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Marco acordou podre. Rolou na cama durante horas, desligou o despertador diversas vezes e só quando as costas começaram a doer que sentou na lateral da cama, esperando o corpo reagir e a mente entender que era hora de levantar.

Levantou-se e respirou fundo, sentindo o cheiro de ácido no ar, resultado de uma noitada acompanhada de garrafas e garrafas de vinho.

Achei que tivesse bebido cerveja.

Afastou a cortina e abriu a janela para deixar o ar circular. A luz iluminou o quarto, o forte sol bateu sob a cama e começou a esquentar o tecido e a pulverizar os mofos que ali tentavam crescer durante a noite.

Marco dormia em uma cama de casal, sempre do lado esquerdo. O outro lado era para as gatinhas convidadas que passavam a noite ali. E naquele lado, a marca de um corpo se estendia pela cama, mas sem um corpo sequer.

A festa foi tão grande assim?

Marco vestiu-se e deixou o quarto. A mão esquerda correu de maneira automática até o trinco da porta do banheiro, mas algo em sua mente o avisou. Talvez ele estivesse em uso. Então ignorou e foi para a cozinha, onde abriu a geladeira, pegou um pote de iogurte e sentou-se em frente a televisão.

A bagunça era grande na sala. Ligou a televisão com uma pulga atrás da orelha. Sob a mesa de centro, copos sujos exalavam o cheiro azedo de cerveja e vinho. Alguns copos amarelados e outros roxos. Duas garrafas de vinho estavam vazias e seis latas de cervejas estavam  amassadas. Amassá-las quando o precioso líquido acabava era uma mania que tinha.

O programa de televisão começou, trazendo notícias do passado, mas Marco não prestou atenção. Ele estava mais preocupado em reconstruir os eventos do dia anterior.

Não sentia a famosa dor de cabeça de suas bebedeiras, mas seu estômago reclamava e queimava, era um sinal que havia abusado da bebida na noite anterior.

Refletiu fitando as garrafas. Seis latas era uma quantidade boa para ele, para sentir o brilho que o álcool lhe causava, mas também não era tanto para levá-lo ao extremo e gerar esse esquecimento todo. A única lógica era que alguém bebera com ele durante a noite passada.

Mas quem? Não lembro de nada!

Imagens da noite passada vinham à sua mente. Copos de cerveja, um filme de comédia e muita risada. Entretanto, a pessoa que bebeu o vinho não estava em sua memória.

Impaciente, começou a bater os dedos em um pote de plástico que estava vazio. Fitava a porta do banheiro esperando que alguém saísse de lá para descobrir quem era.

Sua mente se dividia entre esperar e tentar lembrar, mas falhou em ambas. Ouviu os pássaros cantarem em seu jardim, uma descarga sendo ativada no banheiro, sentiu um cheiro de café vindo de algum lugar e, quando não aguentou mais, correu até a porta do banheiro e tentou forçá-la.

Marco esperou forçar a porta para, de maneira acidental, quem estivesse lá dentro falasse algo. Entretanto, quando empurrou a porta, ela abriu com facilidade.

E para sua surpresa, o banheiro estava vazio.

Andou silenciosamente pelo banheiro, procurando por algo. Algum sinal. Olhou no espelho e enxergou seu semblante sério e sonolento. Seus cabelos negros desgrenhados e seus olhos escuros com olheiras profundas.

Por trás de si, entre as cortinas da banheira, um vulto cruzou de um lado paro outro.

O primeiro sentimento foi de um profundo arrepio. Quem é que estava ali? Era muito silencioso. Mas depois relaxou, afinal, logo resolveria seu enigma. Então, afastou as cortinas e encontrou a banheira vazia.

Ninguém estava ali.

Agora um pouco mais aflito, correu pelos cômodos da casa procurando por alguém. Foi para o escritório… Vazio. Sala… Vazia. Jardim… ninguém estava lá, além dos pássaros. Quarto… Vazio.

Andou pelo quarto acreditando encontrar alguma peça de roupa ou alguma outra coisa, como telefone, bolsa, brinco. Qualquer sinal de alguém. Marco teria desistido naquele momento e acreditado que ele havia tomado as duas garrafas de vinho, entretanto, algo o proibiu de seguir essa linha de raciocínio. Durante o tempo que foi para a sala, percorrendo a casa em busca de um ser desconhecido, alguém entrou ali e arrumou a cama rapidamente.

