do império.

— Preço que precisamos pagar! — Afirmou o filho mais novo do Imperador.

— Kaish, — interrompeu o imperador. — Como está a distribuição da panaceia?

— Eu… é… sim… panaceia.

— Sim, a panaceia.

— Ela… não está funcionando… digo… não…

— É porque não estão tomando o suficiente! — Insistiu o imperador, levantando o tom de voz. — Pode intensificar, vou precisar de você para nossa próxima ação. Vamos pôr os sofistas nas ruas e distribuir mais panaceia. Quero esse remédio entrando em São Tarso de qualquer maneira. Uma vez lá, teremos influência sobre a população e eu vou colocar aquele Adão Glória na forca!

***

As ações do imperador geraram impacto muito rápido. As mentiras sobre um tal remédio que curava a Chama Purificadora e a alta disponibilidade de tal produto fez com que as pessoas perdessem medo da doença e voltassem às suas vidas normais.

Em São Tarso não foi diferente. Livres do medo, as pessoas começaram a ser mais ousadas. Os artesãos começaram a abrir suas lojas e o mercado voltou a ficar movimentado. Quando a Companhia dos Metalúrgicos surgia, todos se escondiam. Mercadores preparados corriam com suas caixas e mochilas e artesãos fechavam as portas de seus estabelecimentos.

Entretanto, mesmo com as coisas tentando se ajustar e com a melhora na economia, o parlamento manteve a decisão de não cobrar as taxas imperiais. O imperador ficou ainda mais furioso. A cada passo que dava, sacrificava um pedaço do seu poder e mais regredia.

Foi então que tomou a decisão final. Existia alguém que sobreviveu a essa política podre dos poderes e somente ele poderia ajudar o imperador a tentar reverter essa situação.

Com uma pequena comitiva, o imperador se preparou para sua longa viagem. Tirou suas roupas caras e vestiu uma armadura repleta de detalhes dourados. Sentiu-se forte e confiante e, quando um soldado falou que o protegeria se algo acontecesse, ele retrucou e falou que devido ao seu histórico de atleta ele não precisaria de ajuda.

A cavalo, andaram por quase uma semana em direção norte da Cidade Imperial, até chegarem à parte mais antiga do império, onde a colonização de todo o império se iniciou, há muitos séculos.

A excursão chegou em um dia chuvoso e escuro à cidade de Castigador. O imperador já vinha alimentando uma angústia em seu peito de pôr os pés naquele lugar e o clima não estava ajudando.

Depois de deixar os cavalos e as cargas em uma estalagem afastada do centro da cidade, disfarçados, andaram pelas ruas até encontrar o Castelo Temerário.

A maioria dos castelos do império foram reduzidos a simples museus depois da invenção da energia e da pólvora. Entretanto, aquele ali era onde morava o ser mais sinistro e mais antigo de toda humanidade. Aquele que governava o império antes do atual imperador. Dono de uma lábia e artimanha que todos invejavam, era responsável por manipular e tomar o trono a força. Depois de assumir o posto de imperador sem ser eleito, quase perpetuou seu feito para toda eternidade.

O Temerário Senhor das Trevas não só era temido, como era odiado por todos. O senhor das sombras tinha a habilidade de ver o ódio quase como se fosse palpável. E o ódio o alimentava. Ódio e sangue.

O imperador entrou no salão vazio sentindo o frio tomar conta de seu corpo. As paredes geladas do castelo eram tão opressoras que parecia que iriam cair sobre eles. Enfrentando o medo que a escuridão causava, avançaram, arredando crânios e teias de aranha, até chegarem no salão principal, que estava vazio e sem ninguém para lhes recepcionar.

— Ó, Temerário Senhor das Trevas! — Gritou o imperador e sua voz quebrou o silêncio como um trovão. — Eu invoco sua presença! Eu, Imperador dessas terras, venho aqui em busca de conselhos seus, já que esteve em meu lugar no passado.

Uma revoada de morcegos ocupou o teto do salão. Uma centena de criaturas voavam em um estardalhaço, gritando e assustando ainda mais os soldados que acompanhavam o imperador. Os morcegos começaram a se aproximar, descendo do teto em forma de redemoinho, quase como o desenho de um tornado, iluminado apenas pela luz das tochas que os soldados carregavam.

A ponta afunilada tocou o solo e, aos poucos, os morcegos foram se unindo, assumindo a forma de um ser humano. Quando o processo de metamorfose terminou, um homem vestindo um fraque e gravata estufou o peito, com um sorriso amarelo e duas presas que refletiram a luz das tochas. Seu olhar era vil e opaco. O ser era tão velho que um simples sopro o derrubaria no chão e todos seus ossos quebrariam.

— Pois olhe só! — Falou o vampiro. — Quem vem aqui, na minha casa, um ano depois de me destronar.

— Pera lá! Essa questão aí, não foi coisa minha. Ha Ha Ha. Eu fui eleito, e naquela questão lá, quando você virou imperador, eu até estava do seu lado.

— Entendo! Pois então, diga-me, a que sua presença em meu castelo se deve, então? Além de tomar a minha atenção.

— Senhor, venho em busca de conselhos, entendeu! Tenho o senhor como referência, uma vez que nessa questão aí… de tomar o trono a força, soube negociar com o parlamento e com os patifes da suprema corte, pondo panos quentes e se mantendo no poder.

“Então, ó, Temerário! O que devo fazer para seguir os seus passos?”

— Entenda, jovem humano, que mesmo que você queira, você não possui o vasto conhecimento que tenho para uma situação dessas. Mas dar-te-ei uma opção, que pode te ajudar:

“Dentro do parlamento existem dois grupos podres que são de fácil corrupção. Um deles é formado por criaturas sombrias como eu: Vampiros, Lobisomens e Esfoladores Mentais que se alimentam do sangue, carne e cérebro dos seres vivos. Prometa-os mais alimento e eles te seguirão. Prometa escravos mentais e os Esfoladores serão seus.

“Mas tem uma outra bancada, que está sedenta de poder. Porém para comprá-la você precisará de coragem. A Bancada dos Necromantes. Libere o uso da Necromancia e Magia Negra dentro do império e eles te seguirão como se não houvesse amanhã. Não importa a loucura que você esteja disposto a cometer.

