948 visualizações,  2 hoje

Dia Vinte e dois, do quarto mês do Ano da Peste.

Trecho II da polêmica reunião Imperial — A Economia

— Senhoras e senhores, ha ha ha — iniciou o imperador, sentado na poltrona imperial, na ponta de grande mesa. — Eu sei que só tem uma senhora aqui, mas ela vale por mil! Ha ha ha!

“Os Adeptos de Ruskov estão dizendo que estamos em uma distopia, por causa da questão do vírus aí! Mas eles não vão roubar minha hemorroida!”

Sério, o Imperador olhou para todos na mesa. Jurava que o que tinha dito era algo sério e de impacto, mas os conselheiros pareciam não dar atenção.

— (…) preciso que leves a cura…

“Essa questão aí, não podemos deixar nosso povo parar de trabalhar! O que iremos comer? Vento? Sim, se tivéssemos estocado vento, mas não é o caso!

“Paulo Praxedes! Por que está sentado tão longe hoje? Gosto de você aqui mais perto! Ha Ha Ha! Afinal, a Economia é a parte mais importante do império!”

— Agora! Puta que o pariu! — gritou o Imperador dando um tapa na mesa e todos ficaram acuados em suas cadeiras. — Esse… Esse… Lá, O… Adão Glória! Esse cafajeste! Só porque é o rei do maior estado do império fica aí… achando que pode mandar em tudo!

— Sim, ó, grande imperador — comentou a única mulher no recinto —, esses reis e regentes são todos bandidos. Temos que prender todos e levá-los à forca!

— Isso é tirania! — gritou um barbudo com bico de pato. — Lembre que precisamos dos votos deles para a eleição Imperial! Agora, se tem alguém que está empacando o Império, são os juízes da corte suprema! Todos os nossos projetos são barrados por eles, porque será? Claro que é porque eles querem nos impedir de governar.

(E não porque os projetos eram ruins — falou a voz da razão, na cabeça de alguém).

— Isso é patifaria! — gritou o imperador, pondo-se em pé. — Esse sistema de eleição é fraudado. Eu sei que é! Mas tenho certeza que Paulo Praxedes colocará nossa economia novamente nos trilhos, não é mesmo? Ha ha ha. Sempre tem um jeitinho.

Praxedes, sentado no lado oposto da mesa, tentou falar algo, mas a conversa continuou e a voz dele não foi ouvida.

— (…) Esse é o momento! É a hora de passar a boiada…

— (…) Eu estou é mais preocupado com a minha HEMORROIDA!!! Eu preciso de mais informação! Quero minha família protegida.

— (…) Autocracia… não quero autocracia, mas desse jeito…

O imperador se levantou e todos o acompanharam.

— Cada um sabe o que fazer. Essa é a hora de mostrar para que que viemos!

***

No exato momento em que Adão Glória recebeu a notícia do primeiro Ato Imperial, sua pele arrepiou. Mas a verdadeira bomba caiu quando diversas tropas de mercenários independentes entraram em São Tarso expulsando a Companhia dos Metalúrgicos de lá.

Por uma semana, São Tarso ficou fora de seu controle. As pessoas voltaram às ruas e a Chama Purificadora começou a levar o povo daquele reino para as covas.

Glória tinha certeza de que as outras companhias estavam ali a mando do Imperador, pois, além de tomar o controle do seu reino, eles começaram a saquear os tesouros e levar a taxa imperial por eles mesmo. Nesse ritmo, o império não estava levando apenas as taxas que lhes eram de direito, mas também as taxas que eram direito da família Glória.

Adão não era um santo. Era certo que não ficaria quieto perante aquele ato de tirania. Para tentar recuperar o controle das coisas, ele colocou em ação dois planos.

O primeiro deles envolvia um necromante famoso no seu reino, um tal de Horácio. Com o necromante, já tinha combinado cada passo do plano. Era só dar o sinal. Entretanto, depois de tantos anos treinando sua lábia, Glória julgou correto enviar um mensageiro até a Cidade Imperial para tentar negociar a atual situação antes de tomar qualquer atitude radical.

— Senhoras e senhores! — disse o mensageiro, em audiência com o parlamento — Trago aqui uma súplica do Rei Adão Glória, amigo dos Garis, distribuidor de ração humana, pintor de paredes, senhor das surubas, rei de direito de São Tarso.

A corte se calou e o mensageiro sentiu a pressão dos olhares. Muitos ali estavam do seu lado, mas, depois do Ato Imperial I — AI1 —, não seria a maioria. E a maioria era os que incomodavam. Se as lendas estivessem certas, seriam criaturas malignas incorporadas em formas humanas, enganando e manipulando todo o império.