Marco estava surpreso com o estado do quarto. Lembrava que há poucos minutos estava ali, em uma eterna bagunça. Agora sua cama estava arrumada e a coberta lisíssima esticada em algo que parecia uma superfície perfeitamente plana. A outra janela estava aberta e as cortinas gentilmente amarradas, enfeitando o quarto como jamais seria capaz de fazer.

Foi nesse momento que seu peito encheu de desespero. Respirou fundo e tentou se acalmar. Talvez devesse, mais uma vez, tentar esquecer isso tudo e seguir em frente. Talvez tivesse um lapso de memória, ainda abalado pela bebedeira da noite passada, afinal, se ele bebeu seis latas de cerveja e duas garrafas de vinho, seu corpo realmente estaria implorando por descanso.

Voltou para a sala e quando andava pelo corredor, sentiu o cheiro de café se tornar mais intenso. Sob a mesa de jantar, a térmica estava fechada com uma xícara ao seu lado. O cheiro era muito mais forte ali.

A paranoia de Marco foi para o espaço. Voltou a olhar em todos os cantos, procurando por um vestígio e para piorar, agora a mesa de centro estava limpa. Não conseguia ver as garrafas e latas, mas os copos sujos estavam dentro da pia, esperando para serem lavados.

Quase que em modo automático, lavou os copos e os colocou no escorredor. Seu sensor, de que algo estava errado, estava ligado a todo o momento. Quando terminou, secou as mãos, pegou a xícara de café, a encheu e andou para o jardim, que ficava na parte de trás de casa.

Respirou fundo e deu um gole no café. Marco gostava do jardim porque ali se sentia bem. E como não trabalharia naquele dia, talvez fosse uma boa cuidar das flores ou plantar alfaces.

Enquanto sorvia o líquido negro, seu telefone vibrou em seu bolso. Pegou rapidamente e leu a mensagem.

— Onde vocês está, Marcão!? Estou há meia hora te esperando.

Correu o dedo pela tela para ver as conversas anteriores e então lembrou o porquê de ter colocado o telefone para despertar. Precisaria encontrar seu amigo, Ângelo, ainda cedo.

Marco viu aquilo como uma chance de se livrar do mal que lhe assolava dentro de sua própria casa. Jogou a xícara na grama, esparramado o resto de café desapareceu.

***

Adriano se balançava de um lado para o outro, colado ao corpo de uma linda mulher. Sentia o cheiro dela e lhe faltava ar. A tocava e seu coração entrava em combustão.

Sua mente fantasiosa imaginava-se abraçando uma fada, pois era assim que conseguia descrever sua beleza. Estava tão fascinado por aquela mulher que sua pele parecia brilhar. Carregar seu peso durante a dança era como se ela voasse entre seus braços enquanto seus cabelos voavam com o vento.

Foi então que seus olhos se cruzaram mais uma vez, os rostos congelaram quando os narizes se tocaram. Seus olhos brilhavam como fogo, o qual entrava em seu peito e fazia seu coração arder ainda mais.

Petrificou perante aquele olhar. Em sua visão periférica, a via sorrir. Ela também o desejava como ele a desejava. Então, os lábios se tocaram e seu peito explodiu.

Adriano acordou segurando o próprio vômito. A dor em seu tórax era enorme. Usou a mão para tapar a boca, como se pudesse impedir o que vinha. Como um corisco, correu até o banheiro e deixou a natureza de seu estômago fazer o trabalho, colocando toda sua bile para fora com os restos da bebedeira da noite passada.

Abaixado na privada em uma posição humilhante, esperou o peito se acalmar enquanto observava a si mesmo no reflexo da água que empoçava no fundo do aparato. Desejou não ter bebido na noite passada. Praguejou quando lembrou que bebeu duas garrafas de vinho e essa quantidade — que era sim demais, mas — não era suficiente para lhe fazer tanto mal.

Quando sentiu que seu estômago tinha estabilizado, puxou a descarga e lavou o rosto. Aos poucos, o corpo recobrou suas funções e a sede tomou conta de si. Bebeu água da própria pia, sentiu o gosto do cloro e do ferros dos encanamentos da velha casa em que vivia.

Um pouco mais animado, deixou o banheiro e, em uma rápida passada pela cozinha, colocou a água para esquentar. Depois disso, voltou para o quarto, onde começou a organização.

Arrumou todas as roupas jogadas. Dentre elas, encontrou uma cueca que não reconheceu. Uma daquelas que ficam no fundo da gaveta e, de tempos em tempos, aparecem por aí. Jogou todas as roupas para dentro do armário, não se importando mais com a organização.

