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Reino de Sundar, também conhecido como o Reino Sublime, vivia a glória de seus tempos. A era de ouro de um povo que lutou durante milênios por segurança e bem-estar.

Ninguém sabe exatamente como eles chegaram lá, afinal de contas, faz muito tempo que “história” não estava mais sendo lecionada nas academias.

— Desnecessário! — gritou o conselheiro, no ato de Aurus, o evento que marcou a ascensão de Sundar. — Desde que tiramos essa disciplina da pauta da alta sociedade, e outras semelhantes também, nosso povo tem crescido com sabedoria. E assim faremos.

E assim foi!

O povo trabalhou, trabalhou, trabalhou… e trabalhou!

Trabalhou para que hoje fosse tudo como é: soberania, segurança, comida na mesa, tecnologia, arte, saúde e tudo mais que qualquer reino pudesse esperar.

A cidade flutuante de Su era um paraíso. Guardas vigiavam a periferia, mas nenhum mal vinha de fora. Dentro da cidade havia a sonhada paz eterna.

Em resumo, uma perfeição!

— Genaro — ecoou a voz do rei no grande salão do palácio. — Prepare meu café da manhã. Hoje quero frutas, chá de pêssego e uma tigela de açaí, sem aquele leite em pó nojento que vocês têm colocado ultimamente.

— Desculpe, meu senhor — disse o governante do palácio, que esperava há horas pelo momento em que seu rei acordasse. — Mas não posso fazer isso que me pedes.

— Como? Pegou o vírus da preguiça também? Aquela gripezinha?

— Não, meu senhor. A questão é que não temos açaí hoje.

— Não temos açaí? Como assim? Nunca vi isso acontecer! Então esqueça o açaí e me traga uma tostada com café.

— Temos café, mas ainda não sei o porquê que, Janaína, a cozinheira, não veio ao trabalho hoje.

O rei franziu sua testa. Sentiu arrepio na alma. Andou até a janela de seu salão e observou seu reino. Lá embaixo, o mundo seguia normalmente. Havia gente andando pelos calçadões e carros voadores levando as pessoas para seus trabalhos. Daquela distância, o silêncio reinava imponente.

“O que está acontecendo?”, pensou. “A comida nunca deixou de chegar a minha mesa.”— Genaro — disse o rei quando seus pensamentos cessaram. — Chame o Conselho das Alucinações Exteriores e diga que quero todos os Mistérios ligados à defesa em minha sala em uma hora.

Entretanto, os conselheiros estavam tão aflitos com o que estava acontecendo que, em menos de meia hora, a reunião já iniciava na sala do conselho.

— A minha torradeira quebrou! — gritava o Conselheiro das Alucinações Exteriores. — E quando fui pegar outra, não haviam mais torradeiras disponíveis.

— Não temos peças para consertar meu carro…

— O vidro da minha casa quebrou…

Isso e aquilo.

— Silêncio! — gritou o rei, interrompendo todos. — Se ninguém sabe o que está acontecendo, precisaremos chamar a pessoa mais informada e…

— Não, meu rei — interpelou um conselheiro. — Ele não!

— Não temos escolha. Precisamos de alguém com alta capacidade investigativa para nos ajudar a entender o que se passa. Precisamos invocar… Edward Blackwald!

E antes que qualquer um da mesa se movesse, um ser vestido com um robe negro surgiu de um canto escuro da sala, com a cara escondida em sombras, dirigindo-se ao grupo através de passos lentos. Ele se aproximou, retirou o capuz revelando sua cara marcada pela guerra, com seus olhos vermelhos faiscando contra os presentes, que tremiam de medo com as verdades que esse homem poderia trazer à tona.

— Lord Edward — disse o rei, gaguejando entre as sílabas. — Entendo nossas diferenças, mas esse momento é crucial. Precisamos de seus serviços. Precisamos que investigue e nos diga o que está acontecendo.

— Eu já tenho algumas informações — disse homem misterioso, de voz arrastada e com um sotaque estranho. — Minha rede de contatos está detectando um padrão incomum nos dados que vem dos Mecanismos de nossa cidade.

— Dos Mecanismos? — disse o Conselheiro das Alucinações Exteriores, dando um tapa na mesa. — Como pode? Nunca tocamos lá! Nunca vamos lá! Como pode existir problemas como este? Aposto que o que você está falando é Mentira!

— Mentira!

— Fake News!!

