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— Majestade — disse um dos homens que se apresentava ao cônsul. — Sou João dear Uda.

— Eu sei quem você é, Sir — retrucou o cônsul, mudando de posição na poltrona. — Você me presenteia com um boi inteiro todo o mês. Quase não dou conta.

O burguês resfolegou dentro de suas roupas elegantes e, depois de um longo gracejo, voltou a falar.

— Nós, os senhores importantes da república, decidimos perguntar — João deu uma olhadela para os outros homens ao seu lado. — O que fazemos agora?

O cônsul olhou para os senhores em sua frente. Ali estavam os nove senhores mais ricos de toda a república. Todos elegantes usando roupas caríssimas, com ornamentos de ouro pendurados nos pescoços e nos braços. O ouro brilhava como o sol quando raiava pela manhã.

Na última contagem, o cônsul estimava cerca de dezessete milhões de pessoas em todo seu território. Metade do ouro que existia estava nas mãos da população, a outra metade nos cofres desses nove senhores.

Era claro que, da parte do povo, ainda havia um percentual do ouro que estaria com uma parcela menor da população e, nesse cálculo divisório, quase metade das pessoas viviam em cidades pobres, sem comida, sem saneamento e ainda próximos à morte.

Além de tudo, depois da Gripe do Morcego, muitos corpos ainda estavam sendo enfileirados nas florestas, esperando por um enterro digno.

O cônsul refletiu um pouco sobre seu estado e sobre os outros líderes eleitos antes dele. Todos governavam pensando em acumular mais ouro e claro, ajudar esses nove homens a serem cada vez mais poderosos. Mesmo antes da epidemia, esses senhores apareceram em seu salão, cobrando atitudes que variavam entre manter tudo funcionando em meio à peste até o uso de dinheiro público para que seus negócios não falissem.

E mesmo depois de tudo, agora, eles estavam ali, mais uma vez pedindo ouro e ajuda.

— O que fazer? — perguntou o cônsul aos ventos, levantou-se de seu trono, dando um tapa em suas pernas. — O que fazer? Vocês irão fazer o que sempre fazem! A crise passou e vocês estão vivos e cheios de dinheiro. Sigam em frente.

— Como posso, senhor? — questionou o outro que, até então, estava apenas ouvindo. — João ainda pode me vender carne para fazer meus sanduíches, mas demiti seiscentas pessoas para manter os restaurantes abertos. Agora, com todas essas mortes, não consigo ninguém para trabalhar para mim. E ninguém para comer!

— E os meus negócios? — falou um homem careca com vestimentas verdes. — Mesmo não demitindo meus funcionários, ninguém mais vai às minhas lojas. Faço uma venda ou outra. Logo terei que demitir meus homens de qualquer forma.

— Senhores — prosseguiu o cônsul, dando as costas aos homens mais poderosos da república. — E eu… que perdi dois milhões de trabalhadores!

— Dois milhões!? — falavam as vozes entre murmúrios. — Mas você é governante, não é empresário como nós. Quem você precisou demitir?

— Não demiti, senhores. Eles morreram. Meus eleitores. Eles morreram.

As palavras do cônsul silenciaram os demais. O regente seguiu com seu drama e se dirigiu até um canto, onde havia uma janela com um vitral. Ali, desenhado entre os pedaços de vidro, um soldado se ajoelhava em frente a um rei, mostrando lealdade. Entretanto, em volta, milhares estavam mortos, com moscas rodeando seus corpos.

— Tentei ir ao seu restaurante, Runir. É esse seu nome? — questionou olhando sobre os ombros. — Mas ele estava fechado. Lembro que no começo disso tudo, eu queria proibir as pessoas de sair na rua e vocês me convenceram pelo contrário. E mesmo assim o comércio fechou, mas com o adicional de mortos por toda parte. Então, vi um jovem através da janela de uma casa. Ele estava fazendo sanduíches, muito parecido com os seus, Runir. Ele me viu e sorriu. Aceitei um, era de graça, mas paguei o preço mesmo assim. Era bom. Não era como o “melhor assado do mundo”… porque realmente era o melhor. Tinha algo ali… era um tempero diferente. Não sei dizer!

O barulho do silêncio dos empreendedores foi ensurdecedor.

— Talvez esse seja o tempo, meus amigos. Tempos de voltar às origens. De dar valor aos que amam o que fazem, e não aos que acumulam dinheiro e exploram os outros apenas para enriquecerem mais ainda. As pessoas não comerão mais o seu sanduíche porque, além de uma pessoa má, a sua comida é péssima. Então, eu digo: façam o que vocês sabem fazer, sigam em frente por si mesmos. Espero, realmente, encontrar uma era onde possamos ser mais humanos.

Aproveitem, porque essa pode ser a sua única oportunidade.

 

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