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Dia Vinte e dois, do quarto mês do Ano da Peste.

Trecho I da polêmica reunião Imperial — A Praga

— Senhoras e senhores, ha ha ha — iniciou o imperador, sentado na poltrona imperial, na ponta de grande mesa. — Eu sei que só tem uma senhora aqui, mas ela vale por mil! Ha ha ha!

“Os Adeptos de Ruskov estão dizendo que estamos em uma distopia, por causa da questão do vírus aí! Mas eles não vão roubar minha hemorroida!”

Sério, o Imperador olhou para todos na mesa. Jurava que o que tinha dito era algo sério e de impacto, mas os conselheiros pareciam não dar atenção.

— Essa questão aí, da praga — continuou o imperador,  voltando-se a um de seus conselheiros, que era um homem pálido e usando um capuz que mais parecia um morto-vivo — se os países vizinhos não vão responder, temos que mudar isso daí.

“Kaish, como meu conselheiro nessa questão aí, preciso que leves a cura para todos os nossos cidadãos para que continuem trabalhando! Temos muita Panaceia estocada e comprei mais ali, do nosso vizinho… aliado… sim, sim. Tem mais chegando.”

— Eu, é, eu… — começou a falar o conselheiro, que parecia atingido com uma forte comorbidade. Sua mandíbula mal conseguia se mover e seus olhos não paravam abertos. De tempos em tempos, lambia os lábios para umedecê-los. — Eu, sim. Sim. Panaceia? Sim, sim. Sei. É, que…

— Não, não. — Prosseguiu o Imperador. — Não é contraindicado. Pode tratar da logística.

(…) Essa questão aí, não podemos deixar nosso povo parar de trabalhar, Paulo Praxedes…

— (…) Esse é o momento! É a hora de passar a boiada…

— (…) Eu estou é mais preocupado com a minha HEMORROIDA!!! Eu preciso de mais informação! Quero minha família protegida.

— (…) Autocracia… Não quero autocracia, mas desse jeito…

O imperador se levantou e todos o acompanharam.

— Cada um sabe o que fazer. Essa é a hora de mostrar para que que viemos!

***

Adão Glória sempre foi um rei sensato. Ao menos, pareceu sensato quando a peste chegou. Enquanto uns culpavam Ruskov pelo mal que assolava a população do Império, Adão reuniu seus auxiliares e colocou o reino de São Tarso para funcionar.

Não demorou nada até o maior reino do Império da Braza se destacar, trazendo a inveja dos outros líderes à tona. Em um momento em que todos precisavam estar unidos para enfrentar o mal, o povo ainda tinha que engolir a rixa entre Adão Glória e seu líder, o imperador de Braza.

Entretanto, Adão tinha um passado obscuro. Antes de se tornar rei e assumir o lugar do pai, ele era apenas um almofadinha na corte. Com seu sorriso que parecia feito de plástico, Adão era mais um instrutor de pequenos comerciantes cheios de dinheiro que tentavam ganhar a vida explorando os outros. Mas o filho do rei conseguiu superar todas as expectativas negativas quando convenceu o pai a transformar resto de comida da corte em ração, para que ele pudesse dar aos pobres.

Pobre era Adão, que acreditou que aquilo o tornaria popular. Tornou-se popular, mas não do jeito que ele gostaria.

Por outro lado, a chegada da Chama Purificadora foi uma oportunidade única para Adão. Uma vez no poder, — enquanto o imperador delirava com sua panaceia, — Adão atacou direto no ponto, seguindo os conselhos dos magos. Enquanto todos os reinos gastavam todo seu ouro com a panaceia, que não funcionava contra a peste, Adão usou seu dinheiro para isolar a população e começar sua própria pesquisa.

Tudo correu bem.

Outra coisa que correu bem foi a notícia de que o rei de São Tarso estava procurando pesquisadores e estava pagando bem. Magos, alquimistas e estudiosos de todo o mundo viajaram para São Tarso para tentar botar a mão naquela grana.

— Vossa majestade, — falou um homem de idade avançada, com longas barbas brancas. Sua voz era rouca, parecia ter gritado por dias. — Nunca na história desse reino tivemos uma oportunidade tão grande. Um momento único. Minhas habilidades e capacidades nunca foram tão úteis para todos nós. A metade norte do império e o reino vizinho, Sundar, estão devastadas pela Chama Purificadora. É hora de usarmos isso a nosso favor.