— Em nome de Adão Glória — prosseguiu o mensageiro, perdendo-se com as palavras —, venho pedir que nos ajude a tomar o controle das ruas de São Tarso mais uma vez. Não podemos aceitar que companhias independentes tenham o controle do maior reino do império.

Todos os parlamentares sabiam que existia um congressista em específico ali naquela sessão que controlava todas aquelas milícias que ocupavam São Tarso.

Sim, era ele, o filho mais velho do imperador. Que foi exatamente o sujeito que se pronunciou.

— Certo, senhor, você tem nome? Bom, não importa. Leve a mensagem ao seu rei que estamos dispostos a negociar sob duas condições.

— E quais seriam essas condições?

— Que o reino siga funcionando e pagando as taxas imperiais, mesmo com a suprema corte os tendo dado o direito de não o fazer. E também que distribua e faça seu povo usar a panaceia, para evitar a Chama Purificadora.

— Mas essa panaceia funciona? — perguntou o mensageiro.

— É claro que funciona. O Boticário Kaish, que é conselheiro do imperador, já confirmou a efetividade desse remédio. Além do mais, a Chama Purificadora está desaparecendo do mundo. Muitas dessas mortes por aí nem estão relacionadas a essa praga. Como meu mestre falou, teríamos que analisar todos os mortos, cada órgão, para ter certeza de que a morte foi causada pela Chama Purificadora.

— Isso aqui parece mais uma obra de ficção macabra! — gritou o mensageiro de Adão.

— Meu caro, — proferiu um dos parlamentares, pondo se em pé, dono de características que quase todos ali tinham: idade avançada, pele pálida e um olhar vil, — ficção Macabra seria: morto pela Chama Purificadora, Adão Glória é enterrado de bruços. Três anos depois, em sua exumação, os colegas testemunhando o evento ficaram surpresos com a higidez de suas nádegas. Aí um diria, o que é do homem o bicho não come.

— Mas o que é isso? Que sandice é essa?

Agora o olhar do parlamentar era ainda mais vil.

— O senhor desperta em mim os instintos mais primitivos!

O mensageiro retornou para São Tarso sem um pedaço de sua alma e com as condições para retomar o controle do reino. A resposta era o que Adão esperava, uma negativa. Então, ele colocou em ação seu plano principal.

Era hora de declarar o “Dia dos Mortos”.

***

Jana, a Bárbara, e Grixa, a Meio-Orc, caminhavam, pelas ruas de São Tarso depois de um dia jogando tempo fora na taberna. Já era meia-noite e o toque de recolher já havia sido anunciado. Teriam que retornar sem serem vistas pelos guardas.

— Que dia chato — vociferou a bárbara, que andava sem paciência nos últimos dias. — Desde que arranquei a cabeça daquele almofadinha na taberna do Julião que não encontro mais diversão por aqui.

— O rei prendeu todo mundo em casa — respondeu Grixa, com sua voz grave e rouca. —  Talvez seja a hora de ir para outro lugar.

— Grixa, Grixa! Você não se informa mesmo. Até uma bárbara como eu sabe que a Chama Purificadora está em todo o mundo. Não há para onde ir.

— É, é… eu não sei ler!

As duas foram interrompidas pelo primeiro badalar da meia-noite e pelo som da revoada de gralhas. O cantarolar dos pássaros fez o coração de Jana palpitar e ela sentiu o pescoço arrepiar.

A fera interior de Jana estava pressentindo o perigo.

— Grixa, vamos nos esconder naquele canto.

Correram pela larga estrada até encontrar uma viela onde se adentraram até que as sombras deixaram as duas ocultas. Grixa respirava pesado e Jana deu uma bofetada na nuca da Meio Orc.

— Silêncio!

Esperaram contando as últimas badaladas do sino. Quando terminou, Grixa respirou fundo, como se o problema tivesse acabado, mas Jana enfiou o dedo na boca em sinal de silêncio.

Instantes depois, ouviram o som de centenas de passos surgirem na rua principal, e quase como um tsunami, centenas de pessoas passaram correndo por lá.

Jana se perguntou do que toda aquela gente estaria correndo e pensou que deveria se juntar à multidão, por sua segurança. Foi então que um deles se adentrou à viela, correndo contra a duas que se encontravam lá e perceberam que não poderiam mais se esconder.

Jana estava preparada para aquele momento — e até agradeceu ao seu deus Caramuru, por trazer uma batalha digna até ela — e preparou seu espadão. Com apenas uma dançada, partiu o corpo do homem, que caiu em dois pedaços no chão.