“Compre esses dois grupos e o parlamento será seu.”

O imperador retornou para a Cidade Imperial com a sugestão do Temerário em sua cabeça. A bancada das criaturas sombrias e podres foi convencida com muita facilidade. Oferecendo a eles setores do império nos quais eles poderiam se alimentar e parasitar sem limites, começaram a apoiar o imperador e o caos se iniciou no parlamento.

Comprar somente os vampiros e companhia não foi suficiente para pôr suas vontades a força no parlamento. Sem opção, o imperador fez o que tinha que ser feito. Em um dia, acordou cedo como deveria, foi para o palanque imperial, onde podia fazer seus discursos, e esperou seus fiéis se aglomerarem.

— Meus caros seguidores! — Gritou o imperador, levantando os braços. — Hoje é um dia importante, pois é início de uma nova etapa do meu governo. Eu hoje proclamo meu primeiro ato. O Ato Imperial I, o primeiro de muitos. E nesse ato, eu proclamo a Necromancia e Magia Negra como artes livres dentro do império.

A notícia do Ato Imperial I caiu como uma bomba. A Suprema Corte reagiu, mas era tarde demais. No mesmo dia, o imperador já tinha apoio de mais da metade do parlamento. Ocupados por Necromantes e outras criaturas sombrias, a política imperial virou um circo, digno de ser escrito em pergaminhos históricos.

O caos também desceu todas as esferas do governo até chegar à população. A mudança drástica na política fez muitas pessoas acreditarem que algo bom estava por vir e que surgiria uma nova era de fartura. Logo os reis locais começaram e enfrentar rebeliões e desordem em níveis descontrolados.

Em São Tarso, outros regimentos de mercenários, pagos por sabe-se lá quem, surgiram para enfrentar a Companhia dos Metalúrgicos e dominar as ruas, trazendo a liberdade mais uma vez para a população.

Enquanto o imperador e os reis regionais brigavam por política, o parlamento seguiu dividido. A Suprema Corte perdeu seu poder de influência e não conseguiu mais colocar as leis imperiais em vigor.

Nas ruas, os sofistas seguiram espalhando mentiras sobre os reis e as atitudes dos mesmos. Convenciam as pessoas de que a Panaceia do Imperador era o melhor remédio e que preveniria todas as doenças existentes no mundo.

Enquanto isso, pessoas seguiam morrendo, longe da atenção de todos.

E a Chama Purificadora seguia cada vez mais forte.

***

Os limites Norte e Oeste de São Tarso marcavam uma região crítica do reino de Adão Glória. Ali ele lutava contra a chegada da Chama Purificadora em suas terras. Os dois vizinhos que o reino tinha, ao norte e ao oeste, já sucumbiram para a peste e, aos poucos, pessoas que fugiam para seu reino vinham trazendo a doença.

Naquele lugar medonho, a Companhia dos Metalúrgicos fazia plantão, com seus lança-chamas, impedindo que qualquer um se aproximasse. Mas agora, com a intervenção das outras companhias contra eles, o espaço estava aberto e pessoas tentavam mais uma vez cruzar aquela fronteira buscando por proteção.

A faixa de cinzas, com quase um quilômetro de extensão, mostrava a todos que ali vegetação, cidade e pessoas foram carbonizadas. Quando a chuva chegava, a cinza levantava e se misturava com as nuvens, fazendo a chuva cair em cor negra sobre outras cidades. Um casebre todo queimado, mas ainda em pé: foi onde o encontro aconteceu. Adão Glória, vestindo uma roupa preta com máscara, entrou pela porta e deixou os guardas do lado de fora.

Lá dentro, Horácio, que era um necromante que Adão conhecia, esperava, segurando uma caveira em sua mão e admirando as cinzas que ainda estavam em volta daquela estrutura que um dia foi a cabeça de alguém.

— Seu Horácio, — começou Glória, sem paciência — eu preciso de você. Sei que recusei seus serviços antes, mas agora preciso de suas habilidades. Pago o que for preciso.

— Curioso, não? — Comentou o necromante, sem tirar os olhos da caveira. — Nunca na história desse povo eu vi algo desse tipo. Eu tenho é que agradecer à natureza por ter criado essa praga, que mesmo que coloque vidas em risco, essa criação veio em boa hora para mostrar que somente a necromancia pode resolver certas crises. Essa situação somente os mortos podem resolver.

O necromante tirou os olhos do crânio e apontou para o rosto espantado do rei Adão.

— Majestade, tenho permissão para agir?

— Permissão e o ouro que precisar. Preciso estar no controle do meu reino.

— Mas há um preço. A solução que virá não irá salvar as vidas que poderíamos ter salvo se tivéssemos usado a necromancia antes, ou se o Imperador não tivesse se intrometido por aqui.

— Agora as vidas não importam mais.

— Assim será!


O Preço da Informação

Quando vi a internet pela primeira vez, me espantei com o oceano de possibilidades que ela permitia. E quanto mais o tempo passou, mais ela evoluiu e mais potencial consegui enxergar em seu desenvolvimento.

Eu posso dizer que meu pensamento principal ao ver a internet se tornando popular no começo do século foi que ela era uma rede de informação quase infinita. Quase sem fim, propriamente dita, quase tudo estaria lá. Apenas precisávamos ter interesse de correr atrás de uma informação, e ela estaria ali, a uma pesquisa de distância.

Isso se tornou tão forte no meu desenvolvimento profissional, que eu posso dizer que muito do que sei hoje é devido a meu interesse de pesquisar, ler, analisar, reforçar o conhecimento com outras fontes, e por fim, sintetizar um conjunto de informação. Tudo isso, muitas vezes, pela internet.

Por exemplo, quando me formei, eu aprendi a programar C++. Eu saí assim do meu curso de engenharia. Eu era um cara que aprendeu um monte de coisa na teoria, aprendi a fazer pesquisa --- em projetos de pesquisa, --- e programar C++.