“A necromancia nunca foi tão útil. Tantos corpos. Podemos reviver esses corpos e criar uma muralha para impedir o avanço de outros infectados. É a maneira mais eficiente de lidar com essa situação.”

— Senhor Horácio, — comentou o rei Adão, depois de ouvir o depoimento do mago a sua frente — acho seus métodos um pouco agressivos. Você não trabalhava com aquele vampiro? Que foi o último imperador?

— Meu senhor, — prosseguiu o necromante — eu entendo o medo tradicional da necromancia. Muitos a temem por lidar com os mortos. Apesar de tudo, tenho que reforçar que a magia da morte é natural. Os corpos já não possuem mais almas e lembranças de quando eram vivos. São apenas marionetes.

— Ainda assim nego a sua súplica. — Continuou o rei. — Muitas dessas magias aí são proibidas no império. Não posso me indispor ainda mais. Próximo…

Por fim, o rei Adão decidiu por fechar negócio com a Guilda dos Metalúrgicos, um grupo mercenário liderado por um gnomo engenheiro que trazia mais de mil soldados armados com armaduras de metal, maçaricos, lança chamas, espadas flamejantes e flechas explosivas. Um dos maiores arsenais em mãos livres da atualidade.

Então, a operação Glória se iniciou e arrepiou até a alma do imperador.

Durante dias, os mercenários andaram pelas ruas do reino com suas armaduras reluzindo a luz do sol. Pessoas que eram detectadas com a Chama Purificadora eram capturadas e nunca mais eram vistas. Havia lendas de que os doentes eram levados para campos de concentração, ficando afastados dos puros. Outros até diziam que lá os doentes eram fuzilados ou usados em experiências para uma possível cura.

Muitos se perguntavam como aqueles soldados não se infectavam, mas suas armaduras eram preparadas para esse tipo de situação. Nada de fora entrava em contato com seus corpos, utilizando modernos respiradores goblin para proteger quem estava lá dentro do ar infectado.

O temor por esses mercenários era tão grande que as pessoas começaram a se esconder dentro de suas casas quando ouviam o marchar característico, de centenas de pés enlatados batendo contra as pedras das ruas.

Em menos de uma semana, as ruas de São Tarso estavam vazias. Apenas sombras do medo caminhavam por lá.

***

— Imperador, — disse Paulo Praxedes, que cuidava do tesouro do império — temo em dizer que temos um problema com as taxas. Sim, sim. Mesmo com meu imposto novo, e a taxação sobre os livros, a cobrança da taxa deste mês veio reduzida pela metade. Metade!

— Metade, Praxedes! — gritou o imperador, pondo-se em pé, na frente do trono — Como assim?

— Basicamente a taxa de São Tarso parou de chegar.

— Patifaria! Esse Adão Glória quer acabar comigo! Prepare o exército, vamos enviar uma comitiva até lá para cobrar a taxa.

— Certo, meu senhor, — continuou Praxedes, cauteloso — mas devo lhe avisar que, mesmo que façamos isso à força, podemos chegar lá e não encontrar o ouro. Caso isso aconteça, os outros reinos nos acusarão de tirania. Seu título ficará ainda mais enfraquecido.

— Como assim… “ainda mais”?

— É, meu senhor. — Paulo Praxedes parecia não querer tocar nesse assunto, mas não encontrou saída. — Você dizer que a eleição imperial foi fraudada colocou o título em cheque. Se você agir com tanta energia por nada, apenas piorará as coisas.

— Mas que merda é essa!? Não consigo nem reinar… quer dizer, imperar em paz! Mas me diga uma coisa, por que o rei Glória não teria esse dinheiro? Se ele não enviou, deve estar em algum lugar. É o dever dele.

— Sim, entendo, majestade. O que quero dizer é que talvez o rei não esteja coletando seus impostos internamente também. As informações que tenho é de que existe uma companhia de mercenários marchando nas ruas e todos os mercados e outras lojas de manufatura estão fechadas. Logo, ninguém está pagando impostos.

— Mas aí é responsabilidade dele. Eu preciso das taxas!