— Pernas para um lado, braços para o outro.

— Porque você matou esse cidadão, Jana? — Berrou Grixa.

— Cidadão do cemitério, olhe!

Quando Grixa percebeu, ela deu dois passos para trás tampando o nariz. O que estava ali no chão, em pedaços, não era um ser vivo, mas sim, um morto. Um morto que ainda se mexia e, mesmo rasgado ao meio, seus pedaços ainda tentavam se mexer. Jana levantou seu pé, e com uma botada, estourou a cabeça do zumbi que se remexia no beco.

Jana puxou Grixa pelo braço para se adentrar ainda mais no beco. Resolveram que era melhor tentar sair pelo outro lado, mas no fim da viela havia um muro. Então pularam.

Caíram em uma rua larga do outro lado do quarteirão. Sentiram-se seguras, mas, instantes depois, a Tsunami de mortos-vivos também chegou ali.

— Corra! — gritaram juntas, e suas pernas nunca se esforçaram tanto.

Correram pelas ruas principais da cidade fugindo dos mortos-vivos que as seguiram. Em cada esquina que viraram, de lá vinha outra enxurrada de corpos que corriam e rastejavam tão rápidos quanto uma boiada.

Jana deu uma olhadela para trás e percebeu que termo Tsunami não era errado para descrever o que via. Os mortos vinham correndo, um saltando por cima dos outros e, quando um caía, os que vinham atrás passavam por cima ou arrastavam o caído junto deles. Mesmo nessa dança macabra, em que corpos corriam quase como fluido, eram tantos e tão rápidos que as duas seriam engolidas pela onda em pouco tempo.

E as duas se tornariam um deles.

A bárbara agradeceu mais a Caramuru por aquele momento. Seu deus moreia era um bom deus e essa revolta nas marés dos eventos de sua vida só poderia ser explicada pelas ondas do mar. Então, aceitando seus últimos momentos da vida, empunhou o espadão, cravou a bota no chão e se virou, pronta para lutar.

— Por Caramuru!

Quando a onda chegou, uma dançada da espada cortou cinco zumbis ao meio e dez pedaços voaram pelos ares. Na volta, a espada pegou mais um grupo e decepou pernas e braços.

A espada de Jana cortava os mortos quase como manteiga. Ia e vinha e pedaços voavam pelos ares.

Por momentos, a bárbara pensou que venceria a onda sozinha, mas cada vez mais corpos vinham ao seu encontro. E mesmo com sua espada indo e vindo, não venceu a enxurrada e logo os mortos passaram por ela.

Jana era acostumada com a dor. Tão acostumada que conseguia reduzi-la a zero em um combate. Talvez ela conseguisse morrer sem sentir dor alguma e era o que esperava daquele momento. Mas então percebeu que os zumbis passaram por ela e não deixaram uma marca sequer.

Sem entender, olhou para os lados e a onda de mortos seguindo o caminho da rua. Em um canto, Grixa estava agachada, chorando e pedindo para os deuses lhe salvarem. Jana usou seus instintos de sobrevivência para encontrar uma saída do meio daquela enxurrada de mortos. Seus olhos correram para uma janela no térreo de uma construção e cruzaram com os de uma mulher negra com olhos escuros, que usava uma capa com capuz. A mulher tentava gritar e chamar por ela. Então Jana andou até Grixa, puxou ela pelo braço e com a força sobrenatural que tinha, saltou pela janela de onde a mulher negra lhe chamava.

As duas caíram dentro de uma casa que parecia abandonada. Três sujeitos vestindo capa com capuz confortaram as duas. Um deles, a mulher negra, descobriu a cabeça — revelando seus longos e volumosos cabelos crespos — e abraçou Grixa, garantindo que a meio-orc não tinha nenhum ferimento pelo corpo.

— Ela está desesperada — falou a negra. — Calma, garota, está tudo bem agora. Você não está ferida. Não vai se transformar em um deles.

— Os mortos assustam qualquer um — falou um dos outros, que Jana não conseguiu identificar as feições, mas identificou que eram homens, pelo tom da voz. — Esses não seriam diferentes.

— Esses são diferentes — falou Jana, ainda não confiando nos três. — Eles não nos atacaram.

Os três estranhos se entreolharam. A curiosidade era evidente em suas faces. Jana confirmou o que havia dito mais uma vez.

— Preciso ver isso — disse um dos homens que estavam ali. — Vamos para o segundo andar.

