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O ano é 2050 e o mundo é engolido pelo capitalismo. O stress que o ser humano passa no dia a dia é evidente nas mesas de bar, encontros sociais e festas. Uma manada de pessoas vivem em seus cabrestos durante a semana, para depois ter dois dias de folga. Vão ao cinema, bebem em uma discoteca no sábado e ficam com a família no domingo assistindo televisão.

O mercado anda agitado. O mundo transborda em tecnologia. Há novas invenções para tudo. Para comidas, eletrodomésticos, carros e mais tudo que se possa imaginar. Aos poucos, a era das startups chega ao seu fim. É cada vez mais difícil para um pequeno empreendedor conseguir dinheiro para pôr suas ideias em prática.

As pequenas organizações de outrora cresceram, ocupando todos os nichos do mercado. Novas empresas são massacradas pelo poder das maiores. Apenas os negócios muito inovadores conseguem algum respiro para seguir em frente.

Os funcionários dessas empresas é que são as verdadeiras máquinas, não mais os empreendedores e suas propostas disruptivas. Os trabalhadores passam horas e dias trabalhando. As tais leis trabalhistas já não existem mais e as pessoas são exploradas como simples recursos.

A verdade é que não existe mais planejamento e preparo. Tudo é feito em velocidade máxima. Todas as empresas estão com seus projetos atrasados e desorganizados. Os funcionários estão em seus ritmos enlouquecidos, afinal, não há lugar para o comum. Você tem que ser diferente! Trabalhar doze horas por dia, ainda mais em finais de semana, coloca você em bons trabalhos, caso contrário, apenas a fome lhe fará companhia.

E é nesse mundo caótico e frenético que nosso amigo, pai e cozinheiro, mantém o seu negócio.

Enquanto todos comiam suas rações, pequenas refeições rápidas e ultraprocessadas para não perderem tempo, Glauber seguia com sua lanchonete: Verdinhos & Deliciosos.

O crescimento populacional fez com que o número de lanchonetes aumentasse. Isso não atrapalhou o negócio de Glauber, afinal, mais bocas precisavam ser alimentadas.

E o que o Verdinhos & Deliciosos tinha de diferente era algo que estava em seu nome e em sua cultura. Alimentos vivos, naturais e benéficos eram o diferencial para as pessoas.

Em um mundo onde o tempo é escasso e cada segundo parece influenciar o salário no fim do mês, pessoas seguem seu ritmo como zumbis. São poucas as pessoas que não tenham desenvolvido algum problema devido à má alimentação. Dentre eles, problemas de pele, articulações, gastrites, diverticulites, problemas cardíacos, ansiedade e depressão.

Os problemas do homem parecem ser os mesmos de sempre, mas hoje, corpos podem ser encontrados em esquinas quando os corações deixam de funcionar. Antes as peles eram estampadas com tatuagens e belas imagens. Hoje, melasmas, psoríase e dermatites são marcas comuns estampadas no corpo das pessoas. Trabalhadores também perdem dias de trabalho por causa de disfunções intestinais, pondo seus próprios trabalhos em risco. Outros enfiam-se em suas casas, escondendo-se do mundo, agravando ainda mais seus problemas mentais.

Assim como a ciência ajudou às pessoas a nascer e viver por mais tempo, de modo antagônico, o capitalismo se expandiu e começou a eliminar a população, de maneira grotesca, transformando a vida humana em um eterno inferno, que deixaria Dante Alighieri orgulhoso em ver sua obra-prima ser a realidade dessa sociedade.

E o governo… bem, o governo parece não se preocupar mais com isso, deixando cada um a mercê de suas próprias habilidades… ou sua própria sorte.

Entretanto algumas pessoas preferem se precaver e se alimentar bem para manter o corpo saudável. E são restaurantes como a Verdinhos & Deliciosos que essas pessoas buscam para suas refeições.

Neste cenário, era de se imaginar que Glauber e sua família tinham uma ótima vida neste mundo, já que vivam em um verdadeiro turbilhão de caos.

As coisas não vão bem disse Glauber para seu filho, depois de fechar a porta do restaurante e sentar em uma mesa. Precisamos nos preparar para o pior.

Eu gosto daqui, pai disse o rapaz. Sempre imaginei que um dia eu seria o dono do restaurante e criaria meus filhos como você me criou.

André, filho de Glauber, era um jovem de vinte e três anos e cursava gastronomia com a intenção de seguir os negócios do pai pelo resto da vida.

Por isso eu sempre te incentivei a estudar desenvolvimento de software disse Glauber. Parece ter mais futuro.

Aguentaremos mais quantos meses?

Uns quatro, eu acho. Quatro meses sem problemas. Se demitirmos a Diana e a Débora, conseguiremos mais uns dois ou três. Nesse caso, sua mãe terá que nos ajudar por um tempo.

É menos de um ano.