— Pois ora — comentou Edward, entre as vozes que gritavam. — O que acham de investigarmos isso juntos?

Os Mecanismos eram uma região vital para Su. Chamado de esgotos por toda população, não era só responsável por processar o esgoto da cidade, mas também era de lá que toda a água era purificada e de onde vinham os alimentos. Onde peças fundamentais para o funcionamento da cidade eram projetadas e montadas.

Era o motor da cidade.

Enquanto andaram pelos corredores, Edward explicou para os demais como as coisas funcionavam por lá.

— Existe um modus operandi — dizia Blackwald, que parecia conhecer muito bem daqueles mistérios. — Vocês precisam entender isso. Os Mecanismos são um terreno dividido entre nós e o Povo Debaixo.

— O Povo Debaixo? — perguntou o rei.

— O Povo Debaixo — assentiu o Blackwald. — Eles são o povo que traz os recursos para os Mecanismos. O protocolo dos Mecanismos dizem que as pessoas daqui não podem entrar em contato com o povo de lá. Os de cima com o povo debaixo. Os depósitos são a última fronteira. Eles entram por lá e deixam as coisas. Entramos por aqui e pegamos o que foi deixado. Nós trabalhamos de dia e eles à noite. Nunca temos contato.

O grupo seguiu pelos corredores até encontrar as entradas dos Mecanismos e, depois, até encontrarem os depósitos, onde todos os recursos da cidade deveriam estar.

Lá dentro estava escuro. O interruptor fez um grande estalo e as luzes foram se ligando aos poucos, revelando um gigantesco depósito, vazio, com apenas restos sendo comidos pelos ratos.

Atravessaram o salão até encontrar outra porta, do outro lado. Na porta dizia: proibida entrada do Povo de Cima.

Ignorando a advertência, atravessaram a porta e chegaram a uma grande plataforma. O rei quase morreu de vertigem quando identificou que estavam na plataforma inferior da cidade. Dali, conseguiu ver apenas nuvens, e distante, sob seus pés, a terra, que se expandia a quilômetros sob eles. Lá o sol não brilhava com tanta intensidade e as trevas pareciam estar consumindo aquele lugar.

— O que é isso? — perguntou o rei, exasperado.

Um pouco longe, um trabalhador percebeu a presença dos dois e começou a se distanciar.

— Ei, você! — disse Edward, interrompendo a fuga do homem. — Venha cá.

Sem jeito, o rapaz se aproximou, ainda mantendo uma grande distância.

— Majestade — disse ele, se pondo de joelhos. — Me perdoe. Jamais saberia que viria até aqui.

O homem estava sujo e com pústulas vermelhas em seu rosto, devido a uma doença muito forte que tomou conta de seu corpo. O rei tentou se aproximar para olhar mais de perto, mas o trabalhador tentou se afastar, tropeçando e caindo de costas. O rei avançou e ajudou o rapaz a se levantar que, sem forças, ficou sentado no chão.

— Você não deveria me tocar, majestade.

— O que está acontecendo? Me explique!

— Faz mais de um mês que nenhum cargueiro chega aqui. — explicou o homem doente. — Eles prometeram vir me buscar, mas ninguém veio. Agora não temos mais comida e logo morrerei de fome. Você não deveria me tocar. Logo, estará infectado também…

Ao ouvir essas palavras, o rei soltou o corpo do rapaz, que caiu batendo a cabeça contra o solo, onde ficou se retorcendo na mesma posição.

Do outro lado da plataforma, Edward acessava um monitor que mostrava cenas de uma tragédia. Hospitais insalubres repletos de corpos doentes, que morriam por falta de tratamento. Ruas repletas de corpos podres, com urubus comendo a carne que restava.

O histórico mostrava a doença crescendo em uma escala gigantesca, afetando todas as áreas de produção, desde as fazendas até as indústrias, inclusive os serviços mais básicos e, por fim, eles cortaram o contato com a cidade flutuante para evitar a proliferação da doença.

Ao terminar de ver as imagens, o rei andou até a borda da plataforma e observou a paisagem mais uma vez. Nunca tinha visto aquele lugar, mas logo identificou que era o mesmo das imagens. O que um dia foi uma terra repleta de vidas e natureza, estava destruída e tomada por uma praga que ele sequer sabia que poderia existir.

Naquele momento, o rei percebeu que seu reino logo seria o próximo a cair e entendeu que sem o Povo Debaixo, o Reino Sublime jamais poderia existir.

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