No segundo andar, encontraram uma janela que dava acesso à rua. Abriram-na e observaram o que estava acontecendo. Do lado de fora, a Tsunami de mortos seguiu arrastando mortos pela rua, mas dali conseguiam ver um pouco adiante onde havia uma barreira de soldados armados com escudos e que lutavam e se defendiam dos mortos.

— Pelo visto, sua afirmação está errada, bárbara.

— Não. — Confirmou Jana, com sua visão de águia afiada. — Olhem lá. Um grupo de civis perdidos no meio dos mortos-vivos. Os mortos passam por eles e atacam só os soldados.

— Entendo — falou a mulher negra. — Aquelas cores. São uma das companhias de mercenários do filho do imperador. Os mortos estão atacando-os. Essa horda de zumbis foi invocada em favor de Adão Glória. Eles estão expulsando as outras companhias daqui.

— Quem são vocês? — perguntou Jana — Falam pomposos e cheio de frescuras.

— Desculpe, senhoria! — falou a mulher negra. — Estava tão nervosa que não consegui me apresentar. Sou Rosiély Cofran.

A mulher esticou a coluna e permaneceu com olhar sereno. Certamente esperando que Jana falasse algo.

— Nunca ouvi falar! — disse Jana, com desdém e Rosiély se encabulou. — Eu sou Jana, e essa é Grixa.

— Sua pele, marrom — continuou Rosiély, tentando tocar o braço musculoso de Jana, que desviou, arisca. — Você é nativa.

— Sim — respondeu Jana, dando um cuspe para o lado. — Sou índia. Mas o termo bárbara se tomou mais comum por aqui.

— Você é Guarany?

— Não, vim de longe. Sou Potiguara.

— Certo — continuou Rosiély, com um sorriso e com cautela em suas palavras. — Aqui nesse império em decadência, eu luto pelos direitos dos anões, elfos, meio-elfos, meio-orcs, pequeninos, gnomos e outros. Isso inclui também humanos não brancos, como eu e você.

— Você é uma boa pessoa, se faz isso mesmo. Só parece um pouco bem cuidada para uma negra.

— Eu sou parlamentar. Eu atuo no governo. Mas as coisas estão ficando feias. Vim para cá procurando ajuda, mas esse lugar está tão cheio de maldade quanto a cidade imperial.

Juntos assistiram ao espetáculo que foi os mortos varrendo as companhias mercenárias das ruas de São Tarso.

Durante a noite, apenas assistiram, esperando que a coisa logo se resolveria, mas o dia nasceu e os mortos continuavam correndo pelas ruas.

Jana tentou tirar Grixa dali e ir para outro lugar, mas Rosiély não as deixou. Ofereceu comida e cuidados médicos para as duas. O medo natural que Jana tinha dos outros começou a se acalmar em seu peito e logo Rosiély já era Rosi.

O dia passou e, depois de longas conversas, Jana e Grixa aceitaram proteger o grupo de qualquer eventualidade e, dois dias depois, já eram um grupo, andando seguramente por São Tarso.

As ruas ainda estavam um caos, cheias de perigos, fedor e morte. A cada dia que passavam, descansavam durante o dia e mudavam de casa durante a noite, aproximando-se cada vez mais do palácio, que era o destino de Rosi.

— E vocês? — perguntou Jana, para os outros dois. — Ouvi que vocês e Rosi se conheceram há pouco tempo.

— Sim — afirmou um deles, que tinha um sotaque estrangeiro. — Sou Edward Blackwald. Morava em Sundar, antes de sua queda. Sim sim… A Chama Purificadora acabou com tudo por lá. A cidade flutuante cairá em alguns meses, ou dias. Ninguém sabe.

— E você, — apontou para o terceiro. — Também veio de Sundar?

O homem careca e de cara enrugada evitou responder e apenas olhou para suas mãos, cheias de anéis de ouro. Sob a capa que usava, revelavam-se roupas elegantes.

— Sim — respondeu Edward. — Ele era o rei de Sundar. Um rei caído, assim como seu reino.

— Eu gostava de Sundar — afirmou Jana, não dando atenção para o rei caído. — Quando vim pra cá passei por lá. Cortei muitas cabeças nos bares e ganhei muitas partidas de queda de braço. A cerveja era boa também.

No meio da conversa distraída, Grixa seguia em silêncio. Desde o susto que levou dos mortos-vivos, ela estava se recuperando, mas naquele dia, algo estava crescendo em seu peito.

A memórias de Grixa começaram a se tornar confusas. As lembranças turvas. Ouviu um som estranho. Uma voz que vinha de longe. Era terrível. Algo que vinha do fundo do mar.

