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Você já deve ter ouvido o termo “O Tribunal do Twitter”, certo?

Hoje, esse tribunal, é o maior responsável por julgar quem está certo ou não nas redes sociais. Um tribunal formado por pessoas de qualquer tipo, de qualquer opinião, gênero, cor, etnia, e etc.

Um processo neste tribunal, acontece mais ou menos da seguinte maneira:

1. Uma pessoa “famosa” é exposta por algo errado que ela cometeu. As provas são apresentadas através ou de prints de telas, fotos, vídeos ou links para outras mídias (jornais e afins).

2. Um grupo de pessoas, que não são famosos, mas são influentes (40 mil seguidores ou mais) entram em ação. Eles postam em suas redes sociais algo como: “E aí galera! Vamos cancelar o X pelo assédio que ele realizou?”

3. A mensagem desse influente permeia todos os seus seguidores. As marcações com @ e # atingem um grupo ainda maior de pessoas. Os seguidores compartilham as provas digitais do crime e logo, meio milhão de pessoas podem estar bloqueando o “criminoso”.

4. Banido de todas essas redes sociais, todas essas pessoas nunca mais verão os posts daquele famoso. Ele perde visibilidade, e anos depois, a pessoas que bloquearam não precisam mais se preocupar, afinal, o bloqueio é para sempre.

5. A pessoa famosa está: cancelada.


Olhando por esse processo, parece interessante. Os famosos que cometeram algum crime são bloqueados por um conjunto grande de pessoas e jamais poderão se pronunciar novamente.

Mas eu vejo um certo perigo nesse processo. Antes de avançar, recomendo a leitura do meu artigo sobre linchamentos[1]. Pois, o que vejo acontecendo aí, nesse “O Tribunal do Twitter”, é nada mais e nada menos do que um linchamento virtual.

Nesse evento, uma pessoa grita: olha ali o estuprador!!! Depois disso, uma centena de pessoas que nem sabem se é verdade ou mentira entram na brincadeira. Logo, essa pessoa está banida da sociedade (nesse caso, da sociedade virtual).

Vamos para algumas observações:

O caso em que deu certo: Blogueirinha Y acusa Vegano Z de ter assediado ela. Ela anuncia o evento, mostra prints e vídeos. Logo toda a rede social está bloqueando o perfil do Vegano Z.

Tempo passa e novas pessoas entram na internet. Essas pessoas podem gostar ou não do Vegano Z. Se elas lerem a notícia do que aconteceu, pode ser que essas novas pessoas sigam esse rapaz novamente ou não.

Um caso a se pensar: Ana456 está um dia navegando em suas redes e encontra uma postagem de 10 anos atrás de Zézinho56. Essa postagem mostra uma piada feita com animais. Ana456 fica irada com o que leu e inicia o processo de cancelamento de Zézinho56.

E assim como o “É o Tchan!” e o “Gugu Liberato” mostravam nos anos 90 coisas que não deveriam estar na televisão na frente de crianças, o tempo mudou para Zézinho56 nesses 10 anos, e nada que ele faça apaga seu passado.

Um caso mais complicado: esse caso é bem simples. Um cancelamento se inicia porque uma pessoa famosa teria assassinado outra pessoa a sangue frio e a lei não estava fazendo seu papel em prender esse assassino.

O perfil acusador surge com vídeos pegos de câmeras de segurança e fotos do assassino executando sua vil tarefa. O cancelamento é realizado. A pessoa famosa desaparece da internet por anos.

Depois de um tempo, a lei investiga e prova que o acusado era inocente. Não era ele no vídeo e nas imagens. Inclusive, ele tinha um álibi, estando viajando para a Europa no dia do crime.

Livre das acusações, essa pessoa tenta voltar à sua vida normal. Mas o “O Tribunal do Twitter” não esquece. Essa pessoa já está bloqueada e jamais será desbloqueada. Sua voz não será ouvida pelas pessoas que o acusaram injustamente.

E pior, a reputação dessa pessoas poderá estar tão marcada, que agora, ela jamais conseguirá voltar à sua vida normal. Ela terá que encontrar outro caminho.


Nestes três casos, tentei abordar algumas possibilidades. Desde quando o cancelado é culpado de realizar algo ruim, quanto quando alguém é cancelado injustamente.

E assim são os linchamentos [2]: há um clamor popular por justiça, e essas pessoas acabam a fazendo com suas próprias mãos, estando certas ou erradas, em muitos casos, levando o linchado à morte.

Certas vezes, os linchadores estão tão sedentos de justiça que sequer querem saber se o linchado é o criminoso ou não. Agredir alguém parece a solução.

A verdade é que o cancelamento está trazendo a tona uma coisa do passado. O Talião virtual. O velho “Olho por olho, dente por dente”. A ideia de que a lei da reciprocidade é a que vale, mais do que qualquer outra lei.

O grupo que resolve linchar alguém se considera capaz de Julgar e Executar a pena. Será mesmo?

E quem julga errado, paga pelo erro depois? Digo, no velho “olho por olho, dente por dente”? Qual é o preço que você deve pagar por cancelar alguém injustamente? Por linchar alguém?


Por essas coisas, eu sempre aconselho quando posso: se você viu algo errado, leve à lei e deixe ela julgar.

Depois que ela julgar, a deixe punir.

Depois disso tudo, um simples unfollow no perfil social do criminoso faria seu trabalho. Dependendo do crime, é natural que as pessoas deixem de seguir ou tomem ações mais pesadas.

Eu também sempre tento observar as coisas pelo caminho da empatia. Acredito que erros possam ser reparados e pessoas possam melhorar. Mesmo que alguém faça algo que eu jamais volte a olhar para aquela pessoa, e mesmo que seja muito difícil perdoar, não posso eu, um integrante da sociedade, excluir outro por simples belprazer.

Oposto à lei do Talião, existe outro dizer popular bem interessante: “Não faça aos outros, aquilo que não quer para você”.


Referências:

[1]. O mundo e os linchamentos: D. R. Laucsen

[2]. Quando “pessoas de bem” matam: um estudo sociológico sobre os linchamentos: Danielle Rodrigues de Oliveira