— Entendo, entendo! Por outro lado, o Parlamento e a Suprema Corte já estão trabalhando para, enquanto a Chama Purificadora durar, cortar as taxas imperiais, abstendo os reinos e cidades estados das taxas imperiais: Se isso der certo, as coletas irão diminuir para zero por um longo tempo.

— Isso não vai acontecer. Tenho três filhos no parlamento. Eles impedirão isso de acontecer.

E não conseguiram. Na mesma semana, o parlamento aprovou a lei e a suprema corte endossou. No mês seguinte, nenhuma barra de ouro ou moeda foi carregada dos reinos para o distrito imperial.

O imperador foi obrigado a acatar, pois agredir a decisão desses dois poderes o colocaria definitivamente em uma má posição. Foi então, em um canto escuro do palácio imperial que Kaish, Praxedes, o Imperador e seus três filhos se encontraram.

— Calma, meninos! — Começou o imperador. — Sei que vocês se esforçaram, mas a conspiração está trabalhando forte contra nós. Um dia teremos poder suficiente para nos juntarmos a nossos aliados e marcharmos contra Ruskov, mas, enquanto isso, precisamos quebrar sua influência dentro do nosso reino.

 — Estamos perdendo força, pai. – Disse o filho mais velho. – Minhas companhias mercenárias não conseguem mais penetrar em São Tarso. Para isso, criaremos um conflito muito grande. A Companhia dos Metalúrgicos é muito forte para ser combatida frente-a-frente.

— Podemos investir em tráfico de informação — comentou o filho mais novo. — Com umas mentiras aqui e outras ali, podemos pagar os sofistas para irem para as cidades pregar que a Panaceia realmente funciona e não precisam ter medo. Pelos menos assim a maioria dos reinos e estados podem voltar a operar e pagar as taxas.

— Entretanto — interrompeu Praxedes, — gastaríamos a metade de nossas reservas para enviar sofistas para todas as grandes cidades do império.

— Preço que precisamos pagar! — Afirmou o filho mais novo do Imperador.

— Kaish, — interrompeu o imperador. — Como está a distribuição da panaceia?

— Eu… é… sim… panaceia.

— Sim, a panaceia.

— Ela… não está funcionando… digo… não…

— É porque não estão tomando o suficiente! — Insistiu o imperador, levantando o tom de voz. — Pode intensificar, vou precisar de você para nossa próxima ação. Vamos pôr os sofistas nas ruas e distribuir mais panaceia. Quero esse remédio entrando em São Tarso de qualquer maneira. Uma vez lá, teremos influência sobre a população e eu vou colocar aquele Adão Glória na forca!

***

As ações do imperador geraram impacto muito rápido. As mentiras sobre um tal remédio que curava a Chama Purificadora e a alta disponibilidade de tal produto fez com que as pessoas perdessem medo da doença e voltassem às suas vidas normais.

Em São Tarso não foi diferente. Livres do medo, as pessoas começaram a ser mais ousadas. Os artesãos começaram a abrir suas lojas e o mercado voltou a ficar movimentado. Quando a Companhia dos Metalúrgicos surgia, todos se escondiam. Mercadores preparados corriam com suas caixas e mochilas e artesãos fechavam as portas de seus estabelecimentos.

Entretanto, mesmo com as coisas tentando se ajustar e com a melhora na economia, o parlamento manteve a decisão de não cobrar as taxas imperiais. O imperador ficou ainda mais furioso. A cada passo que dava, sacrificava um pedaço do seu poder e mais regredia.

Foi então que tomou a decisão final. Existia alguém que sobreviveu a essa política podre dos poderes e somente ele poderia ajudar o imperador a tentar reverter essa situação.

Com uma pequena comitiva, o imperador se preparou para sua longa viagem. Tirou suas roupas caras e vestiu uma armadura repleta de detalhes dourados. Sentiu-se forte e confiante e, quando um soldado falou que o protegeria se algo acontecesse, ele retrucou e falou que devido ao seu histórico de atleta ele não precisaria de ajuda.

A cavalo, andaram por quase uma semana em direção norte da Cidade Imperial, até chegarem à parte mais antiga do império, onde a colonização de todo o império se iniciou, há muitos séculos.

A excursão chegou em um dia chuvoso e escuro à cidade de Castigador. O imperador já vinha alimentando uma angústia em seu peito de pôr os pés naquele lugar e o clima não estava ajudando.