— Ahhhhhh! — gritou a meio-orc, pondo-se em pé na frente do fogo. — Cansei de ficar trancada! Quero a panaceia!

— É! — gritou o rei caído, também pondo-se em pé. — Usar máscara nunca mais!

— Quero panaceia! — repetiu Grixa. — E quando a vacina sair, eu não vou tomar!

Jana sentiu também o chamado. Algo vagava dentro de sua mente. Mas ela era uma bárbara! Fechou os olhos e invocou a força de Caramuru. Seu corpo explodiu e o fogo tomou conta de seu ser. Seus olhos arderam, vermelhos. A fúria bárbara estava ali, em seu corpo, mantendo sua mente plena e sob controle.

Edward saltou de seu banco e deu um tapa na cabeça de Rosi, liberando-a do controle que tentou tomar conta dela, mas foi tarde demais para ajudar o rei caído, que saltou e agarrou Edward pelos braços.

Jana se levantou para ajudar, mas foi a vez dela. Grixa saltou e, com sua força, — que era grande o suficiente para um meio-orc — agarrou Jana e as duas caíram rolando.

Jana usou as pernas e tentou iniciar um movimento de imobilização. Não queria machucar a amiga, e, em outras discussões, já haviam brigado, mas, hoje, Grixa parecia muito mais forte que o normal. Tanto que, mesmo com sua fúria em ação, não conseguia deter os movimentos de Grixa.

— Você não vai me impedir! — gritava Grixa, dando tapas na cara de Jana. — Eu vou tomar esse remédio e voltar à minha vida normal!

— Cala a boca, sua estúpida! O que você tá falando? Sua vida normal é sair por aí bebendo e você ainda tá fazendo isso!

Jana forçou a barra e tentou agarrar o braço de Grixa, mas a amiga rolou e ambas caíram em uma escadaria e rolaram escada abaixo. Rolaram como uma bola de couro, batendo nos degraus e rachando a madeira em cada impacto.

As duas caíram em uma adega. Jana sentiu o frio do local e, quando chegou ao fim da escada, bateu a cabeça em uma parede de pedra. Pensou ter ouvido Grixa dizer algo mais, ou outra pessoa ter gritado, mas era tarde demais. A escuridão tomou conta de Jana. Um sentimento que não a tomava conta há muito tempo, desde que era criança e estava aprendendo a lutar.

***

— Mas que patifaria é essa? — gritou o imperador quando todos se aglomeraram no cantinho do segredo. — Você pode me explicar aí, Praxedes, o que está acontecendo?

— Eu, eu, eu — respondeu Praxedes, dando alguns passos para trás. — Eu só pago as pessoas! O dinheiro caiu certinho na mão de todo mundo. E, como já comentei, ele está acabando!

— Eu preciso das taxas de São Tarso, Praxedes! O império logo será o mais pobre do mundo!

— Pai, — disse o filho mais novo do imperador. — Quem te disse que esse plano daria certo?

— Esse Temer… Temerário Senhor das Trevas! — gritou o imperador, não se preocupando mais com os segredos. — Aposto que ele inventou isso para destruir… aniquilar a minha Hemorroida! Ele disse que tendo o lado sombrio do parlamento e os necromantes a nosso favor passaríamos qualquer lei pelo congresso.

— Mas a questão não é mais essa, pai: — falou dessa vez o filho mais velho. — A lei está lá. Mas parece que liberar a necromancia dentro do império trouxe um revés. Ao mesmo tempo que entramos e tomamos o controle de São Tarso, alguém começou a usar os próprios mortos pela Chama Purificadora contra nós. E não são poucos. Minhas milícias… quer dizer, meus mercenários não conseguiram manter a cidade sob controle depois da enxurrada de mortos.

O grupo discutiu possíveis saídas para retomar o controle de São Tarso, mas todas as ideias eram em vão. Assumiram que, pelo comportamento dos mortos, eles deveriam estar trabalhando para Adão Glória. Certamente o rei tinha um poderoso Necromante ao seu lado. Além do mais, aquela quantidade de mortos e a Companhia dos Metalúrgicos juntos seriam um exército e tanto, até capaz de colocar a segurança da Cidade Imperial em risco.

— Bom, — retrucou o imperador, depois de longas discussões sem conclusões. — Não temos escolha a não ser chamá-la.

— Chamá-la! — gritaram os demais, ao mesmo tempo.

— Sim, o chamado será realizado. O Chamado de Dolores. Somente Dolores Dos Mares pode nos ajudar agora.