Meus primeiros anos --- além do mestrado que fiz em seguida --- eu trabalhei com desenvolvimento C++. Entretanto, o tempo passou e o desenvolvimento Web se tornou popular, e eu tive uma grande oportunidade de me atirar em um projeto desses. Então, fui eu ao Google e estudei. Aprendi desenvolvimento Web lá, novas tecnologia, novos paradigmas. Em alguns meses estava trabalhando oficialmente em projetos Web. E o faço até hoje.

Ok, falei como é legal ter acesso a informação. A comunidade de desenvolvimento de software é realmente cooperativa, muito mais do que competitiva. É um fenômeno da internet. Entretanto, ao mesmo tempo que você acessa fóruns e cursos online, você também encontra muita gente o fazendo software de má qualidade ou com uma certa… inocência. Coisa que não é feita por maldade, apenas por inocência. Uma pessoa descobriu algo que ela julga bom para ela, e passou adiante como se fosse um padrão.

O que quero dizer com esses exemplos: que ao mesmo tempo que temos informações boas na internet, temos também, informação ruim.

Trago agora o discurso para nosso paradigma atual: na internet temos Verdade e Mentiras. E esse é um assunto polêmico nesses momento, principalmente porque temos Verdades que estão a tona e outras que estão enterradas atrás de paredes, que só se abrem para quem paga (paywall) [1]. E também, existe alguns tipos de mentiras. As mentiras que são causadas por inocência das pessoas, que acharam que algo que viram ou observaram era verdade, mas também, há mentiras que são criadas, com seus criadores tendo alguma segunda intenção.

Nesses tempos atuais, a internet tem se expandido muito mais para o lado da dissimulação do que da informação.

Outro exemplo é o que acontece atualmente com os meios de comunicação (falando aqui dos confiáveis). Para se manterem vivos na internet, eles tiveram que cobrar pela informação. Assim como na vida sem internet, onde você compra o jornal, você também tem que pagar para ler uma notícia online.

Já a mentira é de graça. Assim como antes da internet, você ouvia fofocas na padaria ou na festa do patrão, hoje, as mentiras chegam nos WhatsApp, Facebook e outras formas digitais. E você não precisa pagar por elas.

“A verdade é paga, mas a mentira é de graça!” --- Nathan J. Robinson [1].

Assim como o autor dessa frase aí, eu não estou aqui para julgar esse fenômeno, pois, sim, a Folha de São Paulo tem que pagar seus jornalistas, e como fazer isso sem cobrar pelo acesso à informação?

E o que podemos observar aqui, é que esse fenômeno histórico apenas se repete. O que antes acontecia nas ruas de uma cidade, agora acontece por meios digitais.

Isso nos leva a pensar que --- talvez, que --- a informação verdadeira é só para quem tem dinheiro e a mentira é para qualquer um. Essa minha frase não é uma “viagem” tão grande se for pensar que os segredos militares e espaciais estão fechados em cofres em algum lugar por aí. Dessa maneira, quem tem dinheiro, tem acesso à informação.

E o que me faz pensar profundamente, a partir dessa afirmação de que dinheiro leva à informação --- e que em um país como o Brasil, onde há diferença social notável --- que os ricos e privilegiados têm acesso à informação, e pode cada vez mais se atualizar e se especializar. Mas quem não tem, como pobres e miseráveis, permanecerão nesse patamar, onde além de não terem dinheiro e acesso à serviços básicos, eles também estarão privados da informação, ou terão acesso è ela de forma limitada.

Posso levar o pensamento ainda um pouco para baixo, para sair da internet. Por exemplo, as escolas nas periferias possuem uma qualidade consideravelmente inferior e escolas em regiões nobres. Ainda mais, ricos podem pagar por estudo, enquanto pobres dependem das escolas públicas. Lembro claramente de quando meu irmão precisou estudar em escola pública e ele reclamava que chovia dentro da sala, enquanto as que estudei, na privada, nunca aconteceu algo nesse nível.

Colocando um pouco de energia positiva em minhas palavras, assim como grandes instituições estão interessadas em manipular através de Fake News (fofocas), felizmente, muitas pessoas detentoras de alto poder capital estão interessados em ver um mundo melhor, balanceando as coisas um pouco para o lado da luz.

Por fim, volto ao assunto que comentei quando falei sobre linchamento virtual. Eu vejo no futuro a internet ser limitada e controlada. Os governos mais autoritários terão interesse em saber quem está inventando coisas, ou quem está disseminando informações verdadeiras sobre algo que um político não goste. Ou será isso, ou continuaremos assim, mergulhados em um mar onde a mentira tem muito mais poder do que a verdade.

Ou para inverter esse cenário e manter a internet livre, teremos que lutar muito ainda...

E aí, o que você acha? Nó aprenderemos a lidar com as mentiras virtuais ou continuaremos influenciadas por elas? Os governos um dia irão limitar a internet ou ela permanecerá assim com é, livre?

Referências:


Cancelamentos

Você já deve ter ouvido o termo “O Tribunal do Twitter”, certo?

Hoje, esse tribunal, é o maior responsável por julgar quem está certo ou não nas redes sociais. Um tribunal formado por pessoas de qualquer tipo, de qualquer opinião, gênero, cor, etnia, e etc.

Um processo neste tribunal, acontece mais ou menos da seguinte maneira:

1. Uma pessoa “famosa” é exposta por algo errado que ela cometeu. As provas são apresentadas através ou de prints de telas, fotos, vídeos ou links para outras mídias (jornais e afins).

2. Um grupo de pessoas, que não são famosos, mas são influentes (40 mil seguidores ou mais) entram em ação. Eles postam em suas redes sociais algo como: “E aí galera! Vamos cancelar o X pelo assédio que ele realizou?”

3. A mensagem desse influente permeia todos os seus seguidores. As marcações com @ e # atingem um grupo ainda maior de pessoas. Os seguidores compartilham as provas digitais do crime e logo, meio milhão de pessoas podem estar bloqueando o “criminoso”.

4. Banido de todas essas redes sociais, todas essas pessoas nunca mais verão os posts daquele famoso. Ele perde visibilidade, e anos depois, a pessoas que bloquearam não precisam mais se preocupar, afinal, o bloqueio é para sempre.