Depois de deixar os cavalos e as cargas em uma estalagem afastada do centro da cidade, disfarçados, andaram pelas ruas até encontrar o Castelo Temerário.

A maioria dos castelos do império foram reduzidos a simples museus depois da invenção da energia e da pólvora. Entretanto, aquele ali era onde morava o ser mais sinistro e mais antigo de toda humanidade. Aquele que governava o império antes do atual imperador. Dono de uma lábia e artimanha que todos invejavam, era responsável por manipular e tomar o trono a força. Depois de assumir o posto de imperador sem ser eleito, quase perpetuou seu feito para toda eternidade.

O Temerário Senhor das Trevas não só era temido, como era odiado por todos. O senhor das sombras tinha a habilidade de ver o ódio quase como se fosse palpável. E o ódio o alimentava. Ódio e sangue.

O imperador entrou no salão vazio sentindo o frio tomar conta de seu corpo. As paredes geladas do castelo eram tão opressoras que parecia que iriam cair sobre eles. Enfrentando o medo que a escuridão causava, avançaram, arredando crânios e teias de aranha, até chegarem no salão principal, que estava vazio e sem ninguém para lhes recepcionar.

— Ó, Temerário Senhor das Trevas! — Gritou o imperador e sua voz quebrou o silêncio como um trovão. — Eu invoco sua presença! Eu, Imperador dessas terras, venho aqui em busca de conselhos seus, já que esteve em meu lugar no passado.

Uma revoada de morcegos ocupou o teto do salão. Uma centena de criaturas voavam em um estardalhaço, gritando e assustando ainda mais os soldados que acompanhavam o imperador. Os morcegos começaram a se aproximar, descendo do teto em forma de redemoinho, quase como o desenho de um tornado, iluminado apenas pela luz das tochas que os soldados carregavam.

A ponta afunilada tocou o solo e, aos poucos, os morcegos foram se unindo, assumindo a forma de um ser humano. Quando o processo de metamorfose terminou, um homem vestindo um fraque e gravata estufou o peito, com um sorriso amarelo e duas presas que refletiram a luz das tochas. Seu olhar era vil e opaco. O ser era tão velho que um simples sopro o derrubaria no chão e todos seus ossos quebrariam.

— Pois olhe só! — Falou o vampiro. — Quem vem aqui, na minha casa, um ano depois de me destronar.

— Pera lá! Essa questão aí, não foi coisa minha. Ha Ha Ha. Eu fui eleito, e naquela questão lá, quando você virou imperador, eu até estava do seu lado.

— Entendo! Pois então, diga-me, a que sua presença em meu castelo se deve, então? Além de tomar a minha atenção.

— Senhor, venho em busca de conselhos, entendeu! Tenho o senhor como referência, uma vez que nessa questão aí… de tomar o trono a força, soube negociar com o parlamento e com os patifes da suprema corte, pondo panos quentes e se mantendo no poder.

“Então, ó, Temerário! O que devo fazer para seguir os seus passos?”

— Entenda, jovem humano, que mesmo que você queira, você não possui o vasto conhecimento que tenho para uma situação dessas. Mas dar-te-ei uma opção, que pode te ajudar:

“Dentro do parlamento existem dois grupos podres que são de fácil corrupção. Um deles é formado por criaturas sombrias como eu: Vampiros, Lobisomens e Esfoladores Mentais que se alimentam do sangue, carne e cérebro dos seres vivos. Prometa-os mais alimento e eles te seguirão. Prometa escravos mentais e os Esfoladores serão seus.

“Mas tem uma outra bancada, que está sedenta de poder. Porém para comprá-la você precisará de coragem. A Bancada dos Necromantes. Libere o uso da Necromancia e Magia Negra dentro do império e eles te seguirão como se não houvesse amanhã. Não importa a loucura que você esteja disposto a cometer.

“Compre esses dois grupos e o parlamento será seu.”

O imperador retornou para a Cidade Imperial com a sugestão do Temerário em sua cabeça. A bancada das criaturas sombrias e podres foi convencida com muita facilidade. Oferecendo a eles setores do império nos quais eles poderiam se alimentar e parasitar sem limites, começaram a apoiar o imperador e o caos se iniciou no parlamento.