Dolores Dos Mares era a maior esfoladora mental de todo o império e era uma criatura de proximidade com o imperador. De tempos em tempos, o imperador invocava o ritual do Chamado e convocava sua presença para conselhos e outros assuntos relativos aos “direitos humanos” dos cidadãos do império.

Sem perder tempo, o imperador e sua comitiva viajaram para o leste, até encontrar o mar. O local do chamado era uma grande pedra que se erguia no litoral e, quase como que esperando para o momento do ritual, uma enorme tempestade se armou e as ondas turbulentas colidiam contra a pedra, fazendo o chão tremer. Sozinho e usando apenas seus roupões cerimoniais, o imperador estufou o peito e gritou:

Ph’nglui mglw’nafh Dolores R’lyeh wgah’nagl fhtagn!

Um raio cruzou as nuvens e atingiu a água. O estouro deixou o imperador surdo, mas ele parecia acostumado com aquela situação. O chão tremeu e, quase como uma montanha, a forma arredondada começou a emergir sob as ondas. Uma chuva torrencial se iniciou e outros raios cruzaram os céus.

A criatura surgiu imponente, revelando a viscosidade da pele e seus tentáculos asquerosos. Sobre a cabeça de polvo, Dolores cultivava um cabelo em forma de capacete. Vestia roupas bregas dos anos setenta e, quando terminou o espetáculo, abriu suas asas de morcego e mostrou seu sorriso maligno.

O imperador sabia que deveria esperar ela falar.

— Então, imperador, — disse ela, com sua voz estridente ecoando no meio da tempestade. — Já removeu as mamadeiras de piroca das escolas?

— Eu… eu, é…

— Daqui a pouco eles vão estar obrigando todo mundo a ser homossexual. A Ditadura gayzista!

O imperador esperou, perplexo.

— E a ideologia de gênero? — continuou Dolores. — Já está fora das escolas? Daqui a pouco vão estar masturbando crianças, como acontece em outros lugares!

O imperador deu uma olhada para trás, procurando ajuda. Sabia que não podia falar até ter a palavra.

— E as roupas das crianças? Meninos de azul e meninas de rosa? Não?! Daqui a pouco tem menina de dez anos estuprada e vão dizer que a culpa é do tio! Aí ela vai querer abortar… blá blá blá, já vi que você não está prestando atenção em nada do que eu digo. Então, por que veio até aqui?

— Minha senhora! — prosseguiu o Imperador, em tom polido. — Eu tenho uma situação emergencial para resolver…

O imperador contou toda a história e Dolores esperou, raivosa. A cada palavra que ouvia um novo raio cruzava o céu e o imperador sentia que a cabeça de alguém explodia em algum lugar do mundo.

— Certo, seu fracote. Já vi que eu vou ter que entrar em ação para possibilitar sua reeleição. Mas temos um problema. Para fazermos isso sem causar grandes conflitos políticos, você terá que derrubar a lei restritiva quarenta e três e, então, a loucura tomará conta do império!

(Como se o império precisasse de mais delírios.)

O imperador concordou e retornou para a cidade imperial. Com uma rápida conversa com os vampiros do congresso, aprovou o projeto e o anunciou para todo o império:

— Meus caros seguidores! — gritou o imperador, levantando os braços. — Hoje é mais um dia importante para o império. Hoje eu proclamo meu segundo ato. O Ato Imperial II. E nesse ato, eu derrubo a lei restritiva quarenta e três. A partir de hoje, o uso de magia de Controle Mental está livre dentro do território imperial. O uso desse tipo de magia é agora livre para possibilitar o controle da paz. Mais um passo rumo aos tempos antigos, quando nosso império era poderoso e superior!

A notícia causou forte impacto na oposição do governo, mas agradou os aliados. Os esfoladores mentais agora não só se alimentavam de cérebros alheios, como também controlavam a mente de grandes multidões para atenderem seus desejos.

O maior impacto foi sobre São Tarso, onde Dolores Dos Mares usou o máximo de seu poder para controlar a população e fazê-la ignorar os mortos-vivos de Adão Doria.

Uma vez que os mortos-vivos não estavam atacando os civis, Dolores fazia a população perder o nojo e o medo, e logo as cidades, de uma maneira bizarra, começaram a voltar ao normal. Em meio aos zumbis inofensivos, a população seguia sua vida normal: com um saco de panaceia cada um, os artesãos voltaram ao trabalho e, aos poucos, São Tarso se tornou a cidade mais pitoresca de toda a história.

***

— O que está acontecendo? — perguntou Grixa, coçando a orelha inchada do tapa que levou de Jana depois de sair do controle mental. — As pessoas não estão com medo dos zumbis?