5. A pessoa famosa está: cancelada.


Olhando por esse processo, parece interessante. Os famosos que cometeram algum crime são bloqueados por um conjunto grande de pessoas e jamais poderão se pronunciar novamente.

Mas eu vejo um certo perigo nesse processo. Antes de avançar, recomendo a leitura do meu artigo sobre linchamentos[1]. Pois, o que vejo acontecendo aí, nesse “O Tribunal do Twitter”, é nada mais e nada menos do que um linchamento virtual.

Nesse evento, uma pessoa grita: olha ali o estuprador!!! Depois disso, uma centena de pessoas que nem sabem se é verdade ou mentira entram na brincadeira. Logo, essa pessoa está banida da sociedade (nesse caso, da sociedade virtual).

Vamos para algumas observações:

O caso em que deu certo: Blogueirinha Y acusa Vegano Z de ter assediado ela. Ela anuncia o evento, mostra prints e vídeos. Logo toda a rede social está bloqueando o perfil do Vegano Z.

Tempo passa e novas pessoas entram na internet. Essas pessoas podem gostar ou não do Vegano Z. Se elas lerem a notícia do que aconteceu, pode ser que essas novas pessoas sigam esse rapaz novamente ou não.

Um caso a se pensar: Ana456 está um dia navegando em suas redes e encontra uma postagem de 10 anos atrás de Zézinho56. Essa postagem mostra uma piada feita com animais. Ana456 fica irada com o que leu e inicia o processo de cancelamento de Zézinho56.

E assim como o “É o Tchan!” e o “Gugu Liberato” mostravam nos anos 90 coisas que não deveriam estar na televisão na frente de crianças, o tempo mudou para Zézinho56 nesses 10 anos, e nada que ele faça apaga seu passado.

Um caso mais complicado: esse caso é bem simples. Um cancelamento se inicia porque uma pessoa famosa teria assassinado outra pessoa a sangue frio e a lei não estava fazendo seu papel em prender esse assassino.

O perfil acusador surge com vídeos pegos de câmeras de segurança e fotos do assassino executando sua vil tarefa. O cancelamento é realizado. A pessoa famosa desaparece da internet por anos.

Depois de um tempo, a lei investiga e prova que o acusado era inocente. Não era ele no vídeo e nas imagens. Inclusive, ele tinha um álibi, estando viajando para a Europa no dia do crime.

Livre das acusações, essa pessoa tenta voltar à sua vida normal. Mas o “O Tribunal do Twitter” não esquece. Essa pessoa já está bloqueada e jamais será desbloqueada. Sua voz não será ouvida pelas pessoas que o acusaram injustamente.

E pior, a reputação dessa pessoas poderá estar tão marcada, que agora, ela jamais conseguirá voltar à sua vida normal. Ela terá que encontrar outro caminho.


Nestes três casos, tentei abordar algumas possibilidades. Desde quando o cancelado é culpado de realizar algo ruim, quanto quando alguém é cancelado injustamente.

E assim são os linchamentos [2]: há um clamor popular por justiça, e essas pessoas acabam a fazendo com suas próprias mãos, estando certas ou erradas, em muitos casos, levando o linchado à morte.

Certas vezes, os linchadores estão tão sedentos de justiça que sequer querem saber se o linchado é o criminoso ou não. Agredir alguém parece a solução.

A verdade é que o cancelamento está trazendo a tona uma coisa do passado. O Talião virtual. O velho “Olho por olho, dente por dente”. A ideia de que a lei da reciprocidade é a que vale, mais do que qualquer outra lei.

O grupo que resolve linchar alguém se considera capaz de Julgar e Executar a pena. Será mesmo?

E quem julga errado, paga pelo erro depois? Digo, no velho “olho por olho, dente por dente”? Qual é o preço que você deve pagar por cancelar alguém injustamente? Por linchar alguém?


Por essas coisas, eu sempre aconselho quando posso: se você viu algo errado, leve à lei e deixe ela julgar.

Depois que ela julgar, a deixe punir.

Depois disso tudo, um simples unfollow no perfil social do criminoso faria seu trabalho. Dependendo do crime, é natural que as pessoas deixem de seguir ou tomem ações mais pesadas.

Eu também sempre tento observar as coisas pelo caminho da empatia. Acredito que erros possam ser reparados e pessoas possam melhorar. Mesmo que alguém faça algo que eu jamais volte a olhar para aquela pessoa, e mesmo que seja muito difícil perdoar, não posso eu, um integrante da sociedade, excluir outro por simples belprazer.

Oposto à lei do Talião, existe outro dizer popular bem interessante: “Não faça aos outros, aquilo que não quer para você”.


Referências:

[1]. O mundo e os linchamentos: D. R. Laucsen

[2]. Quando “pessoas de bem” matam: um estudo sociológico sobre os linchamentos: Danielle Rodrigues de Oliveira


O mundo e os linchamentos

“Elinel, meio-elfo, filho de Sulinel (elfo) e Elora (humana), doze anos, flor da infância. A família vivia feliz em Comodoro Suriel, uma cidade estado de integração entre homens e elfos ao sul do Império.

Tanto o Império quanto o reino dos Elfos da Floresta do Sul, Eliredand, não aceitavam mestiços e raças estrangeiras. A família sabia que, se existia algum lugar em que poderiam viver, era no Império. Mas para facilitar a vida desses excluídos, existia cidade como as zonas de integração. Assim, os estranhos podiam viver com menos problemas.

Entretanto, a felicidade dessa família entrou em colapso no dia que o pequeno Elinel chegou em casa, com as roupas rasgadas e sangue lhe escorrendo pelas pernas. O olhos cheio de lágrimas encontraram os da mãe, que no mesmo instante desabou sobre os joelhos e desatou a chorar.

--- Não tive culpa, mãe! --- choramingou o jovem. --- Não tive culpa!

***

A notícia do estupro do jovem elfo se espalhou pela cidade. Ninguém sabia quem era o estuprador e o rapaz não lembrava de conhecer o criminoso de algum lugar.