Comprar somente os vampiros e companhia não foi suficiente para pôr suas vontades a força no parlamento. Sem opção, o imperador fez o que tinha que ser feito. Em um dia, acordou cedo como deveria, foi para o palanque imperial, onde podia fazer seus discursos, e esperou seus fiéis se aglomerarem.

— Meus caros seguidores! — Gritou o imperador, levantando os braços. — Hoje é um dia importante, pois é início de uma nova etapa do meu governo. Eu hoje proclamo meu primeiro ato. O Ato Imperial I, o primeiro de muitos. E nesse ato, eu proclamo a Necromancia e Magia Negra como artes livres dentro do império.

A notícia do Ato Imperial I caiu como uma bomba. A Suprema Corte reagiu, mas era tarde demais. No mesmo dia, o imperador já tinha apoio de mais da metade do parlamento. Ocupados por Necromantes e outras criaturas sombrias, a política imperial virou um circo, digno de ser escrito em pergaminhos históricos.

O caos também desceu todas as esferas do governo até chegar à população. A mudança drástica na política fez muitas pessoas acreditarem que algo bom estava por vir e que surgiria uma nova era de fartura. Logo os reis locais começaram e enfrentar rebeliões e desordem em níveis descontrolados.

Em São Tarso, outros regimentos de mercenários, pagos por sabe-se lá quem, surgiram para enfrentar a Companhia dos Metalúrgicos e dominar as ruas, trazendo a liberdade mais uma vez para a população.

Enquanto o imperador e os reis regionais brigavam por política, o parlamento seguiu dividido. A Suprema Corte perdeu seu poder de influência e não conseguiu mais colocar as leis imperiais em vigor.

Nas ruas, os sofistas seguiram espalhando mentiras sobre os reis e as atitudes dos mesmos. Convenciam as pessoas de que a Panaceia do Imperador era o melhor remédio e que preveniria todas as doenças existentes no mundo.

Enquanto isso, pessoas seguiam morrendo, longe da atenção de todos.

E a Chama Purificadora seguia cada vez mais forte.

***

Os limites Norte e Oeste de São Tarso marcavam uma região crítica do reino de Adão Glória. Ali ele lutava contra a chegada da Chama Purificadora em suas terras. Os dois vizinhos que o reino tinha, ao norte e ao oeste, já sucumbiram para a peste e, aos poucos, pessoas que fugiam para seu reino vinham trazendo a doença.

Naquele lugar medonho, a Companhia dos Metalúrgicos fazia plantão, com seus lança-chamas, impedindo que qualquer um se aproximasse. Mas agora, com a intervenção das outras companhias contra eles, o espaço estava aberto e pessoas tentavam mais uma vez cruzar aquela fronteira buscando por proteção.

A faixa de cinzas, com quase um quilômetro de extensão, mostrava a todos que ali vegetação, cidade e pessoas foram carbonizadas. Quando a chuva chegava, a cinza levantava e se misturava com as nuvens, fazendo a chuva cair em cor negra sobre outras cidades. Um casebre todo queimado, mas ainda em pé: foi onde o encontro aconteceu. Adão Glória, vestindo uma roupa preta com máscara, entrou pela porta e deixou os guardas do lado de fora.

Lá dentro, Horácio, que era um necromante que Adão conhecia, esperava, segurando uma caveira em sua mão e admirando as cinzas que ainda estavam em volta daquela estrutura que um dia foi a cabeça de alguém.

— Seu Horácio, — começou Glória, sem paciência — eu preciso de você. Sei que recusei seus serviços antes, mas agora preciso de suas habilidades. Pago o que for preciso.

— Curioso, não? — Comentou o necromante, sem tirar os olhos da caveira. — Nunca na história desse povo eu vi algo desse tipo. Eu tenho é que agradecer à natureza por ter criado essa praga, que mesmo que coloque vidas em risco, essa criação veio em boa hora para mostrar que somente a necromancia pode resolver certas crises. Essa situação somente os mortos podem resolver.

O necromante tirou os olhos do crânio e apontou para o rosto espantado do rei Adão.

— Majestade, tenho permissão para agir?

— Permissão e o ouro que precisar. Preciso estar no controle do meu reino.

— Mas há um preço. A solução que virá não irá salvar as vidas que poderíamos ter salvo se tivéssemos usado a necromancia antes, ou se o Imperador não tivesse se intrometido por aqui.

— Agora as vidas não importam mais.

— Assim será!