— Parece que não — respondeu Jana, ainda mais confusa.

— O controle mental — intrometeu-se Edward com seu sotaque bizarro. — O mesmo que te afetou. Creio que essas pessoas estão sob algum tipo de controle mental.

— Mas quem teria tanto poder? — perguntou Rosiély. — Nunca vi algo tão estranho.

E sim, a cena que eles observavam do segundo andar de uma casa abandonada era a mais bizarra possível. Zumbis caminhavam pela cidade sem atacar um civil sequer. De vez em quando, um mercenário que não era da Companhia dos Metalúrgicos surgia e os mortos-vivos o atacavam, triturando seu corpo, que logo se tornava um morto como eles.

Por outro lado, os habitantes da cidade seguiam suas vidas, ignorando os mortos. Cavaleiros surgiam e iam até os ferreiros, com seus cavalos passando pelo meio dos mortos, consertavam suas ferraduras e voltavam como se nada tivesse acontecido.

— Talvez seja seguro — comentou Jana. — Se nossa missão é chegar no castelo do Rei e os mortos-vivos não estão nos atacando, talvez isso facilite as coisas.

Todos no recinto, incluindo Grixa, acharam uma má ideia, mas Jana era corajosa. Saltou do segundo andar e caiu em pé entre os mortos-vivos e, como esperado, nenhum sequer deu atenção a ela.

— Estamos seguros! — gritou Jana. — Venham!

Assustados, os demais foram descendo aos poucos. Depois de garantir que todos estavam no solo, Rosi reforçou a todos que deveriam usar uma bandana protegendo a boca e o nariz e, por fim, fortaleceu a todos com uma magia de resistência a doenças.

Andaram pelas ruas agora presenciando a cena pitoresca de perto. Era impressionante como todas as pessoas da cidade estavam acreditando que a doença não existia mais e que a panaceia do imperador estava curando a todos. E o mais curioso era que, ao perguntar sobre os mortos-vivos, todos negavam estar vendo tal coisa.

Entretanto, a paz não reinou nas ruas da cidade por tanto tempo. Quando estavam a meio caminho do palácio, tiveram que se esconder para evitar a onda de violência que veio em seguida. Enquanto andavam pela avenida principal, a Companhia dos Metalúrgicos vinha se movendo em formação e prendendo todo mundo que podia.

A população tentava resistir, mas os métodos dos metalúrgicos eram eficientes. Eles arremessavam bombas de gás que espantavam os habitantes com facilidade e, para os que tentavam resistir, eles usavam bastão de choque, que eletrificava e imobilizava os agressores. Contra os caídos no chão, os soldados arremessavam bumerangues, que atingiam os corpos e enrolavam suas mãos e pernas. Uma vez fora de ação, os cidadãos eram deixados ali, amarrados, e a companhia seguia o seu trabalho.

Outra coisa que os metalúrgicos faziam, que fazia parte do grupo de coisas estranhas acontecendo, era que eles arrebanhavam os mortos-vivos como se fossem ovelhas. Em história normal, como foi no passado, os mortos-vivos seriam destruídos um a um, mas hoje eles eram guiados e carregados em grupos. Cada conjunto de zumbis era deixado em uma esquina e eles ficavam ali, esperando ordens.

Depois que terminavam de limpar o quarteirão, a Companhia dos Metalúrgicos concluía seu trabalho, realizando o feito que deu nome àquele dia: o dia da Solda. Os moradores eram jogados para dentro das casas como saco de batatas. Depois disso, os metalúrgicos surgiam com barras de metal e lacravam as casas, soldando os metais às partes metálicas das portas, lacrando os moradores dentro de suas residências.

Muitos tentavam escapar pelas janelas, mas os metalúrgicos as lacravam também, enfiando grandes rebites de ferro nas casas de madeiras e soldando as janelas com barras.

Tabernas e outros serviços, como ferraria e alfaiataria, também eram lacrados com barras e solda. Os trabalhadores e animais eram enfiados dentro das lojas: e solda nelas!

Em poucos dias, a cidade estava novamente sob controle de Adão Glória e a população de São Tarso seguiu em frente, com lojas e casas com suas portas soldadas.

***

Depois de improvisar uma maneira de atravessar pela Companhia dos Metalúrgicos sem serem confundidos com moradores, Jana, Grixa, Rosiély, Edward Blackwald e o antigo rei de Sundar chegaram às portas do palácio de São Tarso.