Cidades como Comodoro Suriel eram grandes favelas, juntando exilados, expatriados e bandidos. Os governos nunca resolviam os problemas de criminalidade, e apesar de terem integração no nome, mestiços, elfos e outros raramente eram integrados ao reino Humano. E assim como esperado, as autoridades da cidade deram o caso como finalizado, uma vez que o menino não reconheceu nenhum dos possíveis agressores.

--- Eu não aguento mais --- Comentou Sulinel, escorando no balcão de um bar. --- Ser obrigado a viver nesse lixo de lugar.

--- Calma, meu chapa! --- Disse um anão, subindo em um banco para conversar com o elfo. --- Não vá perder o controle agora.

--- Mal consigo dormir, sabe? --- continuou Sulinel, não dando atenção para o anão. --- Fugir daqui não é uma opção, mas não consigo mais viver pensando que quem atentou contra meu filho vive por aí, solto.

--- Já pensou em um clarividente?

--- Clarividente?

--- Sim, sim --- continuou o anão, dando um grande gole em uma cerveja. Sua voz saia rouca entre os pingos de cerveja. --- Feiticeiros que estudam visões e profecias. Eles podem visualizar um momento do passado. Eu sei onde mora um.

Não acreditando muito no anão, Sulinel resolveu tentar. Junto de seu filho, se dirigiu até a cabana do tal feiticeiro.

O vidente era um elfo velho, com longas barbas e pele enrugada. Seu cabelo havia caído, destacando uma grande careca circular, com duas enormes orelhas pontudas, uma em cada lado.

--- Você quer descobrir quem atentou contra seu filho? --- comentou o elfo feiticeiro. --- Isso vai ter um custo. Você sabe né?

Sulinel estava preparado para isso e jogou a bolsa de ouro sobre a mesa. Então o feiticeiro tocou a grande bola de cristal com seus dedos finos e ressequidos. A esfera brilhou, assim como os olhos dele.

--- Sim, sim! --- comentou ele, ainda em transe. --- Pablo. Filho do marceneiro. Ele levou seu garoto para o beco, o ameaçou com uma faca. E depois… 

E depois Sulinel sabia muito bem. Com aquelas palavras gravadas na mente, seguiu seus dias sem saber o que fazer. Poderia armar contra Pablo e dar um fim a ele. Ou talvez tentar avisar as forças policiais, mas ele sabia, que o governo não faria nada, afinal, a informação do feiticeiro não poderia ser usado como prova.

Entretanto, certo dia um pouco antes do almoço, Sulinel já nadava em um oceano de cerveja. Bêbado e sentindo o coração apertado, deixou escapar o que pensava e o nome do Pablo.

--- Tenho certeza que foi --- falou o estalajadeiro, que era humano. --- Esse rapaz, Pablo, sempre odiou elfos. Eu vi ele dando um chute em um gnomo uma vez. Sem piedade.

--- Ele é um vagabundo --- comentou outro Elfo, sentado em uma mesa perto de Sulinel. --- Finge que vai para aula, mas vive com seus amigos encrenqueiros aprontando por aí.

--- Pensei em… --- Tentou falar Sulinel, mas foi interrompido pela mulher do estalajadeiro que ouvia de longe.

--- Pois você deve sim dar uma surra nesse rapaz. Onde já se viu! Atentar à uma criança? Não existe perdão para uma coisa dessas.

--- Mas eu já comuniquei a polícia. E o que esse vidente falou, não são provas para prendê-lo.

--- Não é de prisão que precisamos --- gritou um elfo que também estava bêbado, e ouvia de longe. --- Aqui nessa cidade apenas nós podemos fazer justiça.

--- Sim! Justiça!

--- Justiça!

Antes mesmo que Sulinel pudesse falar mais alguma coisa, o grupo formado por umas cinquentas pessoas marchava pelas ruas.

Quando chegaram na marcenaria, o grupo começou a gritar, ordenando que Pablo viesse ao lado de fora. Um homem velho e barbudo, da pele morena e marcada pelo sol surgiu na janela.

--- Pablo não está --- falou com paciência o marceneiro. --- O que querem?

--- Queremos justiça! --- Gritaram uns.

--- É! --- gritou um elfo bêbado, dando um passo à frente. --- Você sabe o que seu filho fez? Ele estuprou uma criança. O que você pensa disso?

--- Certo --- comentou o marceneiro, levantando a coluna e ponto as mãos no parapeito da janela. --- Então avisem a polícia. Se meu filho for culpado, que seja preso.

--- Aqui ninguém vai chamar a polícia!

Rápido como uma raposa, um elfo enfiou a mão dentro da janela, agarrou o marceneiro e arremessou ele para fora. O velho, sem muita resistência, caiu de costas no chão de terra.

--- Seu filho vai morrer --- gritou um outro manifestante. --- Ele é um bandido por culpa sua! Você não o criou! Não o educou! Aquele imprestável.

--- Meus senhores --- comentou o marceneiro, tentando se levantar. --- Vamos conversar… 

--- Sem conversa --- gritou um outro manifestante, se aproximando e dando um murro nas costas do pai de Pablo. --- Se você tivesse educado seu filho, ensinando o que é certo, ele não teria cometido uma barbaridade dessas.

O marceneiro tentou se levantar mais duas vezes, mas foi impedido todas as vezes. Agora a multidão circulava o marceneiro e eram tantas mãos lhe empurrando que sequer conseguia levantar a cabeça.

O grupo continuava clamando por Pablo, apesar de manter o pai ali, sob controle. Foi então que uma bota, que ninguém sabe de quem era, entrou no centro do grupo e acertou a perna do marceneiro.

O primeiro chute foi o estopim do que veio em seguida. Outros pés chutaram o corpo indefeso no chão. Os chutes eram leves, e mais humilhavam o homem do que machucavam. Mas um especial entrou e acertou a cara do marceneiro, abrindo o supercílio e esparramando sangue sobre a poeira do chão. Depois outro, e outro. O terceiro chute acertou a boca, e quebrou dois dentes da frente. Um dos dentes saltou e rolou pelas pedras de cascalho.