Arrumou a cama, pensando em como era bom ter uma cama de casal para dormir sozinho. Podia dormir dos dois lados, apesar de gostar muito do direito. Por um instante parou para pensar no porquê o lado esquerdo sempre estava bagunçado, mas ignorou esse pensamento, era irrelevante naquele momento.

Deixou a sua cama impecável e abriu as janelas da casa. Notou também que dormira com uma das janelas abertas, mas também ignorou isso. Era coisa do passado. Arrumou as cortinas e abriu a última janela.

Estou pronto para meu dia!

De volta para a cozinha, começou a arrumá-la, pois se ia passar um dia bem, iria passar com limpeza. Jogou as garrafas de vinho fora e as seis latas de cerveja, que também estranhou ao pegá-las. Não costumava tomar cerveja, mas isso explicou o estômago destruído naquela manhã. Também jogou um pote de iogurte fora e o restante na pia para lavar depois do café.

E por falar em café, a chaleira chiou e iniciou o lento processo de pôr a água no pó e esperar ele escorrer para a garrafa. Quando completou, fechou a térmica e a deixou sob a mesa com uma xícara, que usaria em seguida.

Sentiu o cheiro do café tomar conta do ambiente e de seu ser. Andou até a geladeira para pegar comida, quando sentiu um forte cheiro.

Olhou dentro do lixeiro que tinha acabado de abrir para pôr as garrafas e cheirou.

Adriano quase teve que voltar para o banheiro para vomitar, mas controlou-se. Trancando sua respiração, abriu o lixeiro mais uma vez e espiou.

Ficou mais perplexo do que enojado. Encontrou lá diversos bilhetes rasgados, peças de lego, o aro de um caderno de anotações, pedaços de carne assada e uma maionese cheia de pedaços de legumes, que devia envolver batata, pepinos, cenoura e cebola.

Churrasco?

Sem pensar muito, amarrou o lixo, tirou do lixeiro e correu para fora.

Andou pelo pequeno caminho de pedra que dava da porta da frente até o portão da casa. Deixou o lixo no lixão e voltou, só então identificou um carro preto, com a janela do caroneiro aberto. Um motorista aguardava, olhando para a casa.

Adriano abanou de leve para o homem e ele retribuiu. Até pensou que o homem tentava lhe chamar, mas como não o conhecia, ignorou.

Outra vez, dentro de casa, sentou-se para beber seu café e percebeu, que a xícara não estava mais ali como deixou. Levantou-se para pegar outra, quando percebeu um vulto no jardim, atrás de casa.

Andou passo a passo, observando aquela silhueta negra parada ali, sob a grama que cultivava atrás de casa. Em um piscar de olhos, que foi o tempo de abrir a cortina para espiar, não havia mais ninguém lá.

Andou até o local, com uma certa insegurança tomando conta de seu ser. Onde antes estava aquela sombra esguia e sinistra, agora estava sua xícara, ainda com restos de café.

Pegou a xícara e olhou para os lados, mas não encontrou ninguém lá, apenas os pássaros.

Ainda sentindo um frio na espinha, ficou ali, paralisado, sob a luz do sol.

***

Marco contornou a casa tão rápido quanto uma raposa, abriu o portão e sentou no caroneiro do carro de Ângelo. Ficou congelado e observando o amigo pela visão periférica.

— Tudo certo? — perguntou o motorista.

— Sim, bebi demais.

O outro gargalhou.

— Certo, quero ver você correr o que você me prometeu ontem. Podemos ir?

— Sim.

O motorista acelerou e partiram para seu destino. Ângelo ligou o rádio e tocou uma música popular. Depois fechou os vidro e ligou o ar condicionado.

— Então, quem é o rapaz que está morando contigo?

— Comigo!? — perguntou Marco, assustado. — Ninguém, ué!

Ângelo também se assustou e deu um pequeno salto no banco.

— É que eu vi um rapaz na sua casa. Ele saiu e entrou.

— Foi no lixo?

— Sim.

— Então você deve ter confundido com o Adriano. Ele vem pegar restos do meu jardim para fazer adubo.

— Certo — comentou Ângelo, não satisfeito. — Tive a impressão de vê-lo entrar pela porta…

— Impressão sua. Moro sozinho há quase um ano. Você sabe disso.

— É sei…

Ângelo ainda não estava satisfeito, mas seguiram para seu destino.