Mas Glauber pensava em apenas uma coisa: por que continuar com algo que já está destinado a desaparecer? Qual o sentido de ficar ali, por mais meio ano, para depois fechar as portas e nunca mais voltar? Era esperança? Fé? Algo aconteceria e resolveria seus problemas?

Decidido a vender o ponto, usar o dinheiro para algo mais lucrativo e tentar se reinventar, Glauber avisou o governo que fecharia em um mês e pendurou a placa de ‘vende-se’ em frente ao seu restaurante.

Em menos de uma semana, receberam uma carta que jamais imaginariam receber.

O governador nos impediu de fechar o restaurante? Glauber perguntou ao oficial que emitiu a nota. Desde quando o governo tem esse poder? Eu preciso desse dinheiro, não posso tocar o meu negócio que está rumo à falência. Melhor investir em criptomoedas ou em outro fundo de investimentos.

Não poderá, Glauber! respondeu o oficial, com paciência. O governo, em uma nova iniciativa, classificou seu negócio como vital para o funcionamento da sociedade nesses tempos caóticos. Talvez você não esteja acostumado com isso, mas esse procedimento já é bem comum há alguns anos em outras áreas. Você pode tentar vender o negócio, mas quem comprar deve se responsabilizar em manter o negócio operante. Se alguém comprar, você pode usar o dinheiro, mas não pode parar de operar até lá.

E como vou manter ou vender algo que está falindo? Quem comprar o meu negócio vai comprar pelo lugar, não pelo restaurante em si. Os outros negócios que estão sob essa lei também estão arruinados?

Não que eu saiba. Vou anexar essa nota e você me envia seu balanço. Vamos ver o que o juiz diz.

Glauber fez o balanço completo de seu restaurante e adicionou ao processo. Teve muita esperança em ser liberado, mas o tempo passava e não tinha uma resposta… E, aos poucos, ia ficando sem dinheiro.

Quando o resultado do processo chegou, ele não veio com  liberação, mas sim com a nota de que o Verdinhos & Deliciosos ganharia consultoria do governo para se manter em pé. O consultor seria um famoso profissional da área de investimentos que já ajudou muitas pequenas empresas a se consolidarem. Ele acreditava que poderia ajudar a lanchonete de Glauber a voltar ter lucros.

Relutante, um pouco pela insolência do homem e um pouco por não acreditar no que tinha ouvido, Glauber esperou por mais dois meses, até o dia em que o tal consultor veio lhe fazer uma visita.

Conte-me do seu processo, senhor Glauber disse ele, com um grande sorriso na boca. Um sorriso que aparecia sempre, não só quando ele parecia estar feliz. Será nesses detalhes que poderei lhe ajudar.

Para fazer o suco, eu uso laranja e limão disse em algum momento, já que passou a tarde mostrando seu processo para o consultor. Depois pergunto se o cliente quer açúcar… 

Açúcar mascavo, senhor Glauber?

Sim, é mais saudável.

Não disse ele, tirando pela primeira vez o sorriso do rosto. É mais caro. Fazendo um cálculo rápido, trocando açúcar mascavo por refinado, com todos os sucos que você vende, dá para pagar salário da sua funcionária.

Mas esse não é o propósito do meu negócio.

O propósito do seu negócio é não falir, senhor Glauber. Agora ele sorria mais uma vez, com grandes dentes se projetando entre os lábios. Você pode tirar o limão do suco também. Usar massa branca na empanada e reduzir o recheio. Acho que dá para pagar a outra assistente.

Depois de uma semana de ajustes e mudanças no processo, o consultor avisou que voltaria em um mês para ver como as coisas estariam.

O tempo passou e Glauber ajustou o processo de acordo com o que o consultor sugeriu.

Pai disse André, pegando um saco de farinha. Essa é a pior farinha que existe.

Mas é o que o consultor mandou comprar. Gastei muito menos comprando essa leva aí.

Mas pai, para você ter ideia, os fermentos nem comem o que tem aqui. O pão nem cresce mais.

Ah, os fermentos. Usaremos o biológico agora, a geladeira onde guardamos os fermentos e as kombuchas gasta energia extra. Menos custo no nosso orçamento.

Em dois meses, o consultor retornou para visitar a lanchonete Verdinhos & Deliciosos e encontrou o negócio em outro ritmo. Um ritmo que poupava mais, gastava menos. Tinha muita comida na prateleira, mas…

Por que não há ninguém comendo aqui? Perguntou o consultor. Aqui é um ótimo ponto.

Assim como os outros respondeu Glauber fechando a porta da lanchonete pela última vez. As pessoas preferem o Hambúrguer MacGuhan do que minha empanada sem gosto.

Glauber jogou as chaves para o consultor, vestiu seu casaco e desapareceu.

De boca aberta, o consultor ficou ali, com a cara pasma olhando para a grande placa pendurada na porta.

FECHADO