Naquele momento, eram tantos chutes, que um barulho de costela quebrada se destacou no meio da bagunça, e então Sulinel percebeu que agora usavam paus e pedras para agredir o homem.

Antes mesmo que pudesse ter noção do que estava acontecendo, o marceneiro perdeu sua vida, ali, no meio daqueles chutes e pauladas.

***

Dias depois, no quartel da polícia, Sulinel levou seu filho Elinel para um reconhecimento. Dos dez humanos apresentados, Elinel não reconheceu nenhum.

--- Eu acho que ele era elfo, pai --- comentou, depois de olhar para os homens, se referindo ao criminoso que lhe atentou.

O que Elinel não sabia, era que entre os dez homens, estava Pablo, o filho do marceneiro espancado até a morte, naquele momento, inocentado pela própria vítima do crime.

E Sulinel também não sabia que o vidente era um farsante, que morava na cidade e ganhava dinheiro enganando os outros.

A justiça com as próprias mãos, naquele dia, havia falhado.”

***

Toda essa história poderia ser uma simples fantasia, se não fosse verdade [1]. Trocamos elfos por humanos. Videntes por informações vindas de redes-sociais e nomes fantasiosos por reais.

Outra história é a de um pai de família[2] que foi morto, linchado até a morte, confundido com o verdadeiro criminoso. Também temos o caso que até tem nome, Justiceiro do Carnaval [3].

A maioria dos linchamentos que encontrei envolverem estrupro ou estupro com pedofilia. Me parece que esse assunto é o que mais enaltece o sentido de “realizar justiça com as próprias mãos”.

Entretanto, de todos os linchamentos, alguns deles leva a população a humilhar ou assassinar a pessoas errada. Onde ambos os lados saem perdendo… tanto quem morreu ou foi humilhado injustamente, quanto ao assassino, que geralmente vem a se arrepender pelo que cometeu.

Linchamentos são eventos que permeiam a história e estão presentes em nossa sociedade, mesmo sendo considerado algo que não devesse ser realizado. Muitas pessoas, ao parecer, acreditam que essa é a única maneira de fazer justiça, já que o estado ou é lento, ou ausente, ou favorece alguns, etc.

Ao meu ver, essa é uma situação sensível. Se um estuprador não é preso porque a justiça é lenta ou “passa pano”, eu me revolto e fico indignado com um criminoso desse nível solto por aí.

Por outro lado, discordo de linchamentos. Acredito que o papel de punir é do estado, que faz as leis e as aplica, e tem o dever de fazer sendo justo com todos.

E você, o que acha?


Referências:

[1] - Linchamento do Pai

[2] - Mataram um inocente

[3] - Justiceiro do Carnaval

[4] - Artigo mais amplo


Dupla Existência

Marco acordou podre. Rolou na cama durante horas, desligou o despertador diversas vezes e só quando as costas começaram a doer que sentou na lateral da cama, esperando o corpo reagir e a mente entender que era hora de levantar.

Levantou-se e respirou fundo, sentindo o cheiro de ácido no ar, resultado de uma noitada acompanhada de garrafas e garrafas de vinho.

Achei que tivesse bebido cerveja.

Afastou a cortina e abriu a janela para deixar o ar circular. A luz iluminou o quarto, o forte sol bateu sob a cama e começou a esquentar o tecido e a pulverizar os mofos que ali tentavam crescer durante a noite.

Marco dormia em uma cama de casal, sempre do lado esquerdo. O outro lado era para as gatinhas convidadas que passavam a noite ali. E naquele lado, a marca de um corpo se estendia pela cama, mas sem um corpo sequer.

A festa foi tão grande assim?

Marco vestiu-se e deixou o quarto. A mão esquerda correu de maneira automática até o trinco da porta do banheiro, mas algo em sua mente o avisou. Talvez ele estivesse em uso. Então ignorou e foi para a cozinha, onde abriu a geladeira, pegou um pote de iogurte e sentou-se em frente a televisão.

A bagunça era grande na sala. Ligou a televisão com uma pulga atrás da orelha. Sob a mesa de centro, copos sujos exalavam o cheiro azedo de cerveja e vinho. Alguns copos amarelados e outros roxos. Duas garrafas de vinho estavam vazias e seis latas de cervejas estavam  amassadas. Amassá-las quando o precioso líquido acabava era uma mania que tinha.

O programa de televisão começou, trazendo notícias do passado, mas Marco não prestou atenção. Ele estava mais preocupado em reconstruir os eventos do dia anterior.

Não sentia a famosa dor de cabeça de suas bebedeiras, mas seu estômago reclamava e queimava, era um sinal que havia abusado da bebida na noite anterior.

Refletiu fitando as garrafas. Seis latas era uma quantidade boa para ele, para sentir o brilho que o álcool lhe causava, mas também não era tanto para levá-lo ao extremo e gerar esse esquecimento todo. A única lógica era que alguém bebera com ele durante a noite passada.

Mas quem? Não lembro de nada!

Imagens da noite passada vinham à sua mente. Copos de cerveja, um filme de comédia e muita risada. Entretanto, a pessoa que bebeu o vinho não estava em sua memória.

Impaciente, começou a bater os dedos em um pote de plástico que estava vazio. Fitava a porta do banheiro esperando que alguém saísse de lá para descobrir quem era.

Sua mente se dividia entre esperar e tentar lembrar, mas falhou em ambas. Ouviu os pássaros cantarem em seu jardim, uma descarga sendo ativada no banheiro, sentiu um cheiro de café vindo de algum lugar e, quando não aguentou mais, correu até a porta do banheiro e tentou forçá-la.

Marco esperou forçar a porta para, de maneira acidental, quem estivesse lá dentro falasse algo. Entretanto, quando empurrou a porta, ela abriu com facilidade.

E para sua surpresa, o banheiro estava vazio.

Andou silenciosamente pelo banheiro, procurando por algo. Algum sinal. Olhou no espelho e enxergou seu semblante sério e sonolento. Seus cabelos negros desgrenhados e seus olhos escuros com olheiras profundas.

Por trás de si, entre as cortinas da banheira, um vulto cruzou de um lado paro outro.