Os guardas tentaram impedi-los de entrar, mas Rosiély se revelou e o grupo conseguiu entrar. Nas portas do castelo, encontraram uma segurança que jamais haviam visto em outro lugar. Além de soldados garantirem que entrassem sem armas, outros sacerdotes usavam seus poderes divinos para identificar doenças. Um outro exame detectava quem tomou a panaceia, feito proibido dentro do palácio. Por fim, um mago testava cada um contra o controle mental. Passando em todos os testes, o grupo foi levado até a sala do rei.

Quando chegaram à sala do rei Adão, ele jantava com sua esposa e outras duas pessoas. Uma delas era uma ricaça que chamavam de Tal Magiori, uma burguesa de São Tarso que nunca havia visto um pobre em sua vida. A outra era um antigo necromante que havia se tornado famoso antes da ascensão do Temerário Senhor das Trevas.

— Quando essa coisa passar, eu vou fazer uma festinha! — comentava Tal Magiori. — Uma festinha só para os mais íntimos, com umas duzentas e cinquenta pessoas no máximo!

A ricaça e a rainha gargalharam.

— Horácio… — balbuciou Rosiély, insatisfeita e ignorando a conversa das duas mulheres.

— Olha quem vem lá! — comentou Adão Glória em alto tom antes que a visita fosse anunciada. — Seja bem vinda, Rosiély! Mesmo em tempos sombrios.

— Muito obrigada, majestade! — respondeu ainda se sentindo incomodada com a presença do necromante. — O que está acontecendo com seu reino? Está uma loucura lá fora!

— Sim, sim! — disse o rei, rapidamente fingindo estar tudo certo com seu sorriso que parecia feito de plástico. Entretanto, Adão suava em sua testa, sinal de que não dormia direito nos últimos dias. — O Imperador está pegando pesado comigo.

— E você precisou cruzar a linha da moral — comentou Edward Blackwald, intrometendo-se na conversa dos dois.

— E vocês, quem seriam?

— Sou Edward Blackwald. Era conselheiro do rei em Sundar, antes da queda. E esse aqui ao meu lado é o próprio rei caído de Sundar.

Com um grande gracejo, Glória o cumprimentou, mas o rei de Sundar respondeu com um sorriso amargo.

— Meu reino já não existe mais, majestade. Sou um caído que vive em busca de uma última missão: Salvar pessoas que ainda vivem em Su.

— Su? A cidade voadora? Do reino sublime!?

— Sim. A única parte do meu reino que ainda não foi contaminada pela Chama Purificadora. Entretanto, em poucos dias a cidade cairá e todos morrerão, a não ser que consiga ajuda para salvá-los e abrigá-los em algum lugar seguro.

— Não há lugares seguros, vossa graça — continuou Adão Glória. — Como você pode ver, a situação está difícil para todos nós. Além da maior doença de todos os tempos, eu tenho que ainda enfrentar o Imperador e sua corja. A cada dia que passa, o Imperador tem mais aliados. Se eu tive que cruzar alguma linha, foi porque precisei. Para garantir meus títulos e a existência de minha dinastia.

Todos ficaram em silêncio esperando que o rei continuasse. Rosiély sabia que Adão era muito mais radical que qualquer outro rei da família Glória, mas hoje ele parecia ter razão em estar indo além.

— E digo mais, — continuou Adão Glória. — Meus recursos estão terminando. Se eu perder essa luta agora, está certo que o Imperador dará um jeito de me destronar. Aí eu pergunto, rei caído, se queres ajuda de mim, como poderei ajudar um regente de fora do império se não consigo nem resolver os meus problemas aqui?

— Nós temos tecnologia, majestade — intrometeu-se Blackwald, mais uma vez. — O conhecimento que temos para manter a cidade flutuando é algo que nem os gnomos dominam. Nossos meios de transporte estão em outro patamar se comparados com qualquer um do mundo. Além de tudo, dispomos de conhecimento meteorológico em um nível muitíssimo avançado. Quase todas as tempestades podem ser descobertas por ela, em um nível que podemos dizer supremo. Sublime!

O rei Adão continuou com seu sorriso de plástico. Parecia querer algo mais.

— E tem mais — continuou Rosiély. — Nós, os que ainda não foram comprados no parlamento, estamos dispostos a cooperar. Precisamos fazer algo e parar essa força que quer destruir o Império da Braza. O Temerário já tentou fazer isso à força, agora esse maluco tentará fazer, parecendo que está em seu direito.

— Que nobre dia! — comentou Adão Glória, estalando os dedos. — Parece que temos uma luz no final do túnel. Não é mesmo, senhores?

E, depois de uma longa reunião, o plano estava traçado. Era hora de as estruturas do império começarem a tremer.