941 visualizações,  2 hoje

Agora é fato! Estamos vivendo uma distopia.

Qual a fonte? Eu mesmo, sou escritor, escrevo distopias e posso garantir: isso é uma distopia!

Império infectado por uma estranha epidemia. Reinos vizinhos dizimados pela doença.

— Fiquem calmos, amado povo — vocifera um dos conselheiros do vice-rei. — Não precisamos nos preocupar. Essa doença só afeta os impuros e pessoas de comportamento dúbio. Ela é a Chama Purificadora que virá limpar o mundo das trevas e das impurezas. Nós estamos seguros.

Três dias depois, o vice-rei retorna de uma reunião com o Imperador e apresenta os sintomas da doença.

O reino precisava se recompor e manter-se erguido, afinal, a histeria não poderia derrubá-lo. Entretanto, é fácil usar essas palavras se a situação estivesse boa, mas já fazia algum tempo que os pilares da estrutura feudal estava em colapso.

Ao invés de se proteger e se cuidar, o vice-rei convocou a população, liderando o bando para andar pelas ruas da cidade, juntos de ratos e pombos, correndo o risco de espalhar ainda mais a Chama Purificadora.

O objetivo de sua manifestação: derrubar o seu conselho.

Mas é difícil entender os reais motivos, uma vez que ele mesmo declarou que pode não ser o legítimo dono do título, devido a estranhos embaralhamentos genéticos de sua dinastia.

Enquanto uma parte da população caminha pelas ruas, a outra segue inerte, acreditando que o bate-papo e a “exageração dos argumentos” possa salvar o reino.

— Eles ocuparam nossas terras, — comentou um halfling, sentado em um canto da estalagem. — Fomos obrigados a deixar a Comarca e vir morar na cidade. Antes eu plantava e vivia feliz, fumando meu cachimbo. Agora mal consigo comida para minha família.

Os outros na taberna assentiram, murmurando e sem ânimo.

— E sabe o que o vice-rei disse? — vociferou o pequenino, que já havia bebido demais e agora cuspia enquanto gritava. — Que eu não pesava nem quinhentas onças e não servia para reproduzir.

Dessa vez, o murmúrio se tornou maior e as mesas se agitaram.

— E eu que não seria estuprada porque sou feia? — balbuciou Grixa, a Meio-Orc. — Assim como foi com a minha mãe durante a última invasão dos Orcs no reino.

Agora a taberna estava em chamas. Todos ovacionaram e secavam seus copos como se fosse o último momento de sua vida.

— Mas ele avisou que faria isso — gritou um elfo sujo e de roupas rasgadas. — Avisou que tomaria conta e que passaria por cima de quem precisasse, nem que muitos morressem no processo. Começando pelo nosso antigo rei.

Depois das palavras do elfo, a população chegou em seu nível máximo. Um homem barbudo e corpulento, terminou de beber sua cerveja e gritou.

— Ele não!

— Ele não!

— Ele não! Ele não!

Em meios aos gritos e berros, alguém arrombou a porta da estalagem com um chute. Um burguês de calças justas, usando um chapéu pomposo com uma pena pendurada na aba, adentrou à sala aos passos largos. O silêncio o acompanhou. Depois de uma bela performance, quase como um bailarino, ele apoiou o pé em um banco e discursou:

— Mas e o Kraken? E a guilda dos trabalhadores?

Todos silenciaram, perplexos.

— Na época do Kraken também tinha roubalheira — finalizou o intruso.

— Senhor Calças Justas, — disse uma voz cansada e arrastada, que veio de um canto da taberna. Um escriba, de idade avançada, se levantava enquanto deixava rolar pela mesa seus pergaminhos e penais. — Eu tenho dados aqui, são dados que mostram que nossa moeda está desvalorizada.

— Ah, — retrucou Calças Justas. — Mas você não precisa que ela esteja valorizada. Isso é bom para nossa economia. Você pode, ao invés de se aventurar em outros reinos, ir para os Lagos Setentrionais!

— Ué!? comentou um goblin, que não estava metido na conversa. — Mas vocês não falavam o contrário antes?

— Esse cara é um insano! — se intrometeu o elfo sujo. — Ele desrespeita a minoria. Nós, elfos, orcs, anões e halflings, não temos os mesmos direitos que os humanos!

— Mas eu também sofro preconceito, olha a cor da minha pele. Você acha que eu não era chamado de branquelo na universidade?

— Mas você é privilegiado! — Gritou outro.

— Melhor já ir se acostumando!

Foi nesse momento que a peleja teve início. O elfo saltou e tentou agarrar Calças Justas, mas ele foi rápido e se esquivou. Um halfling surgiu debaixo de uma mesa com uma adaga em suas mãos e tentou esfaqueá-lo na altura… das coxas.

Calças Justas era muito ágil e saltou por cima do halfling com a adaga a poucos centímetros de sua virilidade. Depois de mais saltos e esquivas, Jana, a bárbara, brandiu sua espada, e com apenas um golpe, arrancou a cabeça de Calças Justas.

Depois de observar o cenário de sua glória, Jana bebeu mais uma caneca de cerveja.— E o que faremos agora? — indagou a bárbara, limpando a boca. — Esse é o momento de lutarmos juntos!

— Bem, bem… veja bem — balbuciou o escriba. — Eu tenho um textão para publicar no mural do mercado.

— É… — se esquivou o halfling. — Eu tenho uma família para alimentar.

— Eu isso…

— Eu aquilo…

Todos ficaram em silêncio, sentaram em suas cadeiras. Uns deixaram o local. Jana voltou para sua cerveja. E a vida seguiu em frente como se nada tivesse acontecido…

Se isso não é a Distopia, não sei mais o que pode ser.

Deixe seu e-mail e receba mais atualizações literária de D. R. Laucsen!