O primeiro sentimento foi de um profundo arrepio. Quem é que estava ali? Era muito silencioso. Mas depois relaxou, afinal, logo resolveria seu enigma. Então, afastou as cortinas e encontrou a banheira vazia.

Ninguém estava ali.

Agora um pouco mais aflito, correu pelos cômodos da casa procurando por alguém. Foi para o escritório… Vazio. Sala… Vazia. Jardim… ninguém estava lá, além dos pássaros. Quarto… Vazio.

Andou pelo quarto acreditando encontrar alguma peça de roupa ou alguma outra coisa, como telefone, bolsa, brinco. Qualquer sinal de alguém. Marco teria desistido naquele momento e acreditado que ele havia tomado as duas garrafas de vinho, entretanto, algo o proibiu de seguir essa linha de raciocínio. Durante o tempo que foi para a sala, percorrendo a casa em busca de um ser desconhecido, alguém entrou ali e arrumou a cama rapidamente.

Marco estava surpreso com o estado do quarto. Lembrava que há poucos minutos estava ali, em uma eterna bagunça. Agora sua cama estava arrumada e a coberta lisíssima esticada em algo que parecia uma superfície perfeitamente plana. A outra janela estava aberta e as cortinas gentilmente amarradas, enfeitando o quarto como jamais seria capaz de fazer.

Foi nesse momento que seu peito encheu de desespero. Respirou fundo e tentou se acalmar. Talvez devesse, mais uma vez, tentar esquecer isso tudo e seguir em frente. Talvez tivesse um lapso de memória, ainda abalado pela bebedeira da noite passada, afinal, se ele bebeu seis latas de cerveja e duas garrafas de vinho, seu corpo realmente estaria implorando por descanso.

Voltou para a sala e quando andava pelo corredor, sentiu o cheiro de café se tornar mais intenso. Sob a mesa de jantar, a térmica estava fechada com uma xícara ao seu lado. O cheiro era muito mais forte ali.

A paranoia de Marco foi para o espaço. Voltou a olhar em todos os cantos, procurando por um vestígio e para piorar, agora a mesa de centro estava limpa. Não conseguia ver as garrafas e latas, mas os copos sujos estavam dentro da pia, esperando para serem lavados.

Quase que em modo automático, lavou os copos e os colocou no escorredor. Seu sensor, de que algo estava errado, estava ligado a todo o momento. Quando terminou, secou as mãos, pegou a xícara de café, a encheu e andou para o jardim, que ficava na parte de trás de casa.

Respirou fundo e deu um gole no café. Marco gostava do jardim porque ali se sentia bem. E como não trabalharia naquele dia, talvez fosse uma boa cuidar das flores ou plantar alfaces.

Enquanto sorvia o líquido negro, seu telefone vibrou em seu bolso. Pegou rapidamente e leu a mensagem.

— Onde vocês está, Marcão!? Estou há meia hora te esperando.

Correu o dedo pela tela para ver as conversas anteriores e então lembrou o porquê de ter colocado o telefone para despertar. Precisaria encontrar seu amigo, Ângelo, ainda cedo.

Marco viu aquilo como uma chance de se livrar do mal que lhe assolava dentro de sua própria casa. Jogou a xícara na grama, esparramado o resto de café desapareceu.

***

Adriano se balançava de um lado para o outro, colado ao corpo de uma linda mulher. Sentia o cheiro dela e lhe faltava ar. A tocava e seu coração entrava em combustão.

Sua mente fantasiosa imaginava-se abraçando uma fada, pois era assim que conseguia descrever sua beleza. Estava tão fascinado por aquela mulher que sua pele parecia brilhar. Carregar seu peso durante a dança era como se ela voasse entre seus braços enquanto seus cabelos voavam com o vento.

Foi então que seus olhos se cruzaram mais uma vez, os rostos congelaram quando os narizes se tocaram. Seus olhos brilhavam como fogo, o qual entrava em seu peito e fazia seu coração arder ainda mais.

Petrificou perante aquele olhar. Em sua visão periférica, a via sorrir. Ela também o desejava como ele a desejava. Então, os lábios se tocaram e seu peito explodiu.

Adriano acordou segurando o próprio vômito. A dor em seu tórax era enorme. Usou a mão para tapar a boca, como se pudesse impedir o que vinha. Como um corisco, correu até o banheiro e deixou a natureza de seu estômago fazer o trabalho, colocando toda sua bile para fora com os restos da bebedeira da noite passada.

Abaixado na privada em uma posição humilhante, esperou o peito se acalmar enquanto observava a si mesmo no reflexo da água que empoçava no fundo do aparato. Desejou não ter bebido na noite passada. Praguejou quando lembrou que bebeu duas garrafas de vinho e essa quantidade — que era sim demais, mas — não era suficiente para lhe fazer tanto mal.

Quando sentiu que seu estômago tinha estabilizado, puxou a descarga e lavou o rosto. Aos poucos, o corpo recobrou suas funções e a sede tomou conta de si. Bebeu água da própria pia, sentiu o gosto do cloro e do ferros dos encanamentos da velha casa em que vivia.

Um pouco mais animado, deixou o banheiro e, em uma rápida passada pela cozinha, colocou a água para esquentar. Depois disso, voltou para o quarto, onde começou a organização.

Arrumou todas as roupas jogadas. Dentre elas, encontrou uma cueca que não reconheceu. Uma daquelas que ficam no fundo da gaveta e, de tempos em tempos, aparecem por aí. Jogou todas as roupas para dentro do armário, não se importando mais com a organização.

Arrumou a cama, pensando em como era bom ter uma cama de casal para dormir sozinho. Podia dormir dos dois lados, apesar de gostar muito do direito. Por um instante parou para pensar no porquê o lado esquerdo sempre estava bagunçado, mas ignorou esse pensamento, era irrelevante naquele momento.

Deixou a sua cama impecável e abriu as janelas da casa. Notou também que dormira com uma das janelas abertas, mas também ignorou isso. Era coisa do passado. Arrumou as cortinas e abriu a última janela.

Estou pronto para meu dia!

De volta para a cozinha, começou a arrumá-la, pois se ia passar um dia bem, iria passar com limpeza. Jogou as garrafas de vinho fora e as seis latas de cerveja, que também estranhou ao pegá-las. Não costumava tomar cerveja, mas isso explicou o estômago destruído naquela manhã. Também jogou um pote de iogurte fora e o restante na pia para lavar depois do café.

E por falar em café, a chaleira chiou e iniciou o lento processo de pôr a água no pó e esperar ele escorrer para a garrafa. Quando completou, fechou a térmica e a deixou sob a mesa com uma xícara, que usaria em seguida.

Sentiu o cheiro do café tomar conta do ambiente e de seu ser. Andou até a geladeira para pegar comida, quando sentiu um forte cheiro.

Olhou dentro do lixeiro que tinha acabado de abrir para pôr as garrafas e cheirou.

Adriano quase teve que voltar para o banheiro para vomitar, mas controlou-se. Trancando sua respiração, abriu o lixeiro mais uma vez e espiou.

Ficou mais perplexo do que enojado. Encontrou lá diversos bilhetes rasgados, peças de lego, o aro de um caderno de anotações, pedaços de carne assada e uma maionese cheia de pedaços de legumes, que devia envolver batata, pepinos, cenoura e cebola.

Churrasco?

Sem pensar muito, amarrou o lixo, tirou do lixeiro e correu para fora.

Andou pelo pequeno caminho de pedra que dava da porta da frente até o portão da casa. Deixou o lixo no lixão e voltou, só então identificou um carro preto, com a janela do caroneiro aberto. Um motorista aguardava, olhando para a casa.

Adriano abanou de leve para o homem e ele retribuiu. Até pensou que o homem tentava lhe chamar, mas como não o conhecia, ignorou.

Outra vez, dentro de casa, sentou-se para beber seu café e percebeu, que a xícara não estava mais ali como deixou. Levantou-se para pegar outra, quando percebeu um vulto no jardim, atrás de casa.

Andou passo a passo, observando aquela silhueta negra parada ali, sob a grama que cultivava atrás de casa. Em um piscar de olhos, que foi o tempo de abrir a cortina para espiar, não havia mais ninguém lá.

Andou até o local, com uma certa insegurança tomando conta de seu ser. Onde antes estava aquela sombra esguia e sinistra, agora estava sua xícara, ainda com restos de café.

Pegou a xícara e olhou para os lados, mas não encontrou ninguém lá, apenas os pássaros.

Ainda sentindo um frio na espinha, ficou ali, paralisado, sob a luz do sol.

***

Marco contornou a casa tão rápido quanto uma raposa, abriu o portão e sentou no caroneiro do carro de Ângelo. Ficou congelado e observando o amigo pela visão periférica.

— Tudo certo? — perguntou o motorista.

— Sim, bebi demais.

O outro gargalhou.

— Certo, quero ver você correr o que você me prometeu ontem. Podemos ir?

— Sim.

O motorista acelerou e partiram para seu destino. Ângelo ligou o rádio e tocou uma música popular. Depois fechou os vidro e ligou o ar condicionado.

— Então, quem é o rapaz que está morando contigo?

— Comigo!? — perguntou Marco, assustado. — Ninguém, ué!

Ângelo também se assustou e deu um pequeno salto no banco.

— É que eu vi um rapaz na sua casa. Ele saiu e entrou.

— Foi no lixo?

— Sim.

— Então você deve ter confundido com o Adriano. Ele vem pegar restos do meu jardim para fazer adubo.

— Certo — comentou Ângelo, não satisfeito. — Tive a impressão de vê-lo entrar pela porta…

— Impressão sua. Moro sozinho há quase um ano. Você sabe disso.

— É sei…

Ângelo ainda não estava satisfeito, mas seguiram para seu destino.


Liberdade de Expressão

Nos últimos anos, o entendimento do que é “Liberdade de Expressão” vem sendo deturpado, ao ponto de que muitos não conseguem mais explicá-lo de maneira fácil.

Todos nós, Brasileiros, que acompanhamos a política, podemos ver esse assunto fervilhando na crise atual, entretanto, eu vos convido a destacar esse assunto da atual conjectura e pensar um pouco sobre o verdadeiro significado de “Liberdade de Expressão”.

Basicamente, estamos tratando de um composto entre Liberdade e Expressão. “Expressão” é originado em nossa capacidade de se expressar. Falar algo, escrever, tornar público. Até aí, tudo bem. Acredito que não haja muitas dúvidas em relação a essa palavra.

Entretanto, é em “Liberdade” que eu acredito que mora a maior confusão. Liberdade nos dá uma sensação de que, “se somos livres, tudo podemos”. E é aí que mora o erro. Tratamos a liberdade como se fosse algo universal. Nosso direito primordial.

Uma fácil comparação seria pensar no dia a dia:

“Somos livres para ter uma arma e assassinar alguém a nosso bel-prazer?”.

“Somos livres para andar a duzentos quilômetros por hora com nosso carro, porque confiamos em nós mesmo em detrimento da segurança dos outros? E se adicionarmos álcool?”

Estes exemplos nos mostram uma coisa: a liberdade é garantida por um conjunto de regras, dada por um grupo maior.

O que quero dizer é que, por exemplo, o estado chega e fala: você é livre, mas tem que pagar os impostos.

Neste caso, não somos livres para “não pagar impostos”. A liberdade tem limites.

Depois vem o convívio social. Somos livres, mas matar/roubar é feio. Existe aí um conjunto de regras que nos fazer viver com os outros, e que sem eles, seríamos puros animais.

E ainda vos convido a levar esse conceito ainda mais longe. Vamos pensar na natureza. O homem pode respirar em lugar sem oxigênio? Podemos dividir o átomo? Podemos voar? A resposta seria “sim, desde que com devidos equipamentos”, ou seja, essa é a natureza, nos impondo regras. Podemos ser criativos e buscar caminhos alternativos, mas as regras em si, elas não podem ser quebradas.

Voltando à liberdade de expressão, podemos pensar que: somos livres para se expressar, dada um conjunto de regras.

Regras das quais, podemos perceber que há muita gente por aí quebrando-as, sem dó e nem piedade.